Presente da natureza

por Guilherme Torres 08/05/2011 13:04

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Cláudio Cunha
None (foto: Cláudio Cunha)

Apaixonada pelas artes desde garota, a baiana Valdelice Neves, “mineira de coração” há 40 anos, sempre procurou uma forma de expressar o dom, considerado por ela uma “dotação científica e genética” que nasce com todo artista. Mesmo sem recursos e morando na pequena Jequeri, na Zona da Mata (MG), para onde se mudou ainda bem jovem, ela pincelava em telhas velhas e até cascas de bananeira. “Desde o início, a natureza já era o meu forte. Meu material de trabalho era o que a natureza colocava ao meu alcance”, diz. A beleza dos seus trabalhos chamava a atenção e quem via já a considerava uma boa retratista, por seus traços minuciosos.

A formação acadêmica só veio mesmo em 1999, na Universidade do Estado de Minas Gerais, com a conclusão do curso de artes plásticas na Escola Guignard.

Foi quando decidiu desbravar a floresta amazônica que Valdelice Neves começou a escrever uma nova história em sua vida. Inicialmente, a proposta era estudar, retratar e tentar fazer algo pelas tribos indígenas do portal de entrada da Amazônia, em Rondônia. Essas tribos viviam uma realidade triste, com risco de extinção por causa da fome. Entre os muitos lugares pelos quais andava, um dia se deparou com uma árvore com uma espécie de “bolsas” dependuradas nos galhos e seu projeto tomou novo caminho. “Achei aquele trabalho da natureza magnífico, parecia que um artista tinha passado por ali antes de mim e feito uma intervenção.”

As tais bolsas eram ninhos do pássaro joão-congo, que ela passou a reproduzir com sensibilidade incrível em fios de cobre, arame e outros materiais, e hoje inundam sua casa-ateliê, junto a dezenas de belos quadros e gravuras coloridas em metal, feitas com água-forte, de paisagens urbanas, como a avenida do Contorno e a Cidade Administrativa. “Quando fui descobrindo aquele espetáculo da natureza, fiquei maravilhada, querendo entender melhor e conhecer mais e mais que pássaro era aquele”, lembra.

Foi aí que ela começou o grande desafio, o Projeto Arquivos Naturais, que se apropria das formas da natureza e se transfere para a arte contemporânea, em esculturas, pinturas e gravuras em metal, intervenções urbanas e vídeo-instalação. “Com este projeto, procuro atingir o objetivo maior, que é tornar joão-congo conhecido e, assim, mais protegido da insensibilidade do homem, possibilitando a sua preservação”, diz a artista.

O trabalho já ganhou exposições, mostras e intervenções nos melhores lugares da capital mineira e até no exterior, como em Paris, Nova Iorque, Miami, Lisboa, Buenos Aires, entre outros. Está também na melhor galeria de arte contemporânea da Suíça, a Fischer Rohr, em Basel, onde é a primeira mulher e brasileira a apresentar seus trabalhos.
Segundo a escultora, existem ainda estudos que revelam que joão-congo é o pássaro mais inteligente do planeta. O trabalho dos ninhos nos galhos das árvores, que mais parecem feitos pelo homem, é construído para proteger bem os filhotes da ave.



Essencialmente brasileiros, os 49 tipos de joão-congo correm risco de extinção. O pássaro, com tamanho médio de 53 cm, é encontrado apenas na Amazônia e ela o viu somente uma vez, nos céus de Rondônia. O joão-conguinho, bem menor, medindo de 22 cm a 27 cm, existe também na América do Sul. Valdelice conta que já teve um deles nas mãos, depois de viajar quatro dias e ficar mais 10 em uma região até conseguir a façanha. “Ele é o único pássaro do mundo que imita o canto de todos os passarinhos e animais da floresta, e imita até a fala humana quando criado em cativeiro”. Segundo a artista, existem várias lendas na Amazônia sobre esse pássaro. A mais conhecida diz que ele foi amaldiçoado pelo rei da floresta, pelo ciúme que sua beleza e inteligência causam em outros animais.

São 34 anos de atuação, dos quais 27 dedicados às pesquisas sobre o pássaro joão-congo. Esse trabalho vai virar retrospectiva na Casa Mac de Cultura, em Belo Horizonte, e livro sobre o pássaro está programado para ser lançado, em setembro, no Salão do Livro. Outro projeto é trabalhar a arte contemporânea com pichadores de rua. “Convido-os a pichar comigo, só que, ao invés de ser nas vias públicas, fazemos nas minhas telas.”

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