O jardim subiu no telhado

por Liliane Tanure 08/06/2011 10:38

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Bruno Assunção e André Buarque
None (foto: Bruno Assunção e André Buarque)

Imagine o telhado de uma casa ou de um edifício coberto de plantas no lugar de telhas. Visualizou? Pois bem, agora, preste atenção: essa figuração arquitetônica, onde os forros tradicionais e os terraços nus são substituídos e ornamentados por grande variedade de espécies vegetais, não é um elemento ilustrativo de histórias infantis. Ela é real. Real e necessária nos dias atuais. Uma tendência que inaugura nova fase na urbanização das cidades brasileiras e faz parte de uma das soluções encontradas por especialistas para diminuir os danos ambientais causados pelo aquecimento global e o enorme crescimento populacional das grandes cidades. É a arquitetura andando de braços dados com a sustentabilidade.

 

Telhado verde. Cobertura viva. Ecotelhado. Jardim suspenso. Os nomes são sortidos, mas os efeitos estéticos e os benefícios ambientais são os mesmos. Na corrida para construir um planeta mais agradável, essa técnica de arquitetura sustentável começa, aos poucos, a cair nas graças do mercado brasileiro e do poder público. E a moda está começando a chegar por aqui, ainda que de forma lenta. Além de bonitos e charmosos, os espaços verdes suspensos são eficientes no conforto térmico, fáceis de instalar, têm custos viáveis e criam refúgios tranquilos para pessoas e animais. O preço, claro, varia de acordo com o projeto e o fornecedor. Na média, fica entre R$ 100 e R$ 150.

 

Mas a vasta lista de vantagens não para por aí. Como observam os sócios da Oca Projetos e Construções Sustentáveis, Bruno (arquiteto e urbanista) e Túlio Assunção Oliveira (gestor ambiental), o telhado verde possibilita, além de isolante térmico, aumento da umidade relativa do ar, aumento do sequestro de carbono da atmosfera pela vegetação e retenção das águas das chuvas, o que pode evitar enchentes. Também o bioarquiteto André Buarque reconhece muitos benefícios do telhado verde no meio urbano. Um deles é a diminuição da poluição do ar, que é formada por partículas em suspensão (poeira e ou outros resíduos). “Quando venta, essas partículas caem em telhados tradicionais das cidades. Depois, quando volta a ventar, elas começam a circular novamente, atingindo as vias aéreas das pessoas. Ou seja, a poluição continua no ar. Quando essas partículas caem em um telhado verde, elas são absorvidas pelas plantas e ainda ajudam na formação daquele solo”, explica.

 

 

Casa no Condomínio Paragem do Tripuí, em Amarantina, Ouro Preto: um dos projetos da Oca em Minas Gerais

 

André Buarque, que também é professor de arquitetura e sustentabilidade no curso de extensão Ambiente Construído e Sustentabilidade da Escola de Arquitetura da UFMG, arrisca uma previsão: “Se todos os telhados de Belo Horizonte fossem de grama, provavelmente a poluição seria reduzida em um terço”, avalia. Ele cita como exemplo o Instituto Kairós, em São Sebastião das Águas Claras (Macacos), em Nova Lima. O telhado verde, amplamente defendido por um dos mais importantes arquitetos do século XX, o franco-suíço Le Corbusier, pode ser instalado em casas e edifícios (em projetos novos ou já existentes) sobre laje, telha, fibrocimento e até cerâmica. “O sol incide nos telhados tradicionais e esquenta-os durante o dia. Já com o telhado verde isso não aconteceria. A temperatura da cidade ficaria mais fresca”, explica Buarque.

 

Mas que tipo de planta pode-se empregar em jardins suspensos como estes? Cristóvão Laruça, bioarquiteto e permacultor, sócio de Ludmila Carvalho na Padrões Naturais Soluções Sustentáveis, explica que o ideal são as espécies suculentas e algumas gramíneas. O que muita gente não sabe, porém, é que até horta pode ser plantada no telhado. “No Telhado Produtivo, como chamamos, podemos usar todas as espécies de legumes e vegetais que são cultivados nas hortas tradicionais”, exemplifica. Bruno e Túlio Oliveira ainda enumeram as plantas resistentes à seca e ao sol com raízes superficiais (grama-amendoim, por exemplo), além de árvores de pequeno porte: “Neste caso, é necessária uma proteção contra esforços mecânicos que as raízes podem exercer sobre o teto”.

 

Apesar das soluções criativas e eficazes favoráveis à causa ambiental e ao bem-estar das pessoas, ainda é ínfimo o número de telhados verdes nas cidades brasileiras. Tomando como base Belo Horizonte, basta dar um giro na região central e nos bairros para ver que a tese se confirma. “O nível de demanda das construtoras ainda é muito pequeno, mas é notório o aumento do número de pessoas que pedem a implantação da tecnologia dos telhados vivos. À medida que as alterações climáticas forem provocando tomadas de consciência que nos apontam para uma verdadeira arquitetura sustentável, será inegável projetar os ambientes urbanos do século XXI com a tecnologia do telhado vivo”, avalia Cristóvão Laruça.

 

Atuando como difusor dessa nova mentalidade que gradualmente se instala no país, a Carvalho Engenharia, do empresário Romário Elias de Carvalho, está representando em Minas Gerais a Ecotelhado, empresa gaúcha que é referência em infraestrutura verde no Brasil. “Para divulgar nosso sistema, já fizemos em Belo Horizonte uma apresentação para 120 arquitetos. Cerca de 80% deles já inseriram a ideia em seus projetos; alguns até de suas próprias casas”, conta.

 

 

Outros passos serão dados nessa direção; entre eles, uma possível parceria com a PBH, que prevê a instalação de telhados verdes em alguns pontos de ônibus. “Essa iniciativa pode suscitar a conscientização da população, além de humanizar e embelezar a cidade”, diz Romário Carvalho, que em alguns projetos trabalha em parceria com a CWT Design, comandada pelo arquiteto Sérgio Viana.

 

A Ecotelhado utiliza produtos recicláveis como garrafas PET e palmilhas de calçados (EVA) para confeccionar as jardineiras, que são chamadas de módulos. “O sistema é todo de encaixe, fica muito leve e não é preciso mexer na estrutura”, garante Romário, lembrando que as únicas plantas que não podem ser colocadas são as que dão biomassa muito grande como ipê, castanheira ou palmeira, porque o telhado não suporta.

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