O domador

por Carolina Godoi 07/05/2011 16:09

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Divulgação, Cláudio Cunha, Eugênio Gurgel, Oscar Godofredo e Arquivo Pessoal
None (foto: Divulgação, Cláudio Cunha, Eugênio Gurgel, Oscar Godofredo e Arquivo Pessoal)

Década de 90 em Esteio (RS), sede de uma das mais tradicionais exposições internacionais de animais do mundo. No centro do palco, lá estavam o cavaleiro Fernando Mello Vianna e a égua Pupila da Quitanda. A apresentação de adestramento corria às maravilhas, como previsto: Fernando já era reconhecido como excelente treinador de cavalos, ao passo que Pupila, preparada durante quatro meses numa fazenda no interior mineiro, mostrava de fato ser uma égua excepcional. Até que, não se sabe de onde, surgiu, no centro da pista, um cachorro. O espetáculo, impecável até então, corria perigo. Sem rédeas, guiando o animal usando apenas comandos de corpo e pernas, o cavaleiro parou Pupila, cochichou-lhe algo ao ouvido, e o que se viu depois foi coroado com intermináveis aplausos pelos mais de 50 mil presentes.

O próprio Fernando explica: “Simulei uma corrida atrás de um boi, só que estava diante de um cachorro, bem mais ligeiro”. Pupila percebeu o alvo e o cercava de todas as formas. O cão ia para a direita, Pupila cercava-o pela direita. Para a esquerda, idem. Exausto, o cachorro sentou-se no meio do palco, abrindo a deixa para o cavaleiro aproximar-se, postar a égua ao lado e cumprimentar o público. “O público achou que o cachorro era meu e aquilo havia sido ensaiado”, diz. “Mas foi tudo de improviso”. No dia seguinte, o cavaleiro estampava a capa do principal jornal da região.



Fernando Mello Vianna e sua equipe: juntos já conquistaram os maiores prêmios  do Mangalarga Marchador

Histórias assim recheiam a vida de Fernando Mello Vianna, nascido em Belo Horizonte há 45 anos, representante da quarta geração de uma família de Fernandos. Em comum, além do nome, o espírito desbravador, rompedor de fronteiras e o jeito "pros cocos" de ser. "Mello Vianna tem dia para sair, mas não para voltar", dizia Edina Poni, avó do cavaleiro Fernando. Seu bisavô, o primeiro dos Fernandos (1878-1954), foi governador de Minas, presidente do Senado e vice-presidente da república no governo Washington Luiz (1924-1926) – foi, alias, o segundo mulato a ocupar o cargo no país, depois de Nilo Peçanha. Morreu sem acumular posses.

O segundo da lista, seu avô, adentrou pelas minas, descobriu riquezas e se tornou um industrial dono de muitos bens e dinheiro. Não satisfeito, quis conquistar além das montanhas. Tornou-se dono de muitas fazendas, uma delas no Rio de Janeiro, onde hoje é boa parte dos bairros Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Muitas mulheres, uma vida de gastança e esbanjação torraram a fortuna da família, que também ficou marcada por um crime passional: sua primeira mulher, Edina Poni, assassinou, com o auxílio de uma irmã, uma das amantes do marido, num caso que ficou famoso e conhecido como o crime das “irmãs Poni”.
 




Xuxa, Marcos Palmeira e Luana Piovani: artistas já passaram pelos treinamentos do mineiro

Algumas fazendas, de tão largadas, foram tomadas por posseiros e invasores. O pai do cavaleiro, o terceiro Fernando, tornou-se pecuarista e um inquieto por natureza. Já teve terras em Paracatu (MG), Pompéu (MG) e no norte de Minas. Por fim, resolveu romper as divisas do Pará e hoje lá concentra suas posses.

O quarto da geração herdou do pai o gosto pelas fazendas, caçadas e pescarias. Montou um cavalo pela primeira vez aos 5 anos e nunca mais largou o bicho. Mesmo casado, vive em viagens. Passa quase a semana inteira pelo Brasil afora. Assim como fazia o bisavô político, o avô industrial e o pai pecuarista.

Em 1990, com 25 anos, Fernando Mello Vianna já era um cavaleiro vitorioso, que acumulava prêmios principalmente nas provas de Cross. Foi então, cheio de si, disputar uma prova no Rio de Janeiro para a qual era o franco favorito. Estavam, ele e seu animal, invictos.. Perdeu para um senhor até então desconhecido para ele, de nome coronel Mário Gonzalez. Um mês depois, nova competição, nova derrota. Para o mesmo senhor. Fernando ficou possesso de raiva. Na entrega do prêmio final, o tal vencedor o provocou: “Você perdeu porque é um índio montado num cavalo doido”. A raiva aumentou e o acontecimento se transformaria, nas palavras do próprio Fernando, num divisor de águas em sua carreira.

Dois anos depois, Fernando foi levado pelo pai à Escola Nacional de Árbitros, em Florestal (MG), onde faria provas de equitação com o intuito de se tornar juiz oficial. Havia 200 competidores e Fernando estava com o braço quebrado, depois de uma queda de cavalo. Quando lá chegou, logo defrontou-se com o instrutor responsável pela avaliação dos candidatos. Surpresa: coronel Mário Gonzalez. Ele vai me dizer, pensou Fernando, “lá vai o índio de braço quebrado montar o cavalo doido”. Foi o primeiro colocado e aprovado para o quadro de árbitros da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM).

O coronel passou de adversário a mentor: foi ele quem o levou para a Escola de Equitação do Exército Brasileiro, em Realengo, no Rio. “Lá, eu me profissionalizei” diz Fernando. “E o coronel tornou-se o maior responsável pela minha evolução como cavaleiro e por meu apuro técnico”.

Na cidade maravilhosa, foi logo descoberto pela TV Globo e passou a dar aulas de equitação para os artistas, treinar os cavalos de todas as novelas, até arriscar-se como dublê em gravações de seriados, nas cenas de maior periculosidade. Na época, treinou atores como Marcos Palmeira e Eduardo Moscovis, e as atrizes Débora Secco e Luana Piovani. “No fim do treinamento, a Luana chegou a me dar um presente pelo meu cuidado e paciência ao ensiná-la”, afirma. Apesar de não ter tido contato direto com Xuxa Meneghel, Fernando treinou todo o staff da fazenda da apresentadora. Para aperfeiçoar-se, o mineiro fez treinamentos na Alemanha, França e na Real Escola de Arte Equestre de Jerez de La Frontera, na Espanha.

Nessa época, Alexandre de Miranda, então presidente do Mangalarga Marchador, a maior associação de cavalos do país, resolveu montar uma Escola de Marcha e Adestramento (EMA) com vistas a divulgar a cultura equestre pelo Brasil. Contratou o coronel Gonzalez como chefe da escola e este chamou Fernando para fazer apresentações de rédeas pelo país afora. O jovem cavaleiro tornou-se conhecido nacionalmente. Ganhou fama entre criadores e passou a ser convidado para dar cursos de norte a sul. Com o sucesso, decidiu deixar a carreira de árbitro no final dos anos 90.

Sugeriu à Associação dos Criadores de Mangalarga Marchador (ABCCMM) que fosse criado o primeiro Centro de Treinamento de Marcha do Brasil, onde criadores pudessem levar seus cavalos. Antes, isso tinha de ser feito nas próprias fazendas, o que onerava e tornava a atividade mais lenta e difícil. A Associação decidiu montar o tal centro numa fazenda arrendada, em Inhaúma (MG), da empresária Cristiana Gutierrez, criadora de cavalos e herdeira de um dos maiores grupos empresariais do país, a Andrade Gutierrez. Para lá seguiu Fernando Mello Vianna, onde conheceu a fazendeira e logo surgiu um romance. Casaram-se, tornaram-se sócios numa agropecuária no Norte de Minas e tiveram uma filha: Fernanda.




Bárbara Klein e seu cavalo Lendário, no CT do treinador mineiro, onde começou com 13 anos: hoje, com 17 anos, ela já é a melhor amazona do país

Mais uma para a lista dos nomes repetidos. Separou-se de Cristiana Gutierrez, com quem mantém boa relação, e desfez a sociedade. Vida pessoal em baixa, carreira em alta. O trabalho de Fernando andava a passos de galope. Pelo menos até 2002. Naquele ano, um novo presidente da ABCCMM, Nelson Boëchat, já falecido, brigou com o cavaleiro. “No primeiro dia de reunião que tivemos, eu o contestei”, disse Fernando. “Ele não gostou e eu fui embora. Fui abrir novas fronteiras”.

Fernando arrendou, agora ele próprio, uma fazenda em Pedro Leopoldo (MG) e montou o primeiro centro de treinamento equestre privado do Brasil, que batizou de CTE. Voltou a galopar. “Quando vi, o lugar estava cheio de animais para que eu os treinasse”, diz.

“Não foi nada planejado”. Em 2003, ele já tinha 80 cavalos. Também no primeiro ano conseguiu uma façanha rara: conquistou os dois mais importantes títulos do campeonato nacional do cavalo Mangalarga Marchador. Seu CTE bombou. E a vida pessoal também. Partiu para o segundo casamento, com Carolina Marques, que conhecera quando ela tinha 13 anos. “Ela é um fenômeno, mas difícil de domar”, brinca o treinador.

Fernando passou a ser procurado por empresários, donos de banco e políticos. Treinou os peões da fazenda do senador Aécio Neves em Oliveira (MG) e de Lael Varella Filho em Muriaé (MG). Magdi Shaat, atual presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Mangalarga Marchador e proprietário do Haras Elfar em Lavras (MG), comemora os êxitos de seu criatório dando crédito ao cavaleiro: “Eu tinha um égua extraordinária, mas quase impossível de ser domada.”, diz Magdi. “Fernando pediu para cuidar dela. Dedicou-se ao animal durante dois anos. Hoje, ela é bicampeã nacional.” Outro que não poupa elogios é Breno Patrus, filho do ex-deputado estadual Agostinho Patrus (morto em 2008), e destacado criador: “ele tem um entusiasmo que contagia”.

Hoje, Fernando treina os cavaleiros mais bem sucedidos nas competições e lida com cavalos em haras espalhados por praticamente todos os estados brasileiros. Nos 15 hectares de seu CTE , a 25 quilômetros da capital mineira, Fernando e seus empregados treinam simultaneamente 25 cavalos em regime de competição. Lá, junto a uma bela vista da natureza e dos aviões que levantam voo a cada 10 minutos no aeroporto de Confins, a equipe ministra o único curso brasileiro profissionalizante de peões e criadores de cavalos Mangalarga Marchador.

Em 2010, atingiu a glória. Conquistou de forma inédita os 3 títulos no campeonato nacional, considerado a “tríplice coroa no Mangalarga Marchador”. Tem, atualmente, equipes formadas em cada estado brasileiro. Uma delas trabalha no haras do empresário Maurício Odebrecht, dono de uma das maiores fortunas do país, responsável pelas fazendas do grupo Odebrecht. O próprio Maurício resume assim a importância do treinador mineiro: “Todos os nossos 28 campeonatos nacionais se devem à passagem dele por nosso haras na Bahia”.

Mas é em Minas que está, atualmente, o orgulho maior de Fernando. Enquanto fala do seu CTE, em Confins, ele aponta para uma adolescente montada num mangalarcha marchador. Ela percebe e faz uma pequena apresentação. O animal se deita e depois cumprimenta quem está assistindo a performance. O cavalo está em perfeita sintonia com Bárbara, nome da jovem amazona que o comanda. Bárbara Klein, 17 anos, já conquistou quase 30 primeiros lugares em competições de marcha em todo o país e atualmente carrega o título de melhor amazona brasileira “Foi com ele que aprendi tudo o que sei”, diz ela, apontando para o dono do CT. Fernando sorri, e devolve os méritos à jovem: “Ela será uma das maiores da equitação brasileira”.

Fernando sabe bem o que é isso. Já perdeu as contas de quantas vezes subiu ao pódio e de quantos cavalos campeões já treinou. Há anos que quase todo pódio de mangalarga marchador tem o dedo do treinador – seja com o cavalo que ele adestrou, o cavaleiro que ele treinou, a amazona ou o peão.

Ele tenta explicar a façanha da técnica que criou: adaptar a equitação clássica de nível europeu para o cavalo brasileiro de marcha. “Foi difícil, muitos tentaram e fracassaram, ou porque não tinham o embasamento da marcha ou não tiveram sensibilidade suficiente para a cultura brasileira”, afirma.

Mas o trunfo de Fernando, aquilo que ele diz que é sua marca registrada, é a equitação de acabamento do cavalo, ou seja, colocá-lo no seu auge para competir. Para isso, precisa entender exatamente o que o animal precisa, ser sensível para a parte psicológica, e conhecer profundamente todos os pontos do corpo dele. Para o treinador, a iniciação correta do adestramento é muito importante. “O cavalo não é um predador na natureza, por isso é muito desconfiado e, ao mesmo tempo, carente, pois só vive em bando. Sempre estará procurando outros companheiros. Se eu entender as necessidades vitais do cavalo, eu o conquisto para sempre.”Mas como entendê-las, Fernando Mello Vianna? “Como fazem os índios”, diz ele.

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