Muito além da loira gelada

Cervejarias premiadas de Belo Horizonte ampliam a produção, abrem as portas e transformam visita às fábricas em novo circuito gastronômico

por Augusto Franco 16/01/2014 13:28

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Pedro Nicoli/Encontro
De acordo com a Associação os Cervejeiros Artesanais de Minas Gerais, as 25 microcervejarias do estado produzem cerca de 800 mil litros da bebida (foto: Pedro Nicoli/Encontro)
Na obra A Fantástica Fábrica de Chocolate, livro infantil escrito, em 1964, pelo galês Roald Dahl, que recebeu versões para o cinema em 1974 e 2005, um concurso mundial dá a cinco crianças o direito de conhecer por dentro o processo produtivo de chocolates e outras guloseimas da mais famosa fábrica de doces do mundo, a Wonka, criada pelo empresário Willy Wonka. Meio século depois da publicação original, pequenos fabricantes de cerveja de Belo Horizonte resolveram abrir as portas de suas empresas e transformar a visita à fábrica em um passeio divertido para jovens e adultos.

As cervejarias Bäcker, no bairro Olhos d'Água, próximo à BR-040 no sentido Rio de Janeiro, e a Wäls, no bairro São Francisco, região da Pampulha, saíram na frente. Apesar de estar em pontos cercados de galpões e outras indústrias, ambas resolveram investir em infraestrutura para receber turistas, de Belo Horizonte e de outras cidades. Bäcker e Wäls já recebem visitas guiadas com agendamento prévio. Até setembro, no entanto, as portas devem ser efetivamente abertas a público. A Falke, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de BH, também integra o roteiro, que passa a ser divulgado no site da Belotur como uma das atrações da cidade, a partir de setembro próximo.

Em fase mais adiantada, a microcervejaria Bäcker, em atividade desde 1999, adaptou o terreno ao lado da antiga fábrica e transformou a área em uma espécie de minidisneylândia para os cervejeiros de carteirinha. Além de permitir ao visitante conhecer o maquinário que produz os 12 produtos da marca (cinco tipos de Bäcker, quatro rótulos Três Lobos e três qualidades de chope), a casa vai oferecer música ao vivo, sala para degustação, menu com tira-gostos e almoço executivo de quinta a domingo, além de uma loja onde serão vendidos insumos e até máquinas para fazer cerveja em casa.

"Vamos fazer parte de um amplo projeto para divulgar a cultura cervejeira dentro e fora do estado", revela a diretora de marketing, Paula Lebbos. Segundo ela, a nova estrutura, com mesas de madeira de demolição, paredes e piso de tijolos aparentes e aparadores de ferro, é mais um passo de uma missão que começou na época da fundação da empresa. "Fazemos um trabalho de ‘evangelização’ cervejeira", diz. Ou seja, o trabalho é convencer o público sobre as vantagens do produto artesanal.

Paulo Márcio/Encontro
Paula Lebbos na sede da Bäcker, no bairro Olhos d'Água: cervejaria terá restaurante, bar e até loja com produtos para fazer cerveja em casa (foto: Paulo Márcio/Encontro)
E a inventividade das receitas mineiras já vem rendendo louros. Em março de 2013, a Três Lobos Bravo – uma American Imperial Potter escura e amarga, maturada em tonéis de umburana (geralmente usados no envelhecimento de cachaça) – ganhou a medalha de ouro em sua categoria no Taste Award, em Bruxelas, na Bélgica, um dos mais disputados concursos cervejeiros do mundo.

Quem também começou de forma artesanal é a cervejaria Krug Bier, primeira casa de BH onde foi possível beber em meio aos tonéis de chope. Quase 20 anos depois, o mestre cervejeiro e proprietário Herwig Gangl, natural da Áustria e morador de um condomínio em Brumadinho, acredita que chegou a hora das cervejas especiais no Brasil. "Ainda falta logística e a carga de impostos é absurda, mas o público está atrás de cervejas melhores", afirma o empresário, que neste semestre vai aumentar em 30% sua capacidade de produção. Quase toda a nova capacidade será dedicada aos produtos mais sofisticados, como a recém-lançada Imperial e a Export. A loja-choperia da Krug Bier, que também produz as cervejas Áustria, fica no bairro São Pedro.

A inovação uniu um grupo cada vez mais amplo de cervejas com sotaque mineiro que caíram nas graças de apreciadores ao redor do mundo. Em 2008, o mestre cervejeiro e professor do assunto Marco Falcone surpreendeu o país ao apresentar sua Monasterium, a primeira bebida do tipo produzida pelo método de obtenção de champanhe no Brasil e, curiosamente, segundo ele, maturada ao som de canto gregoriano. Dois anos depois, lançou a Vivre pour Vivre, também achampanhada, que é feita com adição de jabuticaba.

Em Ribeirão das Neves, a Falke Bier também está ampliando sua produção. Com a nova fábrica, que deve estar em atividade a partir de setembro, o mestre cervejeiro Marco Falcone deve passar dos atuais 10 mil litros por mês para 70 mil litros mensais.

A atual líder de mercado em inovação é a Wäls, que vem lançando rótulos novos a cada seis meses. O último, uma extralager batizada como Jever, em homenagem ao tradicional restaurante alemão Stadt Jever, na Savassi, adquirido pelos irmãos Tiago e José Felipe Carneiro há menos de dois anos. São os dois que desenvolvem novas bebidas e vêm colecionando prêmios em um ritmo alucinante. Nesse curto período de tempo, eles criaram receitas ousadas como a 42, criada a pedido da Google. "A companhia queria um produto que não fosse um software. Aí nos procuraram. O resultado é uma cerveja feita com laranja-da-terra, café e amêndoas californianas, em homenagem a Minas, a São Paulo e à Califórnia", explica José Felipe.

Outra receita emblemática da Wäls é a Petroleum, criada pelos mestres da microcervejaria Dum, do Paraná. Trata-se de uma cerveja escura, de paladar aveludado com notas de café e chocolate. "É uma receita amiga. Eles desenvolveram, nós produzimos porque eles não tinham a tecnologia. Agora eles têm e estão produzindo. No meio cervejeiro somos todos amigos. O que fazemos é quase arte. Nós adoramos", destaca o empresário.

Geraldo Goulart
Herwig Gangl, proprietário da Krug Bier: investimento na fábrica reflete confiança na expansão do mercado de cervejas especiais (foto: Geraldo Goulart)
Segundo o diretor da Associação os Cervejeiros Artesanais (Acerva) Mineira, Humberto Ribeiro Mendes Neto, a principal diferença dos produtos de microcervejarias é que a bebida é feita dentro da lógica gastronômica, e não da lógica industrial. Vale mais a qualidade de ingredientes e a pluralidade de receitas, com suas possibilidades quase infinitas de harmonização, do que o volume vendido. "Os mineiros estão entendendo isso cada vez melhor", garante.

Dados da Acerva apontam que em 1999 Minas Gerais tinha cinco microcervejarias. Atualmente, são 25 registradas e, pelo menos, mais 20 em fase de obtenção de registro e outras duas centenas de cervejeiros caseiros. Somados, no entanto, todos eles produzem algo em torno de 800 mil litros por mês. Só a fábrica da Ambev, em Juatuba, na região metropolitana de BH, uma das quatro instaladas no estado, faz a mesma quantidade de cerveja em um turno de oito horas.

A qualidade, diz Humberto, é inversamente proporcional à variedade das bebidas. Enquanto a grande indústria não produz mais de seis tipos de cervejas no país – as únicas variedades reconhecidas pela legislação brasileira atualmente são clara, escura, leve, forte, de alta fermentação ou de baixa fermentação –, o manual internacional de produção contempla 28 famílias, com mais de 120 estilos de cerveja. Variedade para Willy Wonka nenhum botar defeito.

Confira quantos litros por mês fabricam as maiores cervejarias artesanais de Minas

  • Bäcker: 250 mil
  • Krug: 200 mil
  • Wäls: 30 mil
  • Falke: 10 mil

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