'No Brasil, cozinhar virou gourmet'

A apresentadora Rita Lobo, do canal GNT, fala à Encontro sobre como cozinhar deveria fazer parte do dia a dia do brasileiro

por Marina Dias 02/05/2016 08:53

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A apresentadora Rita Lobo, do programa Cozinha Prática, do GNT, veio a BH lançar seu livro e falou à Encontro sobre como cozinhar devia fazer parte de nosso cotidiano (foto: Divulgação)
Indo contra a corrente dos que acham que "nada pode" na alimentação – como glúten, lactose ou gordura –, a apresentadora do programa Cozinha Prática, do GNT, Rita Lobo, é a favor de que, sendo comida, tudo é permitido. Segundo ela, o que não deve ser ingerido são os falsos alimentos, ou seja, produtos altamente processados, industrializados, cheios de corantes e aditivos químicos. Se veio da terra ou é de origem animal e foi preparado em casa, "está valendo".

E deve ser simples também. Rita Lobo veio a Belo Horizonte na sexta, dia 29 de abril, para lançar o livro Cozinha Prática, elaborado em parceria com a editora Senac São Paulo, e que reúne todas as técnicas culinárias, truques de economia doméstica, sugestões de utensílios indispensáveis e receitas apresentadas na temporada #desgourmetiza de seu programa de TV. Na obra, a apresentadora foca nos básicos do dia a dia (como feijão temperadinho e arroz soltinho), especialmente a ideia de desgourmetizar a culinária.

À frente do site/produtora/editora/plataforma de vídeos Panelinha, ela conversou com Encontro sobre  hábitos culinários dos brasileiros e sobre como cozinhar deve ser prioridade na vida de quem não quer depender da indústria alimentícia. Confira, abaixo, a entrevista e bon appétit!

ENCONTRO – Por que você diz que cozinhar é como ler e escrever, ou seja, todos deveriam aprender?
RITA LOBO – Como cozinhar foi algo desvalorizado nas décadas passadas, fica parecendo que depende de dom, mas não é. As pessoas devem entender que é um aprendizado, e que não se precisa aprender sozinho. Além disso, é fundamental, porque é uma ferramenta para uma vida melhor. Saber cozinhar lhe dá mais escolha e mais liberdade: você não depende de ninguém para preparar algo e não tem que recorrer à indústria e seus produtos cheios de conservantes e aditivos químicos.
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Rita Lobo lançou em BH seu livro Cozinha Prática, que trata da "desgourmetização" da culinária brasileira (foto: Divulgação)

O que você caracteriza como "comida de verdade"?
A alimentação em casa, ou seja, o que é preparado em casa, e que sempre é mais saudável. As pessoas confundem alimentação com dieta. Se alguém tem uma alergia ou doença e não pode comer glúten ou lactose, por exemplo, tudo bem, é uma dieta. Mas, não se deve seguir esses modismos de que comer glúten engorda, comer lactose incha. Já houve outros modismos também, como a dieta do dr. Atkins etc. Todas passam. A comida de verdade é aquela que envolve ingredientes da terra e de animais, e que tenha passado pelo mínimo possível de processamento. Essa comida faz bem.

As pessoas alegam falta de tempo para preparar tudo em casa...
Falta de tempo é desculpa. Sempre vemos aquelas pesquisas que indicam, por exemplo, o tempo que as pessoas passam na frente da televisão, e é algo como três horas por dia. O que muitos não têm são habilidades culinárias – e que se aprende apenas cozinhando, praticando. Se tivessem essas habilidades, conseguiriam fazer pratos rápidos e não gastariam muito tempo em um preparo simples.

Por que criar o bordão "desgourmetiza, bem" para a atual temporada do seu programa de TV?
É mais uma 'tiração' de sarro. Como o brasileiro não cozinha com frequência, cozinhar virou coisa gourmet. Tem gente que sabe fazer risoto, mas não consegue fazer um arroz soltinho. E a proposta do programa – e também do livro que estou lançando – é abordar o dia a dia, o básico, que é feito com o que temos à mão: feijão, ervas e temperos que temos em casa. A partir desses ingredientes, pesquisamos tecnicamente qual a melhor forma de preparo e como reaproveitá-los de maneiras diferentes.
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Rita Lobo: "A comida de verdade é aquela que envolve ingredientes da terra e de animais, e que tenha passado pelo mínimo possível de processamento" (foto: Divulgação)

Para você, então, vale usar manteiga, leite e demais ingredientes que têm sido considerados inimigos da saúde?
Sendo comida, pode tudo. É preciso diferenciar daquilo que chamo de imitação de comida. Um molho de tomate industrializado que tem aroma sintético de manjericão, por exemplo. Você come, seu paladar reconhece aquele sabor, mas o corpo fica esperando o manjericão, que não está lá. Por isso é comida de mentira.

Você critica programas de culinária que colocam crianças em competição. Pode explicar melhor os motivos?
Acho que a relação com a comida já é complicada, atualmente, sem que se coloque as crianças competindo umas com as outras. Hoje, existe a 'medicalização' da comida, ou seja, come-se apenas em função do nutriente.  Ingerimos cenoura por ter betacaroteno, e não se toma leite por causa da lactose. Assim, cria-se uma relação de inimizade com a comida, o que não é saudável. Aliás, há uma pesquisa que foi feita com americanos e franceses sobre a relação com a comida, em que pediram para as pessoas dizerem o que lhes vinha à cabeça quando pensavam em determinados alimentos. Em relação ao bolo de chocolate, por exemplo, os americanos pensaram em culpa, ginástica e calorias. Na França, pensaram em festa, em prazer. Os franceses têm uma relação boa com a comida, e aí comem apenas o suficiente. E isso não é um paradoxo.

Você gosta da cozinha mineira?
Amo! E sempre fico conhecendo algo novo quando venho a Minas. Da última vez que fui a Ouro Preto, experimentei bambá [espécie de 'sopa'] de fubá com couve e achei bom demais. É uma cozinha maravilhosa, mas é uma comida que é preciso saber preparar, não dá para 'engalobar' [risos].

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