Quem sabe faz a hora

por Tereza Rodrigues 05/07/2011 09:58

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Eugênio Gurgel, Leandro Bifano, Geraldo Goulart e Divulgação
None (foto: Eugênio Gurgel, Leandro Bifano, Geraldo Goulart e Divulgação)

O Brasil tem pressa. Não fosse por isso, a locomotiva não alcançaria a paca tão cedo. A locomotiva é geralmente associada ao desenvolvimento e à geração de empregos. A paca é aquele roedor que, de tão molenga, breca o crescimento.

 

Pois bem, a trincheira que vai ligar a MG-030 à BR-356, sentido Nova Lima a Belo Horizonte, seria mais um daqueles exemplos brasileiros em que a paca se sobrepõe à locomotiva. Mais uma daquelas obras “prioritárias” prontas para sair do papel, mas que aguardam anos na burocracia.
Para ilustrar essa história, recorremos a uma fábula. O termo, celebrizado pelo poeta francês La Fontaine, vem do grego mithos e mostra, de forma alegórica, situações que requerem uma lição de moral. Nosso exemplo: no último 10 de junho, quando um grupo de empreendedores que investem na região conhecida como vetor sul, na Grande BH, assinou um acordo com o Ministério Público Estadual (MPE) e se comprometeu a bancar uma obra que estava empacada a esperar recursos do governo federal, a realidade se mostrou, como raras vezes, politicamente fabulosa.

 

O sócio-diretor da construtora Dominus, Cláudio Neves, um dos 20 empresários que se cansaram de esperar a ação do poder público e partiram para investir na obra, orçada em R$ 7 milhões, demonstra preocupação com a mobilidade no bairro Belvedere. “A espera por essa trincheira estava praticamente travando os investimentos naquela região. Já começava a haver rejeição de possíveis compradores de imóveis ali e, se não houvesse iniciativa nossa, o crescimento do vetor sul estaria inviabilizado”, afirma. Segundo ele, além de potencializar novos negócios, a ação busca corrigir um equívoco recorrente na nossa sociedade: “Infelizmente, no Brasil, o desenvolvimento vem antes da estrutura”.

 

 

Na Conartes, Thiago Xavier Gonçalves, coordenador de marketing, também se diz satisfeito com a iniciativa da qual a construtora faz parte, mas é categórico ao dizer que “a ação vai contra a lógica”. “Essa obra deveria ser realizada pelos órgãos públicos. A sociedade nos cobra atitude; estamos respondendo, mas o problema do trânsito vai ser apenas minimizado. O governo precisa ser mais incisivo”, afirma.

 

Moradores receberam como vitória a notícia de que o prazo para a conclusão da trincheira é de um a dois anos. O administrador de empresas Marcos Horta Morgado afirma que, desde que comprou sua casa no bairro Belvedere, em 2001, acompanha o agravamento do problema do trânsito na região. “O comércio como um todo foi se expandindo, o tráfego ficando cada vez mais pesado e faltou investimento em opções viárias”, reclama. Segundo seus cálculos, quando os motoristas que saem de Nova Lima em direção ao centro da capital não precisarem mais passar por dentro do Belvedere, ele vai economizar em média 30% do tempo gasto hoje no trânsito.

 

Luiz Hélio Lodi, presidente da Associação dos Empreendedores: impacto bem mais positivo no trânsito do que a alça inaugurada no ano passado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O urbanista e consultor Sérgio Myssior fala em “contexto metropolitano” para defender um novo modo de planejar o desenvolvimento das cidades. “Não é mais possível pensar individualmente em empreendimentos. Os projetos têm de responder às novas necessidades dos cidadãos, que o tempo todo estão transitando de um município a outro”, diz.

 

Segundo o especialista, o ponto de saturação “forçou” soluções imediatistas para o tráfego, uma obrigação do governo foi tomada pela iniciativa privada, mas há uma deficiência na integração política entre esses dois polos. “Se a lacuna do planejamento não for resgatada, o modelo de ocupação vai continuar sendo insustentável e as funções de cada um nunca vão ficar bem definidas. A gente vai sempre ter que buscar soluções a posteriori, inevitavelmente mais caras e nem sempre capazes de solucionar os problemas”, explica.

 

A construção da trincheira do Belvedere faz parte de um complexo maior de intervenção, chamado Portal Sul – obra que inclui viadutos, alças de acesso, passagens inferiores, além de alargamento de pistas da BR-356 para aliviar os congestionamentos diários causados pelos cerca de 75 mil veículos que transitam na região todos os dias. De acordo com a assessoria de comunicação do Dnit, não há previsão para que o restante da intervenção saia do status de “análise do edital, que pode ser publicado a qualquer momento”. No entanto, se não cumpre seu dever, o órgão pelo menos dessa vez não travou a iniciativa de quem não quer esperar acontecer. Segundo o MPE, o Dnit se comprometeu a liberar e fiscalizar as obras.

 

O promotor de Justiça Luciano Badini, que coordena o Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Meio Ambiente, foi um dos intermediadores da negociação que tornou a antecipação da obra possível. Interessante para todas as partes, o acordo que permitiu que a construção da trincheira fosse revertida como compensação ambiental deu agilidade ao processo. Os empresários vão aplicar R$ 4 milhões e os outros R$ 3 milhões serão sacados da conta judicial aberta pela direção do BH Shopping, há alguns meses, em acordo parecido.

 

Cláudio Neves, da Dominus, um dos investidores na obra: “Se não houvesse iniciativa dos empresários, o crescimento do vetor sul estaria inviabilizado”

 

 

 

 

 

 

 

Badini explicou que os licenciamentos das obras do vetor sul eram, até então, concedidos no âmbito municipal, e a partir do termo de compromisso assinado no mês passado ficou entendido que, como há respaldo em mais de uma cidade, as regras de licenciamento passam a ser definidas no âmbito estadual. “Partindo deste ponto, ouvimos a população, representantes das prefeituras envolvidas, do governo estadual e empreendedores, e entendemos que essa demanda era a prioridade para aliviar os problemas vividos por quem mora ou transita na área”, afirma. O promotor coloca, ainda, que outras notícias boas foram conseguidas no referido acordo. “Será feito um estudo, avaliado em R$ 800 mil, no qual os empreendedores entregarão um mapeamento completo do vetor sul. É uma ferramenta importante para definir as regras de planejamento que o governo irá adotar daqui para frente”.

 

Para o presidente da Associação dos Empreendedores dos Bairros Vila da Serra e Vale do Sereno, Luiz Hélio Lodi, a Alça Sul (que liga a BR-356 e a MG-010 e faz a ligação no sentido Rio de Janeiro a Nova Lima, inaugurada em junho de 2010) já deu uma boa aliviada no trânsito da região. “Mas agora nossa expectativa é que o impacto no trânsito seja bem mais positivo”, diz.

 

Sua visão é parecida com a do ex-prefeito de Nova Lima e deputado federal Vitor Penido (DEM): “Estamos tentando melhorar o tráfego do entorno do BH Shopping há muitos anos, mas os recursos não foram liberados, apesar de toda a obra do Portal Sul ter sido aprovada no orçamento federal de 2008. A trincheira vai fazer muita diferença para os moradores de cidades da Região Metropolitana, principalmente Nova Lima, Raposos e Rio Acima”, conclui o deputado.

 

 

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