3D faz mal?

por Rafael Campos - Revista do Correio 07/06/2011 14:05

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Emmanuel Pinheiro, Cláudio Cunha e Divulgação
None (foto: Emmanuel Pinheiro, Cláudio Cunha e Divulgação)

A estudante Vanessa Ferreira Soares, de 24 anos, a exemplo de inúmeras outras pessoas, foi conferir mais um lançamento em 3D no cinema. Pegou um par de óculos especiais, entrou na sala, escolheu a poltrona e aguardou o início do filme. Durante a sessão de Alice no País das Maravilhas passou a sentir algo diferente, muito além de tristeza ou alegria da história: teve náusea e tontura. “Cheguei a ficar aflita e torcia para o filme acabar logo”, lembra Vanessa.

 

Você possivelmente já deve ter ouvido ou lido história parecida. Desde o início do boom da tridimensionalidade no cinema, relatos como o da estudante passaram a pipocar na internet e em rodas de conversa. Para jogar luz na questão, Encontro conversou com especialistas e todos foram categóricos: o 3D só provoca mal-estar em pessoas que já dispõem de algum tipo de alteração na visão.

 

O assunto fica mais em voga devido à invasão da terceira dimensão não apenas nos cinemas – Rio e Thor, com versões em 3D, estão em cartaz –, mas também em videogames, notebooks e TVs. Além de movimentar o mercado da alta tecnologia e o bolso dos aficionados do gênero, a tecnologia tem servido como um poderoso diagnóstico: se você não enxerga corretamente o efeito 3D, e não sabe o motivo, seu destino é o médico.

 

Ricardo Guimarães, diretor do Hospital de Olhos: contraste e cores vibrantes do cinema acentuam dores de cabeça, náuseas e tonturas

 

O oftalmologista Ricardo Guimarães, diretor do Hospital de Olhos de Belo Horizonte, diz que o avanço do 3D está servindo para avaliar melhor a visão dos brasileiros. Segundo o oftalmologista, o contraste e as cores das telas de cinema são mais fortes e vibrantes, o que acentua os problemas de quem não tem a noção perfeita da tridimensionalidade ou visão de profundidade. É daí que vêm sintomas nada agradáveis como dores de cabeça, náuseas e tonturas.

 

O médico explica que isso ocorre devido a alguma complicação ocular, como estrabismo, ambliopia (olho preguiçoso), doenças da retina, catarata ou até dificuldades no processamento visual. De forma bem resumida, a formação da imagem da tridimensionalidade acontece da seguinte maneira: cada globo ocular vê uma imagem ligeiramente distinta; cabe ao cérebro formar uma única imagem com sensação de profundidade. As pessoas com algum tipo de alteração de percepção em um dos olhos não conseguem ver a terceira dimensão.

 

Pessoas com astigmatismo ou miopia precisam usar lente ou óculos de grau juntamente com os óculos especiais fornecidos nos cinemas para visualizar corretamente o efeito. É o caso da estudante Vanessa Ferreira, que foi diagnosticada com um leve grau de miopia. Mesmo depois de sentir o incômodo, ela afirma que não vai deixar de assistir filmes em 3D. “Os sintomas são administráveis”, garante.

 

O também oftalmologista Fernando Trindade Cançado lembra que o efeito 3D não é um bicho-papão. “Ele não causa algum tipo de lesão irreversível”, afirma. O especialista explica que as pessoas que já apresentam algum tipo de alteração na visão tendem a sofrer mais com a mudança provocada pelo efeito. “É como se fosse uma pessoa que vai correr pela primeira vez. Geralmente, ela irá sentir algumas dores no dia seguinte”, compara o médico. As pessoas que sentem enjoos, dor de cabeça ou algum outro tipo de mal-estar devem buscar um especialista, que, após um exame oftalmológico, deverá solicitar outro exame, o ortóptico, destinado a identificar distúrbios da motilidade (movimento autônomo) ocular, como o estrabismo.

 

Rio, animação em 3D dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha: campeão de bilheteria no Brasil e no mundo

 

Formado em cinema, Leonardo Chalub, de 25 anos, não costuma ter sessões agradáveis ao apreciar a arte na terceira dimensão. “Passei muito mal, nem consegui entender direito a história”, revela Leonardo ao lembrar o dia em que assistiu a Era do Gelo 3. “Não procurei um médico, pois já havia lido que esse efeito não é incomum”, diz.

 

Para o neurologista Antônio Lúcio Teixeira, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a exposição ao efeito 3D não prejudica nenhuma área cerebral. “O cérebro é enganado pela visão, ele já recebe a imagem distorcida”, explica. O especialista afirma que nenhum problema até então foi descrito como adicional aos prejuízos já constatados devido a exposições excessivas à TV, computador e videogames em 2D.

 

Uma preocupação dos médicos, porém, é com os óculos fornecidos pelos cinemas. Conforme Fernando Cançado, os óculos devem ser desinfetados regularmente para evitar o contágio de doenças nos olhos, como a conjuntivite. A Cineart, que conta com seis complexos de salas de cinema em shoppings de Belo Horizonte, Betim e Contagem, informa que os óculos são higienizados em alta temperatura por máquina importada, o que elimina qualquer tipo de bactéria.

 

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