Na corda bamba (mas por prazer)

por Marcelo Portela 05/07/2011 14:14

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Cláudio Cunha, Júnia Garrido, Geraldo Goulart e Maíra Vieira
None (foto: Cláudio Cunha, Júnia Garrido, Geraldo Goulart e Maíra Vieira)

O provérbio “andar na corda bamba” normalmente significa uma situação incômoda, perigosa ou com sério risco de dar errado. Literalmente, o termo vem das apresentações circenses, em que artistas se equilibram sobre um fio a metros do chão. Um grupo de esportistas, porém, transformou o risco em diversão. A prática ganhou vida e nome próprios e, agora, vem conquistando grupos de adeptos em Belo Horizonte.

 

A prática ainda é desconhecida para boa parte da população e quem passar, por exemplo, pela Praça do Papa nos fins de semana, pode até estranhar turmas tentando se equilibrar sobre uma fita amarrada a duas árvores. São os praticantes do slackline – literalmente, “corda bamba” –, que usam locais que unem a natureza ao espaço urbano para treinar. Primeiro com passos incertos e, claro, muitas quedas. Os mais experientes, porém, chegam a dar saltos mortais sobre a fita de nylon que é a base da modalidade.

 

 

A arte de caminhar sobre uma corda como forma de apresentação artística existe há milhares de anos. Mas a origem do esporte da forma como ele é hoje data do início da década de 1980. Entre os praticantes, é aceita a tese de que o slackline foi criado no parque Yosemite, na Califórnia (EUA), reduto de escaladores. A princípio, os atletas aproveitavam momentos de folga para praticar equilíbrio sobre correntes nas vagas do estacionamento do parque.

 

Rapidamente, as correntes foram substituídas por fitas planas de alta resistência, que eram amarradas em árvores ou postes. Mas a atividade, segundo os adeptos, continuou como uma forma de diversão e de os escaladores manterem a prática em dias muito frios ou de chuva, que tornavam inviáveis a subida nas rochas. “O pessoal brincava e aproveitava para treinar equilíbrio”, diz Nilton Pires, praticante e dono da Nerea, uma das lojas da capital mineira onde é possível encontrar o equipamento.

 

Lojas de slackline: “O pessoal brinca e aproveita para treinar o equilíbrio”

 

 

 

A princípio, o slackline era mais difundido entre escaladores. Foi assim que a professora de educação física e personal trainer Daiane Amorim, de 30 anos, começou a andar na corda bamba. Ela diz que sempre foi adepta de esportes, principalmente corrida e musculação, mas depois começou a escalar. Com as escaladas, teve, há cerca de seis meses, o primeiro contato com o slackline, visto primeiro “como um complemento, uma diversão”.

 

“Era mais por falta do que fazer em dias de chuva. Com a rocha molhada, não dava para escalar”, afirma. Hoje, as caminhadas na fita ainda são diversão para Daiane, mas o treino pesado faz parte do dia a dia da professora. “Eu aprendi rápido. Chamo de transferência de aprendizado. Já tinha a base do equilíbrio por causa dos outros esportes e transferi para o slack”.

 

Já o empresário e produtor de bonsais Rock Júnior, de 40 anos, conheceu o slackline por acaso e se apaixonou pela prática. Ele conta que foi a um churrasco de aniversário em um clube de Nova Lima e um dos frequentadores esticou a fita no local. “O cara armou, brincou um pouco, parou e deixou armada. Nós pedimos para tentar”, lembra, referindo-se à mulher, a arquiteta Renata Bevilaqua. No dia seguinte, Rock Júnior acordou todo dolorido e percebeu que aquele era um bom exercício. “O slackline trabalha músculos que não trabalhamos normalmente”, explica Renata.

 

O professor de educação física Bernardo Menezes criou o grupo Pé na Fita para reunir os praticantes: “O exercício faz um ótimo trabalho cardiovascular”, garante

 

 

 

O casal resolveu então comprar o equipamento, que fica constantemente armado na residência do casal, ao lado da empresa. A arquiteta ressalta que, no começo, achou um pouco difícil ficar em pé sobre a fita. “O mais importante foi identificar meu centro de equilíbrio, porque não temos essa consciência normalmente”, observa. Agora, os filhos Cauã, de 4 anos, e Bianca, de 3, já começam a arriscar os primeiros passos na corda bamba. “Eu deixo armada o tempo todo e toda brecha que tenho no trabalho, subo na fita. É pura diversão e já estou começando a aprender pequenas manobras”, conta Rock.

 

Como no caso do casal, a difusão do slackline fez a atividade conquistar cada vez mais espaço. Foi o que levou o estudante Gabriel Amaral, de 23, e o professor de educação física Bernardo Maia Menezes, de 25, a criarem o grupo Pé na Fita, que reúne praticantes do esporte de Belo Horizonte para treinos coletivos. Amaral conta que, entre as cerca de 100 pessoas que integram o Pé na Fita, pelo menos 80% não têm nenhuma relação com escaladas. “O esporte ficou acessível a todos. É um exercício que trabalha muito músculos estabilizadores do corpo. Faz também um ótimo trabalho cardiovascular”, salienta o professor.

 

A personal trainer Daiane Amorim começou a andar na corda bamba aos 30 anos: “Aprendi rápido”

 

Amaral aderiu ao slackline no fim do ano passado. Já Menezes é adepto da prática há cerca de seis anos. Eles contam que resolveram criar o “Pé na Fita” justamente por causa da expansão do esporte na capital. “Fomos forçados a criar (o grupo) porque o movimento estava muito grande. Tinha muita gente indo aos treinos e a gente precisa se organizar”, lembra o jovem. “Nosso objetivo é unir e socializar para o pessoal desenvolver”, completa o professor, que já participou de competições nacionais do esporte. O próximo passo é formalizar o grupo como uma associação.
Dez entre dez adeptos afirmam que é fácil um iniciante pegar o jeito de andar na corda, mas eles também são unânimes em outro ponto: todos que tentarem andar na fita, no princípio, vão parar no chão. “O melhor é por o slack bem baixo. Porque, antes de aprender a andar, vai ter que aprender a cair”, salienta Mary Lages, da Rokaz Academia de Escalada, outro local onde é possível encontrar o equipamento.

 

Nilton Pires também é categórico no alerta de que todos os iniciantes vão parar no chão. Mas diz que, com um mínimo de prática, qualquer um pode se manter sobre a fita. Segundo Pires, “cair faz parte do esporte”, mas a slackline armada sobre um gramado pode ajudar a reduzir os danos das quedas. “Eu já levei várias quedas. O negócio é voltar para superar obstáculos. Primeiro, chegar ao final da fita. Depois, para completar as manobras. É uma referência de vida”, filosofa Gabriel Amaral.

 

Pires ressaltou ainda que, apesar dos prováveis tombos, um mínimo de treino já permite uma caminhada na corda bamba. “Com persistência, depois de umas duas horas um iniciante já dá os primeiros passos”, garante. Para isso, alguns macetes podem ajudar. Um deles, segundo o atleta, é usar pontos de ancoragem – locais como árvores ou postes, onde a slack é afixada – próximos. “Quanto mais perto os pontos, mais fácil de subir, mas a fita fica mais rígida”, ensina.

 

Já os pontos mais distantes, com a slack mais flexível, facilitam a realização de acrobacias, mas, claro, apenas para os mais experientes. Mary Lages acrescenta ainda que também há larguras diferentes de slacklines. A de 25 milímetros, chamada “clássica”, é usada mais para caminhadas. Já a de 45 milímetros, segundo ela, é a preferida para pulos, mortais e outras manobras.
Ela observa ainda que também já há outras variedades do esporte, como a highline, onde a fita é amarrada a um mínimo de cinco metros do chão. Há algumas semanas, a Rokaz promoveu campeonato no qual a fita era amarrada entre muros, mas os participantes estavam presos a “cadeirinhas” de escaladas para evitar quedas. Já os mais radicais chegam a passar o slackline até por cima de penhascos. Mas aí é outra história...

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