Sem mapa

por Cris Guerra 14/06/2011 11:02

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É algo que nunca se aprende, por mais que se repita: lidar com a dor da separação. Fazer do fim um recomeço bom. Diante de mais uma ruptura somos até capazes de prever passo a passo o que virá. E ainda assim não descobrimos o remédio para evitar os sintomas.

 

A raiva. A antipatia. A certeza de que foi melhor a separação. Depois a saudade. Dúvidas. A dor de estar só. Os momentos bons que voltam à memória. Os momentos ruins que se desfocam no filme da lembrança. Olhar o mundo aos pares e detestar ser um número ímpar. A ausência do outro cada vez mais presente e escandalosa. A dor de saber que alguém caminha em outra estrada e não mais lado a lado. A vontade de ouvir sua voz. Ímpetos de tomar o caminho de volta.

 

E no tempo imposto pela cura só existe um pequeno momento de descanso: o cansaço físico. E só tomado pelo sono o coração não aperta. Ao fim de cada dia, uma pequena folga da dor. Mas há sempre o dia seguinte.

 

Seja o fim por escolha ou por falta dela, dá trabalho recomeçar. Lidar com a sensação de ver a casa ruir, depois de todo o tempo gasto para construí-la. Será preciso começar outra, mas o desânimo embaça a visão do futuro. Outro projeto. Outra compra de material. Outro canteiro de obras. Novos operários. Ou carregar tijolo e areia com as próprias mãos.

 

Quem sabe um descanso em meio aos escombros? Limpar o terreno dia a dia, sem pressa para a reconstrução. Quem sabe deitar no chão cru e contemplar o céu – viu como ele hoje está bonito? Respirar e tomar coragem.

 

Coragem: palavra essencial, como o amor e o ar.

 

É ela o começo de tudo. Coragem porque o amor assusta. Ao nascer já anuncia: posso acabar. Pior, o amor do outro pode acabar. Ou nada disso: mesmo que o amor insista, podem a vida e o dia e as horas ser mais fortes que qualquer impulso, e o que era um mais um torna-se um a um. E o que resta é cada um levando como pode o que pulsa em si.

 

Coragem, sim. Para a dor de seguir sozinho. Para a dor de seguir a dois. (Não há caminho fácil quando o assunto é amor). Não há amor possível quando o que falta é coragem.

 

Há quem pense ser possível se prevenir da dor amando menos. Os que amam calculadamente. Os que tentam encher a despensa, na ânsia de garantia. Fingem um amor planejado. Pouco ganham porque pouco se dão. E se imaginam seguros numa estrada lenta e reta, sem curvas nem flores.

 

O perigo é dormir na estrada, embalado pela paisagem que não muda. O amor pede as curvas, pede as cores e o vento, pede a fragilidade que é sua força. O amor pede segredos, pede sumiço e transgressão. Pede sem dar em troca. E às vezes nem pede: manda.

 

Há quem imagine levar o amor em mãos fechadas, como se assim lhe evitasse a quebra e a dor. Há quem prefira o silêncio à emoção da música, buscando o amor matemático, exato e sensato. O amor que não se quebra – porque é pesado e imóvel, duro e seco – e ainda se acredita amor.
Mas amar é trabalho de sol a sol, sem garantias no fim da jornada. Não tem salário nem benefícios, não sabe o dia de amanhã. Mata um leão por dia, com gosto e fúria, porque assim é.
Amar é estrada sem mapa: é fôlego o medo de se perder. E, ao tentar se cobrir de certezas, o amor se perde na reta. Nada arrisca e nada encontra. Corre sem vida.

 

Amor é investimento de risco, autônomo e artista. Não junta dinheiro, não guarda pra fome. Devora hoje porque não existe amanhã.

 

Amor é ter a perder. Ou não ter nada. É tudo e todo o medo e todos os perigos. Ou nada e paz. Ou nada.

 

O amor que nasce é assustadoramente amor. O amor que segue sozinho é assustadoramente só. Não há meio termo – o amor quer entrega, quer o salto no vazio, o amor sempre quer. Nem sempre é harmonia, nem sempre delicadeza. Mas sempre amor. Até não mais. E isso demora.
É maior que nós, o amor. Faz sombra e assusta. Até que se veja dele o seu verdadeiro tamanho. Até que se entenda que ela é sombra e só.

 

Amor é puro assombro de viver. E pede de nós a escolha: ser do tamanho do medo ou da coragem.

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