“Márcio Lacerda é um excelente candidato”

por João Pombo Barile e André Lamounier 07/06/2011 08:16

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Paulo Márcio
None (foto: Paulo Márcio)

Que o deputado federal Marcus Pestana foi um administrador público elogiado todos sabem. Sua gestão nos dois governos de Aécio, comandando a Secretaria da Saúde, virou referência nacional. Ganhou até elogio público do ministro da Saúde do governo Lula, o petista Humberto Costa. O que talvez pouca gente conheça é sua capacidade de articulação política. Nos últimos meses, Pestana se transformou em um dos grandes nomes do PSDB nacional. Homem de bastidores, aos poucos vai ajudando a construir, e a consolidar, a candidatura do senador Aécio Neves à presidência da República.

 

Nascido em Juiz de Fora, Pestana iniciou sua trajetória política no movimento estudantil, ainda no final da década de 70. Um dos fundadores do PSDB nos anos 8O, ele coordenou em Minas as campanhas eleitorais de Mário Covas à presidência da República, em 1989, e de Pimenta da Veiga ao governo de Minas, em 1990. Em abril, foi em um almoço com Pestana que o prefeito Márcio Lacerda admitiu, pela primeira vez publicamente, que era candidato à reeleição. Pestana concedeu entrevista a Encontro. Leia a seguir os principais trechos da conversa.

 

ENCONTRO – A primeira vez que Márcio Lacerda admitiu, publicamente, que é candidato à reeleição foi num almoço com o senhor. Lacerda é mesmo o candidato do PSDB à prefeitura?
MARCUS PESTANA – Desde que foi instituída a reeleição, o natural é que o prefeito, o governador ou presidente da República seja candidato. Afinal, o que está em jogo é a avaliação do seu patrimônio político. O Márcio vem fazendo uma boa administração. Ele não é um político de carreira, foi um militante ativo do movimento progressista na juventude e depois, pelos atalhos e caminhos da vida, virou um grande empresário. Ele até gosta de dizer que foi a ditadura que o transformou num empresário de sucesso. Senão ele teria sido, durante toda a vida, um servidor da Telebrás. Mas as circunstancias o levaram a ser prefeito de BH. É aquilo que Maquiavel escreveu em O Príncipe: o governante precisa de virtude e sorte. Muita gente tem muita virtude. Mas não tem sorte. E o contrário também. Tancredo Neves também tinha uma boa frase sobre essa situação. Ele sempre dizia: “Política é destino”. O Aécio sempre fala isso. Ninguém se torna presidente, governador ou prefeito por obsessão. O Márcio, por uma conjunção, acabou se elegendo prefeito.

 

ENCONTRO – A aliança do PT e PSDB surgiu por acaso...
MARCUS PESTANA – Não é bem assim. Em primeiro lugar, havia uma parceria testada entre a administração de Aécio, do PSDB, e o prefeito Pimentel, do PT. Não foi um processo abstrato, que surgiu do nada. Havia uma prática. E te dou um exemplo: na crise da saúde, no Rio, que envolveu o ministro Humberto Costa, o governador Garotinho e o prefeito César Maia, Minas era citada como exemplo.

 

ENCONTRO – Naquele momento, não interessava o confronto nem para o Aécio e nem para Pimentel...
MARCUS PESTANA – Exatamente. E tem mais: para mim, em política, partido é instrumento. Não é um fim em si mesmo. E isso não é retórica. Nós temos que ter foco no cidadão: pensar a eleição municipal de outra maneira. É por isso que sou contra a coincidência entre eleição municipal e presidencial. Porque são coisas muito distintas. Quando você elege um prefeito, você está elegendo o melhor gerente. Ele tem uma liderança política, mas o foco é eleger um bom gerente.

 

ENCONTRO – É público e notório que a relação entre o prefeito Lacerda e o seu vice, Roberto Carvalho, não vai bem. Essa relação não inviabilizaria a aliança?
MARCUS PESTANA – O Hélio Garcia [governador de Minas entre 1984 e 1985, e de 1991 a 1994] gostava de dizer que “vice, se não atrapalhar, já está ajudando muito”. Dizem que o Roberto tem mais atrapalhado do que ajudado. Há uma grande insatisfação com sua postura. Eu tenho a impressão de que o PT – depois da desastrosa aliança com o Newton Cardoso em 2006, do racha profundo de 2008 na aliança que fizemos com eles e o péssimo resultado da aliança com Hélio Costa em 2010 – vive uma espécie de ressaca. Não se esqueçam de que o Serra ganhou da Dilma aqui em BH. Um resultado simplesmente inimaginável alguns anos atrás. Assim, é natural que o PT queira agora resgatar a sua história com uma candidatura própria. E o Roberto Carvalho, juntamente com setores ligados ao Patrus e a setores mais radicais do PT, está advogando e trabalhando por essa postura. A ala do Pimentel, do Miguel Correia, de Reginaldo Lopes, defende um diálogo entre os dois partidos. É natural que seja assim. Também no PSDB existem setores que não querem a aliança.

 

ENCONTRO – A melhor candidatura para a cidade seria então o Márcio Lacerda?
MARCUS PESTANA – Nós, políticos, somos muito autocentrados, egocêntricos. Falamos mais do que ouvimos e não aceitamos que nós, do ponto de vista histórico, não somos tão importantes assim. A questão dos nomes não é tão relevante. Quando você vai para uma eleição municipal, a primeira pergunta que deve ser feita não é qual o melhor prefeito para governar a cidade nos próximos quatro anos. Lacerda é um excelente candidato para a capital.

 

"Aécio é o mais talentoso político nascido nos últimos 60 anos no Brasil. Ele é, disparadamente, a pessoa que tem mais experiência entre os políticos da sua geração”

 

 

ENCONTRO – Mas o PSDB vai ou não apoiar a candidatura Lacerda?
MARCUS PESTANA – É muito cedo ainda para afirmar. Eu não entendo essa precipitação do calendário. Tem outra frase do Hélio Garcia que eu gosto muito: ele dizia que eleição é coisa para “depois da parada” (a Parada Militar de 7 de Setembro). É verdade que a eleição na época do Hélio era em 15 de novembro e hoje ela ocorre antes. Mas eu fico assombrado com essa presa. A população não está preocupada com isto. O Márcio criou até uma metáfora interessante para explicar sua atual situação. Ele me disse que estava igual um filho de casal que está se separando. E fala assim: “Pô, pai, pô mãe. A gente é tão legal. Vamos ficar juntos...” Mas aí eu pergunto: quem foi a mãe zelosa dessa relação? Foi o PSDB. As grandes obras de BH foram feitas por nós. Pelo Aécio e pelo Anastasia. A Expominas, a Linha Verde, a duplicação da [avenida] Antônio Carlos, a abertura do Hospital de Venda Nova, a revitalização do [pronto-socorro] João XXIII, o projeto da Cidade Administrativa, o Vetor Norte... E o governo federal com o metrô e o Rodoanel? Andou algum quilômetro? Quem é a mãe zelosa?

 

ENCONTRO – Mas nada ainda está definido...
MARCUS PESTANA – Vamos definir só em 2012. Já tive uma conversa com o prefeito, outra com o ex-ministro Walfrido Mares Guia. O Aécio gosta muito de uma frase do Tancredo, que diz: “Uma decisão certa no tempo errado é uma decisão errada”. O Aécio é craque nisso. Talvez toda a habilidade de Aécio como político é que ele sabe administrar duas coisas essenciais: informação e tempo. Ele não gasta energia à toa.

 

ENCONTRO – A maioria dos analistas políticos diz que não existe mais clima para se repetir a aliança PT e PSDB...
MARCUS PESTANA – Eu ouço coisas diferentes nos encontros que tenho tido. Eu não diria nem que sim e nem que não. Mas, nas conversas que tenho tido com o Walfrido e com o Pimentel, ouço outra coisa. Gosto sempre de voltar aos clássicos e lembro o então deputado Ulisses Guimarães. Ele gostava de dizer que o combustível da política é a saliva. É claro que houve experiências traumáticas. Mas temos que sentar e conversar sobre as cidades e sobre as pessoas.

 

ENCONTRO – O PSDB indicaria o vice?
MARCUS PESTANA – Nós queremos o vice. Simbolicamente é importante. Existem pessoas importantíssimas no partido, como Eduardo Azeredo e Rodrigo de Castro, que acreditam que seja muito importante que o PSDB tenha o vice. Outros, como o deputado [Carlos] Mosconi, já se posicionaram numa perspectiva mais aberta e estão abertos à negociação.

 

ENCONTRO – Inclusive o próprio senador Aécio?
MARCUS PESTANA – O próprio Aécio. Outro dia, um deputado em Brasília, o nome eu não lembro agora, usou uma boa metáfora para definir o estilo político do Aécio. Ele disse: o senador Aécio é um chaveiro ilusionista. Ele deixa todas as portas abertas. Ele finge que fecha, mas todas as portas ficam abertas. O Aécio é um construtor de pontes. Ele tem uma virtude que poucas pessoas têm no quadro atual. Poucos ainda entenderam a importância da aliança estratégica de 2008.

 

ENCONTRO – Por que o senhor discorda da tese corrente de que o PSDB vive uma crise de identidade?
MARCUS PESTANA – A mídia adora falar isso. Quando começou o novo ciclo político pós-Lula, imediatamente tivemos o encontro dos oito governadores tucanos aqui. Na semana seguinte, tivemos o primeiro discurso do Aécio no Senado, que foi um fenômeno. O Sarney ficou até sem graça, porque teve que engavetar o regimento da casa: o tempo previsto era de 25 minutos. Ele durou cinco horas com a presença de mais de 100 deputados federais no plenário e quase todos os senadores. O discurso de Aécio foi balizador. Ele é o grande líder deste ciclo na oposição.

 

ENCONTRO – Ele vai mesmo assumir o papel de líder da oposição?
MARCUS PESTANA – Aécio é o mais talentoso político nascido nos últimos 60 anos no Brasil. Ele é, disparadamente, a pessoa que tem mais experiência entre os políticos da sua geração. Fez uma das melhores administrações da história do nosso estado. A melhor administração desde Juscelino. É, sem dúvida, o grande líder da oposição. Para mim, existem três pessoas centrais neste novo ciclo depois do governo Lula: o Lula, que permanece, a Dilma e o Aécio.

 

ENCONTRO – Mas, nacionalmente, sobretudo em São Paulo, o PSDB não vive uma crise de identidade?
MARCUS PESTANA – Não. O que existem são crises regionais, locais. Em Brasília eu sempre digo: em Minas não há crise alguma. Fizemos os principais cargos da Assembleia Legislativa, ampliamos em 33% nossa bancada federal. Na campanha do Anastasia não faltou jovem, não faltou sindicalista, artistas.

 

ENCONTRO – Vamos falar um pouco da reforma política. Qual a sua posição?
MARCUS PESTANA – O problema é que os deputados não são eleitos e reeleitos de acordo com os méritos. Cito dois deputados, do PSDB de São Paulo, Arnaldo Madeira e Antonio Panunzio. Eles foram líderes do PSDB e perderam a eleição. O desempenho não tem relação. Eu, que estou no primeiro mandato como deputado federal, já fui alertado pelos mais experientes: o que a gente faz na Câmara é uma coisa e a eleição é outra coisa. Nosso modelo político é um dos piores do mundo e virou um entrave para a democracia brasileira. Qual é o objetivo de se fazer a reforma política? Primeiro: criar vínculos entre os representantes e os representados, entre o Congresso e a sociedade. Números de várias pesquisas mostram que dois anos depois das eleições, 70% dos eleitores não sabem em quem votaram. Que vínculo é este? Eu mesmo fiz um teste na Convenção Municipal do PSDB de Juiz de Fora, que é a minha cidade. Perguntei quem sabia como eu tinha votado na questão do salário mínimo, no trem-bala, no acordo de Itaipu e no Jequitinhonha. Ninguém sabia dizer. Eram todos militantes e não sabiam como eu tinha votado.

 

ENCONTRO – A solução seria o voto distrital misto?
MARCUS PESTANA – Hoje, o mandato político é solto. É preciso ancorá-lo em alguma coisa: ou você ancora nas idéias (na lista) ou ancora no território (no distrito, nas cidades). O voto distrital puro, que é o da Inglaterra, França, Estados Unidos, tem um problema grave: ele suprime, em geral, as minorias temáticas ideológicas. Cito um exemplo: o deputado Eduardo Barbosa, do PSDB de Minas, que representa um segmento importante da sociedade civil organizada, que são as Apaes. Ele faz uma campanha barata, eficiente, militante, e várias Apaes o elegem. No distrital puro ele não teria lugar. Já o voto em lista fechada, que funciona em Portugal e na Espanha, acho até melhor: acredito que não importam tanto as pessoas quanto as ideias que regem a sociedade. Mas o problema do voto em lista é que ele seria amplamente rejeitado no Brasil, pois temos uma cultura presidencialista, personalista e aí os adversários da lista fechada não vão deixar.

 

ENCONTRO – A solução seria uma mistura dos dois?
MARCUS PESTANA – É isso que eu advogo: um modelo distrital misto, de tipo alemão. Assim, 50% das vagas seriam por lista e 50% nos distritos. Você criaria vínculo com as idéias e com os territórios. Acho que esse poderia ser um caminho para melhorarmos o nosso sistema político. O atual sistema político das campanhas é humilhante para quem é honesto e, para quem não é, é a porta da corrupção.

 

ENCONTRO – Há alguma coisa de concreto numa fusão do PSDB com o DEM?
MARCUS PESTANA – Isso não existe. Primeiro porque não há tempo para organizar as bases municipais. Você tem até outubro para ter o processo de filiação para quem vai concorrer em 2012. Segundo: nós escancararíamos uma janela muito maior do que a janela de Kassab. Se fizermos esta fusão, qualquer prefeito ou vereador, deputado federal e estadual que quisesse pular para o barco da Dilma pularia. Isso iria fortalecer o adversário. A diferença do Aécio para alguns trogloditas da nossa política é que, para o Aécio, política é esgrima, é xadrez. Não é rúgbi e nem vale-tudo. E em terceiro lugar, nós perderíamos prerrogativas regimentais dentro do Congresso: para fazer obstruções, precisamos de número e somos minoria. Se nos fundirmos, ao invés de três lideres, como temos hoje, teríamos apenas um.

 

ENCONTRO – Depois das eleições municipais esta fusão seria possível?
MARCUS PESTANA – Depois, sim. Aí pensaríamos no melhor caminho.

 

ENCONTRO – A eleição de Sérgio Guerra, no último dia 28, significou uma vitória mineira dentro do PSDB?
MARCUS PESTANA – Não. Não tem nada disso, não. Eu costumo dizer que Minas precisa de São Paulo, São Paulo precisa de Minas, e o Brasil é muito maior que São Paulo.

 

ENCONTRO – O governo Dilma vai indo bem?
MARCUS PESTANA – Não. Assim como o governo Lula, a Dilma deixa transparecer um baixo potencial transformador, uma baixa energia para a promoção de reformas estruturais. Reformas estruturais geram desgastes. Estadista não faz média com o senso comum. Estadista é aquele que enfrenta os problemas com todas as suas contradições para transformar. Fernando Henrique foi um grande estadista. Para quebrar o monopólio de petróleo da Petrobras ou das telecomunicações. A Dilma não é uma estadista. É uma boa gerente. Mas ela não tem se rebelado. O manual de política diz que reformas estruturais profundas, você faz no primeiro ano, quando você tem seu capital político integral e que vai se desgastando ao longo do tempo. Ela tem revelado baixíssimo interesse em mudanças.

 

 

 

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