A insurreição dos botequeiros

Saída inesperada do chef Eduardo Maya da organização do Comida di Buteco revolta donos de bares da capital, que prometem criar um novo festival de rua já a partir do ano que vem

por Augusto Franco 08/10/2013 16:58

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Geraldo Goulart
Marcos da Matta Machado, o Patorroco, bicampeão do evento: "Já estava insatisfeito com a organização. A saída de Maya foi a gota d'água" (foto: Geraldo Goulart)
 
 
Passava das 2h da madrugada de domingo para segunda-feira, dia 2 de setembro – o horário tradicional do encontro de donos de bares de BH, que se reúnem uma vez por mês para colocar o papo em dia –, quando o gastrônomo e criador do festival Comida di Buteco, Eduardo Maya, pediu a palavra. Era seu aniversário. Apesar disso, o tom não era de alegria. Em um discurso de pouco mais de seis minutos realizado na churrascaria do Itamar, no bairro Esplanada, discorreu sobre a dificuldade que foi criar o concurso gastronômico, em 1999, do crescimento do certame e de por que, devido a questões internas, ele estava, naquele momento, se desligando do festival.
 
O clima de comoção e solidariedade ao amigo e botequeiro foi imediato. Pouco mais de um mês depois daquela noite, os donos de algumas das mais tradicionais casas participantes do Comida di Buteco garantem que não pretendem participar da próxima edição. É o caso de Marcos da Matta Machado, o Patorroco, dono do bar Patorroco, no bairro Prado, vencedor em 2012 e 2013, que já comunicou oficialmente à direção do evento sua saída. "Já estava insatisfeito com os rumos definidos pela organização. A saída de Maya foi a gota d’água", revela.
 
Samuel Gê/Encontro
Eliza Fonseca, do Bar da Lora: "Foi o Maya que me descobriu, que me ajudou em todos os momentos. Sem ele, simplesmente não sinto vontade de continuar no concurso" (foto: Samuel Gê/Encontro)
 

Segundo ele, de três anos para cá, começaram a haver imposições, como a do uniforme dos garçons e a da venda de certos produtos, com os quais não concordava. Patorroco destaca que aquilo que mais o atraía no evento era a gastronomia de raiz com seus matizes, com o sotaque de cada dono, com pitadas de tradições árabes, italianas, e de tantas cidades do interior de Minas. "Isso está indo embora de vez. E, nesse momento, é exatamente isso que buscamos no nosso estabelecimento. Assim, resolvemos tomar outro caminho", diz.

Menos cheia de argumentos mas portadora da mesma certeza, Eliza Fonseca, a Lora, do Bar da Lora, no Mercado Central, também não participará em 2014. O bar foi eleito o melhor do concurso em 2010 e, nos cinco anos que participou, sempre ficou entre os cinco mais bem votados. Segundo ela, o festival foi muito importante para a história de sua casa. Mas, sem Maya, não será a mesma coisa. "Foi ele que me descobriu, que me encorajou a participar, que me ajudou em todos os momentos. Ele era o meu contato lá dentro. Sem ele, simplesmente não sinto vontade de continuar no concurso. Mas isso depende da consciência de cada um", pondera.
 
É também o que diz Jorge Lage, o Doca, do Bar do Doca, localizado no bairro Prado. Segundo ele, o festival tem uma grande importância para muitos bares da cidade, mas a saída de Maya marca o fim de uma era. "Acreditamos que o boteco tem de ir para a rua, precisa ter mais a cara dos donos dos bares. É isso o que vamos buscar." Segundo Doca, que entregou sua carta de desfiliação na última semana de setembro, o momento é de valorizar o produto local e o atendimento personalizado.
 
Pedro Nicoli/Encontro
Rômulo Silva, do Bartiquim: "Dos 45 participantes de 2013, pelo menos 38 estão fora. Sem o Eduardo Maya, o festival não faz sentido" (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
 

Depois de ficar em terceiro lugar em três edições, Rômulo Silva, o Bolinha, dono do Bartiquim, garante que os participantes estavam insatisfeitos com uma série de imposições. "Dos 45 participantes de 2012, pelo menos 38 estão fora. Era o Eduardo Maya que fazia o contato, que nos ouvia. Ele era nosso representante lá dentro. Sem ele, o festival, pelo menos em Belo Horizonte, não faz sentido", desabafa.

O empresário reclama das várias imposições dos últimos três anos e dos preços da festa de encerramento do evento em 2012 (os ingressos custavam R$ 100). E garante que o próximo passo é organizar os insatisfeitos para um festival de rua, feito pelos donos dos bares para seus clientes. "Queremos voltar à origem da coisa." Agora resta saber qual será o futuro do Comida di Buteco. Sinal de que muita água vai passar por baixo da ponte antes que a saideira chegue à mesa.

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