"A TV exagera"

por Andréa Castello Branco 05/05/2011 15:47

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Foca Lisboa/UFMG
None (foto: Foca Lisboa/UFMG)

Agressão a homossexuais na avenida Paulista, no centro de São Paulo. Deputados dando declarações racistas e homofóbicas. Nordestinos sendo enxotados pelo movimento “São Paulo para os Paulistas”. Torcida usando opção sexual como grito de guerra. E o bullying no centro de uma tragédia nacional. Nos últimos meses, a intolerância e a violência que dela decorre ocuparam o noticiário nacional. Afinal: o povo brasileiro, sempre tido como pacífico e generoso, teria se tornado mais intolerante? Ou estaríamos apenas mais à vontade para demonstrar nosso preconceito e agressividade, muitas vezes sob o véu do anonimato que os meios virtuais de relacionamento propiciam?

É sobre convivência, intolerância, educação e saúde mental que Maria Rita Kehl, psicanalista, ensaísta e escritora paulista discorre nesta entrevista a Encontro.  Ela veio recentemente a Belo Horizonte para participar do ciclo de conferências Sentimentos do Mundo, promovido pela UFMG. Seu mais recente livro, O Tempo e o Cão, foi o ganhador do Prêmio Jabuti de melhor livro na categoria não-ficção em 2010.

Maria Rita Kehl também foi pivô de uma das polêmicas da eleição presidencial de 2010. Após publicar artigo em que expressava sua opinião política no jornal O Estado de S. Paulo, teve suas colaborações canceladas. A psicanalista é conhecida por não fugir das polêmicas. E assim se mostrou durante a conversa com Encontro, não se esquivando de analisar o momento pós-Realengo. Criticou a “espetacularização” promovida pela comunicação de massa ao reverberar a violência e cobrou mais atitude das escolas. “Não autorizar o bullying significa tentar detectar, intervir, fazer a classe incluir os tímidos ou os diferentes. A omissão escolar nesse ponto é muito séria”.

ENCONTRO – Diante de tantas atitudes de discriminação nos últimos meses no Brasil, é possível afirmar que estamos ficando mais intolerantes?
MARIA RITA KEHL – Em termos coletivos eu não saberia responder. A intolerância já foi política de Estado no Brasil. Por isto não podemos dizer que estamos piores do que já estivemos. Algo avançou. Mas gostaria de fazer uma provocação inspirada no filósofo Slavoj Zizek. Ele diz que tolerância é uma palavra estranha, porque traz nela mesma o pressuposto do outro como pior. Posso dizer que eu tolero os gritos de uma criança barulhenta, que é chato, mas ela é uma criança. Eu tolero a festa no vizinho, que me incomoda e não me deixa dormir, mas é um aniversário, então preciso tolerar. Agora, dizer que é preciso tolerância com um negro é ofensivo. Está errado. Não se trata de tolerá-lo, como se ele fosse uma presença errada naquele lugar e eu, muito ‘generosa’, devo ser tolerante. Prefiro um conceito freudiano muito importante na psicologia de massa que se chama narcisismo das pequenas diferenças. Ele é mais iluminador.

ENCONTRO – Você poderia explicar esse conceito?
MARIA RITA KEHL – Ele diz que somos intolerantes não com o exótico, o completamente diferente de nós. Aquilo que é muito diferente, você pode até dizer que ‘tolera’, no bom sentido da palavra. Um perfume que não suporto, uma música de que não gosto, não me provoca intolerância... Quando é que somos intolerantes então? Quando o diferente é parecido demais com o que você não gostaria de ser. Ou com aquilo que você tem medo de ser. Mas, atenção: não estou dizendo com isto, por exemplo, que todo homofóbico é um gay enrustido. Isso é clichê. Mas todo homofóbico está tentando excluir algo que também diz respeito a ele. O que o racista odeia e projeta sobre o negro, o judeu ou o chinês é que o aproxima dele ou o que ele gostaria de ser.

ENCONTRO – Você acha que o mundo virtual colabora com a prática da discriminação?
MARIA RITA KEHL – A internet é um instrumento importante e progressista. Não tenho nada contra a internet. Ela possibilita que manifestações de rua internacionais possam ser convocadas, que manifestações individuais que não teriam lugar na mídia ganhem voz. Mas, por outro lado, ela permite a covardia, permite que uma menina anônima diga “afogue um nordestino” em seu blog. Que ela pense isso é um problema dela e dos pais dela, que a educaram assim. Mas a partir do momento que ela coloca isso publicamente, é um problema que tem que nos fazer pensar. Nós vamos tolerar isto? Aí sim temos a questão da tolerância. Com que temos de ser intolerantes? Tem coisas que não têm que ser toleradas. A intolerância não tem que ser tolerada. A incitação à violência não pode ser tolerada. A discriminação de uma cultura, uma região do país, uma opção sexual ou a cor de pele é intolerável. Devemos ser tolerantes com essa intolerância? Eu acho que não. Agora, com o meu semelhante negro, gay, anão, tímido, seja o que for, não tenho que ser ‘tolerante’, tenho que respeitar.

ENCONTRO – O bullying tem sido tratado de forma sistemática nas escolas?
MARIA RITA KEHL – Tenho impressão de que as escolas – e isso não é apenas no Brasil, é no mundo – têm se omitido. Nos Estados Unidos teve um menino que se matou e a escola disse apenas: “Não temos nada a ver com isso”. Esse é o resultado de uma cultura do “cada um cuida de si”. Então, são duas coisas diferentes: uma é a crueldade infantil, que, aliás, sempre existiu. Outra é como a escola se posiciona. É preciso o debate. Todo mundo tem um episódio de crueldade infantil na sua vida. Seja porque era magro, gordo, feio, não importa... Agora: existem crianças que se defendem e crianças que engolem aquilo. A ideia de que a tarefa do professor e da escola termina quando o aluno atravessa o portão é pouco implicada com a educação: a educação vai além disso. A escola deve ser um espaço onde se discute, onde aprendemos sobre respeito e várias outras coisas. Não é possível autorizar o bullying. E não autorizar significa tentar detectar, intervir, fazer a classe incluir os tímidos ou os diferentes. A omissão escolar nesse ponto é muito séria. Claro que isso não quer dizer que toda pessoa que sofra bullying vai reagir como o Wellington [Menezes de Oliveira, o atirador da escola no bairro do Realengo, no Rio, que matou 12 crianças e adolescentes em abril]. Mas traz um sofrimento evidente. Uma humilhação que pode levar algumas crianças a ficarem mais violentas.

ENCONTRO – Como lidar com os agressores?
MARIA RITA KEHL – No geral, quem sofre o bullying são crianças mais fracas. Ninguém vai praticar bullying contra o fortão da classe. E tem uma coisa muito importante, que é a covardia. O bullying é covarde. São muitos contra um. Geralmente, tem um que lidera e os outros aderem para não sofrerem também, e esse fortão sozinho, quando confrontado, é covarde. Se a escola conseguir detectar a liderança e, digamos, conseguir responsabilizar este aluno, ela pode desfazer a situação. Não estou falando de desmoralizar o aluno, mas o recurso que ele utiliza para desfazer do outro.

ENCONTRO – Apesar dos relatos de bullying, a chacina de Realengo parece ter outras causas.  Como você avalia a política de saúde mental brasileira?
MARIA RITA KEHL – Apesar de o bullying  ser intolerável, ele sozinho não explica a tragédia. Mas, infelizmente, nesse caso também não podemos discutir a política de saúde mental. Explico: o Wellington nunca procurou um serviço de saúde mental. Quando acontece uma tragédia assim, que nos ameaça a todos, já que qualquer um pode chegar aqui metralhando, nós queremos encontrar culpados. Também queremos a garantia de que podemos prevenir. Mas nós não temos como nos prevenir de surtos psicóticos. São raríssimos, mas não temos garantias que não existirão. Um amigo veio me dizer: “A reforma manicomial permitiu que essas pessoas fiquem pela rua”. Eu digo que a reforma manicomial permitiu que milhões de pessoas que viviam como lixo e bicho pudessem voltar para suas casas em condições mentais próximas da nossa. Tudo bem, os centros de atenção psicossocial podem não ser suficientes, não defendo a política de saúde mental. Só não acho que nesse caso a crítica se aplique. O psicótico não deixará de ser psicótico, mas precisa haver instituições que o permitam existir no mundo com seu jeito especial de ser, sem ficar trancado “na casinha”.

ENCONTRO – Mas um psicótico precisa de cuidados, de medicação. A família e escola poderiam ter ajudado um jovem nessas condições?
MARIA RITA KEHL – Temos no Wellington o que chamamos de psicótico funcional. Ele vivia normalmente, ia para a escola, chegou a trabalhar e não há nenhum relato de alguém que tenha percebido que ele estava completamente delirante. Até onde eu sei, não houve um sinal de alerta. Ele era muito ligado à mãe adotiva, então não era um abandonado. Mas essa mãe podia não saber o que ele estava fantasiando. A alternativa preventiva para uma história dessas é bastante questionável: polícia nas escolas? Detectores de metal? Não acho boas as alternativas. A única garantia seria criar um Estado policialesco intolerável.

ENCONTRO – Você é também jornalista com alguns estudos sobre TV. Nesse crime havia um farto material gravado pelo assassino, o que contribuiu para que a violência se tornasse âncora de audiência. Como você vê isso?
MARIA RITA KEHL – A espetacularização da violência é um problema. E um problema de difícil solução, uma vez que as TVs abertas estão concorrendo uma com a outra. Então você tem um produto: um casal que mata uma menina, um psicótico que sofreu bullying e mata um monte de criança. E esse produto aumenta a audiência do telejornal. Não tem como dizer: “Não venda esse produto”. Agora, a ética da TV não pode vir do Estado. Ou seria censura, o que todos nós somos contra. Acredito que as emissoras têm que ser capazes de regular a exploração na divulgação da violência. Por outro lado, o Estado poderia cobrar algumas obrigações que estão na Constituição e não são cobradas. A função educativa e cultural e a ética no uso da imagem. A BBC inglesa, por exemplo, tem um código ético para tratar as questões de violência. A televisão brasileira não tem regulação, com exceção da pornografia.

ENCONTRO – Quais efeitos esse tipo de exposição da violência pode ter?
MARIA RITA KEHL – Tem efeitos importantes e que vão além do trauma. Se você espetaculariza, você cria outro problema, que é a identificação. Ao ser convidado a assistir várias vezes a uma imagem chocante, a maioria de nós se identifica com a vítima e pensa ‘como está sofrendo a mãe, a professora’. Mas tem gente que se identifica com o agressor. São pessoas que estão procurando uma saída para o seu conflito, para a sua violência, para as fantasias horríveis que elas não conseguem conversar com ninguém. E é isso o que me preocupa quando ocorre um crime muito terrível: o risco de termos dois ou três iguais por efeito de identificação provocado pela exposição maciça dessas imagens.

ENCONTRO – Como ajudar crianças e adolescentes a entender episódios assim?
MARIA RITA KEHL – Não tem nenhuma receita. Uma vez trabalhei com educadoras de uma ONG em SP chamada Casa da Árvore. Ela atua nas favelas tentando minimizar os efeitos do trauma da violência. E o pessoal não sabia o que fazer quando as crianças começavam a ter o traficante como o herói. O que fizemos foi estimular a fantasia de como poderiam vencer o mal. Os pais e educadores podem estimular a fantasia, porque esse é o primeiro recurso de potência da criança, o ‘eu posso’. Se ela não consegue nem fantasiar, ela não vai conseguir inventar um jeito de se defender e se proteger.

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