Conheça o mel de melato, que não vem das flores

Produzido pelas abelhas a partir de líquido excretado por pulgões, produto típico do norte de Minas pode ganhar denominação de origem, tal qual a champanhe

por João Paulo Martins 14/05/2014 09:42

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Pure-honey.eu/Reprodução
As abelhas extraem o mel a partir do excremento cheio de açúcar que é expelido pelos pulgões (foto: Pure-honey.eu/Reprodução)
Quem não gosta do alimento preferido do ursinho Pooh, famoso personagem da Disney? Claro que estamos falando do mel, e, neste caso, Minas Gerais se destaca no Brasil, sendo um dos maiores produtores – em 2012, segundo o IBGE, nosso estado ficou em quarto lugar no país. Além do produto tradicional, o norte de Minas se destaca pela produção do mel de melato, que, ao invés de ser produzido a partir do néctar das flores, é retirado do excremento dos pulgões, que sugam a seiva das árvores e eliminam um líquido açucarado.

“Como a sacarose passa pelo trato digestivo do pulgão, ela é quebrada e se transforma em novos açúcares, ou seja, melezitose e erlose. Eles não existem no mel criado a partir de flores”, explica Esther Bastos, pesquisadora da Fundação Ezequiel Dias (Funed), e responsável pela descoberta desse tipo específico de mel no norte do estado, a partir de pesquisa de campo realizada de 2009 a 2011. O melato é produzido por pequenos apicultores em regiões áridas. Os pulgões são encontrados no bioma chamado Mata Seca, que fica numa zona de transição entre a Mata Atlântica, o cerrado e a caatinga.

Esther Bastos/Funed/Divulgação
A região da Mata Seca, no norte de Minas, concentra a produção apícola desse tipo diferente de mel (foto: Esther Bastos/Funed/Divulgação)
Esther Bastos/Funed/Divulgação
O mel de melato é mais escuro, o que não atrai o consumidor, mas possui propriedades medicinais, e pode ganhar denominação de origem controlada (foto: Esther Bastos/Funed/Divulgação)
O nome “mata seca” representa bem a principal característica da região: a estiagem. Como essa parte de Minas fica sem receber chuva de maio a dezembro, a vegetação perde as folhas, e as abelhas deixam de conseguir o néctar das flores, e passam, então, a contar com a ajuda dos pulgões, utilizando o líquido doce que eles eliminam, para a produção de mel. Essa relação, em que uma espécie se aproveita do trabalho ou dos produtos de outra, é conhecida na biologia como esclavagismo. “O melato possui capacidade antimicrobiana. É um mel medicinal”, diz Esther Bastos.

Esse tipo de mel é muito consumido na Europa, onde é produzido, por exemplo, na Floresta Negra, na Alemanha. No Brasil, os estados de Santa Catarina e Paraná também possuem o melato, mas ao invés de as abelhas utilizarem os pulgões, elas o produzem a partir da seiva da bracatinga (espécie de árvore típica das regiões frias do sul do país).

Para que o produto mineiro se diferencie no mercado, ainda mais por ter a cor mais escura, o que o deixa menos atraente para os consumidores, a Funed, juntamente com a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf), está pesquisando a produção de 600 famílias, em 50 municípios do estado, para que se detecte a região específica do melato. Com isso, será feito, junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial, o registro do mel como Denominação de Origem Controlada (DOC), ou seja, ganha uma importante garantia de origem, reconhecida no mercado mundial. Essa chancela já existe, por exemplo, em vinícolas que produzem o vinho do porto, em Portugal, e na produção da champanhe, na região de Champagne, na França.

“O grande diferencial do nosso projeto é conseguir aumentar o valor de mercado do mel de melato. Claro que suas propriedades medicinais também ajudam”, conta Alex Demier, chefe da unidade de desenvolvimento territorial da Codevasf em Montes Claros. Ele explica que as famílias que vivem dessa produção se encontram numa situação de risco social, e qualquer aumento em suas rendas representa uma grande melhoria na condição de vida.

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