Muito além da Copa

por Patrus Ananias 05/07/2011 06:46

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Os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 nos apresentam uma pauta projetada para o futuro. Nossas cidades, Belo Horizonte entre elas, são chamadas a se modernizar e a aprimorar os equipamentos urbanos.

 

É necessário lançar esse olhar para frente, mas é fundamental que façamos isso sem perder nossa história. Podemos exercitar nossa capacidade de nos reinventar; de usar o presente para interpelar nossa melhor tradição e construir um futuro renovado e fortalecido pelo potencial de nossa gente. Na outra ponta, é o risco de algo sem lastro, incapaz de interpelar, de se renovar e, por isso, descartado no confronto com qualquer outra novidade.

 

Essas questões têm me visitado quando penso na história de Belo Horizonte e nas possibilidades que ela nos abre. Mas que fique claro: nenhuma ânsia de saudosismo que, sabemos, não é bom conselheiro. A vida e a história nos ensinam que é sempre a estranha mistura das coisas boas e ruins que guia nossas construções. Temos de ter isso em mente sempre que quisermos seguir em frente e melhorar.

 

Não podemos nos esquecer que a Belo Horizonte dos tempos nostálgicos de nossas lembranças é a cidade das transformações. Tempos mais largos e paisagens mais amplas que foram alteradas pelo complexo e rápido crescimento da cidade. A capital mineira acolheu pessoas e famílias de todos os cantos de Minas, de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Subiu morros, desceu encostas, ocupou vales, silenciou os rios, secou nascentes, ocupou terras, dificultou o olhar atento dos que gostam de acompanhar as viagens do sol, da lua, das estrelas. Afastou os sons da noite.

 

Muitos ainda lamentam as perdas em relação ao passado. É o preço do crescimento, dizem outros. O fato é que aqui chegamos, com o entorno cada vez mais alargado da capital dos mineiros. Não há caminho de volta. Agora é enfrentar os desafios do presente e construir as possibilidades do futuro. Se perdemos muitas coisas boas, se o progresso muitas vezes destruiu espaços preciosos de vida e convivência, afirmamos muitas conquistas e valores, como as esplêndidas realizações culturais que o Brasil e o mundo conhecem e aplaudem.

 

Para que a nossa cidade se torne cada vez mais humana e democrática, algumas tarefas se impõem: pensá-la no contexto da região metropolitana e viabilizar o seu planejamento. Continuar com generosa determinação nas ações de integração e inclusão, superando cada vez mais os dualismos excludentes entre centro e periferia.

 

Em 2014, Belo Horizonte sediará importantes jogos e eventos da Copa do Mundo. Em 2016, serão os jogos olímpicos no Rio de Janeiro, com reflexos no país inteiro. BH pode se tornar um ponto de referência. Mas vejo que as atenções estão mais voltadas para as necessárias obras materiais: melhoria e ampliação das vias públicas, do transporte coletivo, dos aeroportos, dos hotéis.
Essas obras são muito importantes. Mas não são tudo. Sem se envolver, de fato, com a vida da cidade, o alcance de sua contribuição para nosso futuro torna-se muito curto.

 

Belo Horizonte pode pautar uma reflexão importante sobre os aspectos humanos e sociais desses dois eventos internacionais. Trata-se de valorizar a prática esportiva como um todo na perspectiva dos jogos olímpicos e de valorizar especificamente o futebol em função da copa. Talvez seja o caso de repensar os espaços dos campinhos, das peladas, do futebol de várzea, inclusive, como forma de encontro e contraponto à violência, às drogas, ao alcoolismo.

 

Não se trata de ignorar a importância das obras materiais. O desafio que está posto para nós é pensar que a importância de cada uma delas se materializa no que elas representam, de fato, para nosso futuro. É pensar que elas devem ser planejadas dentro do objetivo maior de promover o desenvolvimento integral e integrado das pessoas, das famílias, das comunidades, da nossa cidade, de nosso país.

 

 

 

* Patrus Ananias é advogado, professor e pesquisador. Foi prefeito de BH e ministro do Desenvolvimento Social. Escreve mensalmente na Encontro

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