Enfim, a catedral

por Daniele Hostalácio e Luiz E. S. Ruivo 07/06/2011 13:40

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Reprodução, Divulgação e Charles Silva Duarte/O Tempo
None (foto: Reprodução, Divulgação e Charles Silva Duarte/O Tempo)

Uma cúpula sendo gentilmente abraçada por uma imensa escultura, que se projeta em direção ao céu. A imagem é o estudo preliminar da Catedral Cristo Rei – Santuário da Divina Misericórdia, projeto de Oscar Niemeyer para aquela que será a catedral oficial de Belo Horizonte. Ali, veem-se traços marcantes da arquitetura modernista de Niemeyer: o concreto armado sendo exigido em toda a sua plasticidade, gerando formas ao mesmo tempo sinuosas e futuristas. Trata-se de uma obra monumental, digna da magnitude que está presente nas catedrais das maiores cidades do mundo.

 

Estudo preliminar do que deverá ser a Catedral Cristo Rei, na zona norte de BH, projeto do escritório de Niemeyer

 

Detalhes do projeto estão sendo guardados a sete chaves pelo escritório de arquitetura responsável por sua execução e pela Igreja Católica em Minas. Encontro apurou que o lançamento da pedra fundamental das obras ocorrerá em breve, como principal marca dos 90 anos da Arquidiocese de Belo Horizonte, celebrados este ano.

 

A Cristo Rei não será exatamente a primeira catedral de Belo Horizonte, mas será a primeira construída com esse objetivo e com intenções mais ambiciosas. A igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, que atualmente ostenta tal título, não foi construída com essa finalidade. Registros históricos dão conta de que o terreno onde hoje se encontra a Boa Viagem abrigava uma capela pequena, ainda na época do antigo arraial do Curral del-Rei, que foi substituída, anos depois, por uma matriz maior, destruída em 1897 para dar lugar à construção atual, em estilo gótico, datada de 1932. A igreja já estava sendo construída quando foi elevada à condição de catedral. Hoje, ela se revela modesta para as dimensões e as necessidades da Arquidiocese.

 

Na nova catedral, a Arquidiocese de Belo Horizonte pretende encontrar o espaço apropriado para o crescimento que conheceu ao longo das últimas décadas. Hoje, ela é uma das maiores do Brasil, congregando 28 municípios mineiros, 265 paróquias e uma população estimada em 4,6 milhões de habitantes, mais de 3 milhões deles declarando-se católicos. A cidade se agigantou e cresceu desordenadamente nas mais diferentes direções, e o que era o coração da cidade, o centro onde se situa hoje a Boa Viagem não é mais, necessariamente, o ponto de convergência da população. O próprio trânsito pesado nas vias adjacentes dificulta o deslocamento e a aglomeração de pessoas na Boa Viagem, que, simbolicamente, não conseguiu, até hoje, ter uma significância maior para a comunidade católica belo-horizontina.

 

Igreja da Pampulha, inaugurada em 1943: obra de Niemeyer chocou a cultura católica da época e não contou com celebrações religiosas até 1957

 

Por isso mesmo região escolhida para a futura catedral é uma área adquirida pela Igreja nas proximidades do Centro Administrativo do governo – outra monumental obra assinada por Niemeyer –, na região norte da cidade. A escolha do local leva em conta a nova fronteira para onde se expande o desenvolvimento de Belo Horizonte, já que a região sul encontrou o seu limite. A Cristo Rei deverá ter 50 mil metros quadrados de área construída, com três pavimentos e uma praça com altar externo para a realização de missa campal para até 20 mil pessoas.

 

No escritório de Oscar Niemeyer, é o arquiteto Jair Valera quem está à frente da execução do projeto. Procurado pela reportagem da revista Encontro, ele manteve a discrição e não revelou os segredos da nova catedral. Mas fontes ligadas à Igreja informaram que a escultura externa que abraça a cúpula deverá atingir a altura de 100 metros.

 

Pelas proporções, tudo indica que o desejo da Arquidiocese é transformar a Catedral Cristo Rei num santuário, um lugar de peregrinação capaz de receber grandes multidões.

 

Normalmente as grandes catedrais católicas do mundo estão localizadas no centro das cidades, como é o caso das catedrais de Paris, Londres e São Paulo. Mas, no caso de Belo Horizonte, não seria possível encontrar um terreno na região central para dar vazão ao projeto. Por isso uma escolha que, por outro lado, resolve uma necessidade: atrair um número maior de fieis para o templo. O terreno em Venda Nova, próximo à Estação Vilarinho do metrô, tende a congregar mais pessoas de toda a região metropolitana, e não apenas da região centro-sul da capital. Não se pode deixar de notar, também, que o local está mais próximo da parcela da população de ex-católicos que migraram para as igrejas evangélicas nas últimas duas décadas.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, o arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, já adiantou que o prédio não deverá ser usado somente como templo. Ali, serão reunidos os veículos de comunicação da Arquidiocese – a Catedral da Comunicação Católica, que inclui a Rádio América, a Rádio Cultura, o Jornal de Opinião, a TV Horizonte e o site da Arquidiocese; o Memorial da Igreja; e a sede da Região Episcopal Nossa Senhora da Conceição. No prédio da catedral serão centralizados, também, serviços dirigidos à comunidade. A obra, portanto, deverá contar, também, com infraestrutura para acolher essas pessoas.

 

A escolha de Oscar Niemeyer para assinar o projeto, por si só, já deverá garantir uma significativa leva de visitantes ao edifício. O nome do arquiteto, aliás, não deixa de gerar alguma curiosidade. Talvez o mais expressivo arquiteto brasileiro vivo e um dos mais festejados no exterior, Niemeyer se viu envolvido numa polêmica com a Igreja Católica, em 1943, tão logo ficou pronta a igreja de São Francisco de Assis, parte do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, criado por ele. A obra, encomendada pelo prefeito Juscelino Kubitschek e doada à Igreja Católica, chocou a cultura provinciana que reinava na época e incomodou, principalmente, por não ter sido encomendada pelo próprio bispo. O resultado é que a igrejinha ficou proibida de abrigar celebrações e só foi consagrada em 1957, 14 anos depois de pronta.

 

 

 

Quis o destino, no entanto, que a igrejinha da Pampulha de tornasse, literalmente, o cartão postal da capital mineira, uma das mais emblemáticas imagens de Belo Horizonte. Por isso, a escolha de Niemeyer não deixa de ser uma forma de a Arquidiocese redimir o passado. Pode ser lida, também, como uma simbologia de uma Igreja que está disposta a caminhar em direção à modernidade.

 

O professor de teologia da PUCMinas, Pe. José Cândido da Silva, explica que a catedral é a igreja principal da diocese, o local de onde o bispo coordena o conjunto das paróquias (cathedra significa cadeira). Ele lembra que, tradicionalmente, as catedrais se tornaram expressão máxima da arquitetura cristã. Muitas se constituíram marcos dentro da cultura ocidental, impregnadas de valor artístico, e foram pensadas como grandes monumentos. “O Papa João Paulo II chegou a dizer que, por obrigação, a Igreja deveria ser propulsora, incentivadora da beleza, e das artes, pois elas nos aproximam de Deus”, destaca.

 

Com a escolha por uma construção que deverá ser de inegável valor arquitetônico, é preciso reconhecer que a Igreja Católica reforça, portanto, um papel que vem cumprindo ao longos dos séculos, e até milênios, de contribuir para a arquitetura das cidades, “de patrocinar as artes”, como observa a coordenadora do inventário do Patrimônio Cultural da Arquidiocese de Belo Horizonte e professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-MG, Mônica Eustáquio Fonseca. “Grande parte do acervo de bens culturais e históricos de Minas, por exemplo, foi criada por solicitação da Igreja”, lembra. “Por isso, creio que a escola de Niemeyer caminha nessa direção de a Igreja, mais uma vez, atuar no sentindo de enriquecer o patrimônio cultural do estado, pois certamente será uma grande obra”, avalia.

 

Belo Horizonte poderá se orgulhar de ter uma pequena joia modernista, de valor incalculável – a Igreja São Francisco de Assis, integrando o conjunto da Pampulha, que projetou internacionalmente Niemeyer –, e uma catedral edificante, símbolo de poder, apontando para os novos desafios da Igreja, e também idealizada pela genialidade do arquiteto.

 

O Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, anunciou oficialmente, no dia 23 de maio, durante Assembléia Geral do Clero, que a Arquidiocese de Belo Horizonte vai construir sua Catedral, que terá o nome de Cristo Rei – Santuário da Divina Misericórdia.

 

A iniciativa vem atender a uma necessidade da Arquidiocese e um sonho do primeiro arcebispo de Belo Horizonte, dom Antônio dos Santos Cabral (1922/1967). Dom Cabral fez várias movimentações para construir a Catedral, mas algumas dificuldades, entre elas a financeira, o impediram de dar sequência ao projeto. Como o próprio nome indica, catedral é a Igreja do Bispo na sua missão de ensinar, governar e santificar, colocando-se em diálogo e a serviço de todos.
Segundo dom Walmor, o desejo de construir um desses templos remonta ao conceito mais primigênio de catedral, enquanto entendida como lugar e força de grande irradiação de ideias, projetos, atendimentos e formação da opinião pública. Há que considerar também a realidade dos 28 municípios da Arquidiocese de Belo Horizonte, que congregam uma população de 4,6 milhões de habitantes, conforme dados do IBGE divulgados em 2004, sendo 3,2 milhões dela de católicos.

 

Dom Walmor, arcebispo de BH, diz que o prédio não será usado somente como templo

 

A maior parte dessa população vive na área urbana, por isso na escolha do terreno será levado em conta um lugar que tenha características de epicentro na consideração do conjunto dessa populosa Região Metropolitana. Esses fiéis precisam de um templo grande, acolhedor e bem localizado onde possam professar a sua fé.

 

Nas mesmas instalações da Catedral Cristo Rei vão funcionar a Catedral da Comunicação Católica, que congrega todos os veículos de comunicação da Arquidiocese de Belo Horizonte; o Memorial da Igreja e a sede da Região Episcopal Nossa Senhora da Conceição.

 

Dom Walmor explica, que nessa direção, a compreensão da Catedral ultrapassa apenas a referência ao espaço litúrgico-celebrativo, o mais importante e vistoso do conjunto, para incluir também outros módulos significativos na prestação deste serviço espiritual, religioso, cultural, humanitário e formativo, levando em conta a cultura e as diferentes condições da vida do povo e das evoluções da sociedade. O Arcebispo acrescenta que o templo construído não será a sede burocrática de uma paróquia.

 

Será um Santuário. Isso significa que terá toda a infraestrutura para acolher peregrinos, grandes multidões, com atendimentos espirituais, humanos e formativos para enfrentar as demandas dos grandes centros. Num dos encontros que teve com o Papa Bento XVI, dom Walmor apresentou-lhe a ideia de construir a Catedral Cristo Rei – Santuário da Divina Misericórdia. O Papa gostou muito e incentivou o Arcebispo de Belo Horizonte a dar seguimento à ideia.

 

Dom Walmor reuniu seus vigários episcopais e assessores e vem tomando as providências necessárias para levar o projeto adiante. Em razão da elevada qualidade de seu trabalho e da beleza do Complexo Arquitetônico da Pampulha, reconhecido mundialmente, Oscar Niemeyer, 98 anos, foi convidado para fazer o projeto. Com grande alegria, aceitou o convite, e a informação que se tem é de que será uma obra belíssima, que resultará numa das Catedrais mais imponentes e modernas do Brasil, quiçá do mundo.

Últimas notícias

Comentários