O trem da história não pode parar

por Deca Furtado 05/07/2011 12:49

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Cláudio Cunha, Neno Vianna, Washington Alves, Geraldo Goulart e Divulgação
None (foto: Cláudio Cunha, Neno Vianna, Washington Alves, Geraldo Goulart e Divulgação)

Neste 8 de julho, Ouro Preto comemora 300 anos de elevação a vila – a contar da data de criação da Câmara Municipal. A antiga Vila Rica, que surgiu como povoado há 313 anos, viu de tudo nestes três séculos: o início e o fim do ciclo do ouro, a Inconfidência Mineira de Tiradentes, a Independência, o fim da monarquia, a República, golpes de estado, revoluções e a democratização.

 

Esses acontecimentos tornaram uma palavrinha de cinco letras, crise, íntima da cidade. Todavia, nenhuma delas foi capaz de deter a urbe por muito tempo. Como se chinesa fosse, a cidade entendeu o significado de crise: oportunidade. Por isso, nem a transferência da capital, e nem mesmo o fato de ter murchado ao final do ciclo do ouro, por volta de 1920, quando a população chegou a 11,8 mil pessoas – no auge da exploração aurífera eram 78 mil habitantes –, foram suficientes para acabar com este Patrimônio da Humanidade. Baseada no tripé mineração/metalurgia - Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) - turismo, ela agarrou as oportunidades e tem sobrevivido bem, com a população tendo voltado aos 70 mil habitantes no município. Daí se vê que Ouro Preto tinha mesmo é que festejar seus 300 anos.

 

Ora, comemorar é com ela mesma, uma das cidades mais festeiras do país. É tanta festa que dá gosto. As do tricentenário foram marcantes: com cerca de 500 eventos de pequeno, médio e grande porte, elas começaram em 2010 e se estenderam por um ano inteiro. A Festa de Chico Rei, os Autos de Natal, o carnaval, as cavalhadas, as festas do Divino nos distritos de São Bartolomeu e Lavras Novas, a de São Gonçalo em Amarantina, e outras, muitas outras, divertiram e emocionaram moradores e turistas.

 

Triunfo Eucarístico, encenado há dois meses exatamente como em 1733: maior festa do Brasil no período colonial

 

 

 

Mas a maior festa do Brasil no período colonial só seria revivida neste ano, em 29 de maio. “Foi a Procissão do Triunfo Eucarístico, reencenada exatamente como aconteceu em maio de 1733”, diz o prefeito Angelo Oswaldo. Em 2011, artistas plásticos, artesãos e outras categorias se mobilizaram para a re-encenação, celebrada por 600 participantes e assistida por cerca de 15 mil pessoas.

 

Valeu o esforço. Opulento, o Triunfo Eucarístico marcou a reinauguração, em 1733, da Matriz do Pilar. Os participantes de então desfilaram por ruas atapetadas portando estandartes de seus padroeiros. Dançarinos, grupos folclóricos, conjuntos musicais, carros do triunfo, personagens a cavalo e alegorias mitológicas formavam o cortejo. Houve danças contando os duelos entre mouros e cristãos e quatro cavalos representando os quatro ventos. Todos os participantes usavam trajes esplendorosos, com acabamento em veludo e sedas, ouro, prata e pedrarias. Os detalhes foram registrados pelo português Simão Ferreira Machado, então governador da província, no livro O Triunfo Eucarístico, de 1734. A obra, que serviu de roteiro para a reconstituição do evento, traz minuciosos detalhes dos trajes usados, alegorias, danças e cenários.

 

É uma pena que a rememoração (em 2011 foi a terceira vez em que isso aconteceu) siga a data original – melhor seria, talvez, se fosse em julho, para que mais turistas pudessem ver. Tomara que haja outras, pois assim ela ajudará a estender a programação de eventos oficiais da prefeitura de Ouro Preto, que este ano vai só até 13 de julho (veja o quadro). Ficou um gosto de quero mais...

 

A maria-fumaça que liga Ouro Preto a Mariana: reativada em 2006 pela Fundação Vale, com investimento de R$ 48,5 milhões

 

 

 

Em compensação, o Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana, e o Fórum das Artes 2011, promovido pela Ufop e que começa no dia 8, vão até o dia 24. A temática deste ano homenageia o tricentenário das primeiras vilas de Minas: Ribeirão do Carmo (Mariana), Vila Rica (Ouro Preto) e Vila Real Nossa Senhora da Conceição (Sabará). O festival terá 42 oficinas, com 1.200 vagas em artes cênicas, plásticas, visuais, infantojuvenil, literatura, música e patrimônio. A programação completa está no site www.festivaldeinverno.ufop.br.

 

O festival terá ainda o Circuito Culinária e Arte, no qual bares e restaurantes da cidade são desafiados a criar pratos baseados na temática do ano. É uma boa oportunidade para se conhecer a cozinha local. Nela, entre tachos e talheres, e no fumegar dos fogões a lenha, pode-se sentir parte da história de Minas. Os pratos funcionam ainda como um bom aperitivo para os shows do festival, que, entre outros, terá Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Elomar, Antônio Nóbrega e Zé da Velha.

 

Está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas as festas e o festival são mais para turista ver. Turistas, um total de 500 mil por ano, que têm à sua escolha bons hotéis e pousadas. O turismo é importante, porém sozinho não garante o futuro dos moradores da cidade. E o hoje importa tanto quanto o amanhã. Daí a pergunta que não quer calar: Ouro Preto tem futuro econômico? E o meio ambiente, será preservado?

 

A cidade conta com quatro grandes mineradoras. Elas são uma garantia de certa estabilidade, pois as jazidas de minério de ferro e bauxita, acredita-se, vão durar ainda uns 50 anos. Tempo mais do que suficiente para que as empresas geradas na incubadora de empresas da prefeitura e da Ufop, atual e futuramente, maturem e gerem bons frutos, sem falar em outras iniciativas.
Criando mais empregos, Ouro Preto poderá sobreviver bem. Foi o que aconteceu no passado.

 

Então, uma iniciativa de Américo Renné Giannetti ajudou a reerguer a cidade do tombo ocasionado pelo fim do metal amarelo. Político e empresário, Giannetti fundou, nos anos 1930, uma mineração e metalurgia de alumínio que, anos depois, se tornou propriedade da Alcan e que, atualmente, está nas mãos do grupo Novelis. A usina tem 605 funcionários e 105 terceirizados. “Não é um contingente enorme, mas ainda assim somos os maiores empregadores dentro da cidade”, ressalta Eli Murilo, gerente geral da Novelis em Ouro Preto.

 

 

A empresa produz 50 mil toneladas/ano de alumínio primário em Ouro Preto. A Novelis está investindo 300 milhões de dólares em Pindamonhangaba (SP), que sedia outra usina sua, para aumentar a produção. Haverá reflexos em Ouro Preto: “Aqui investimos outro bocado, mas não no aumento da produção e sim em flexibilização, a fim de termos produtos de maior valor agregado”, revela Murilo.

 

Todo processo metalúrgico é altamente poluente e o da Novelis não é exceção. Numa cidade como Ouro Preto, que também vive da história, isso é preocupante. Todos se perguntam: “Vai sobrar alguma coisa das montanhas? Será que a poeira das minas não vai acabar com os monumentos históricos?”

 

Se depender da empresa, que também explora uma mina de bauxita no entorno da usina, tudo leva a crer que o meio ambiente não sofrerá mais do que o inevitável. Ela, por exemplo, cedeu 30% da área do Parque do Itacolomi ao Instituto Estadual de Florestas (IEF). E afirma controlar os processos e recuperar o que já foi degradado. A Novelis é certificada na norma ISO 14.000. Não é uma garantia absoluta contra desastres ambientais, mas significa ter confiáveis meios de proteção ambiental. “Recuperamos todas as áreas esgotadas com programas diferenciados e que se tornaram modelos ainda quando éramos Alcan”, diz Murilo.

 

 

A exemplo da Novelis, faz anos que a Vale S.A. opera minas (de minério de ferro a céu aberto) no complexo Mariana, que engloba Ouro Preto. Mas, no município propriamente dito, a empresa não opera desde 2007, quando a mina de Timbopeba foi paralisada, depois de produzir desde 1984. De acordo com a empresa, ainda funcionam no local a oficina e a usina de beneficiamento, além de escritório e laboratórios químico e físico. “Não há plano, no momento, para abrir novas minas na cidade”, diz a Vale.

 

Resta o passivo ambiental. Com Timbopeba paralisada, a Vale tenta compensá-lo com trabalhos permanentes de manutenção das estruturas existentes, ações constantes de revegetação e drenagem e outros sistemas de controle hídrico, além da manutenção de áreas de preservação como reservas legais e Reservas Particulares do Patrimônio Natural.

 

A Vale também tem programas sociais desenvolvidos em Ouro Preto. Em 2006, por exemplo, por meio da Fundação Vale e mediante investimento de R$ 48,5 milhões, ela inaugurou o Trem da Vale, restabelecendo a ligação Ouro Preto - Mariana com uma bucólica locomotiva maria-fumaça. Com isso, a empresa trouxe mais uma atração turística para a cidade e ainda um programa inédito no país, relacionado à educação patrimonial. A Vale tem também o Programa Inove – para desenvolvimento de fornecedores na localidade, patrocínios a projetos socioculturais, ações filantrópicas, e prevê ainda a instalação da sede do Instituto Tecnológico Vale no município.

 

A Samarco Mineração, empresa do grupo Vale, é outra mineradora com operações em Ouro Preto – parte da mina do Germano está localizada em terras do município. Ela, que faturou 3,5 bilhões de dólares em 2010, com lucros 1,2 bilhão de dólares, anunciou investimentos de R$ 5,4 bilhões em um plano de expansão que elevará a capacidade de produção de pelotas de minério de ferro das 22,5 milhões de toneladas/ano atuais para 30,5 milhões de toneladas/ano em 2014.
O projeto, de acordo com José Tadeu de Moraes, presidente da Samarco, prevê a construção de um novo concentrador de minérios na mina de Germano, da quarta usina de pelotização da empresa, a adequação do terminal portuário de Ubu, no Espírito Santo, e um terceiro mineroduto ligando a mineração à unidade industrial capixaba. O concentrador de minério de ferro, a ser construído em Ouro Preto, demandará investimento da ordem de R$ 1,8 bilhão. Outros R$ 1,9 bilhão serão aplicados na usina de pelotização, enquanto o mineroduto consumirá R$ 1,7 bilhão.

 

A previsão da Samarco é criar 1,1 mil empregos (600 na unidade de Germano, que irão se somar aos 1.113 que ali já trabalham, e 500 em Anchieta, no Espírito Santo). Em Minas, a prioridade no preenchimento das vagas será dada aos trabalhadores da região da mina. “Pretendemos contratar o máximo possível de mão de obra local. A população ganha e o município também, pois a economia da região será estimulada, assim como a arrecadação de impostos”, afirma Maury de Souza Júnior, superintendente do projeto.

 

Fora o investimento, a população de Ouro Preto conta também com os programas sociais – com destaque para o de voluntariado – e ambientais da Samarco. Em 2010, ela investiu R$ 83,9 milhões em ações e projetos de gestão e proteção ambiental. Na região de Ouro Preto, a empresa está reabilitando a Cava do Germano, de onde extraiu minério de ferro entre 1977 e 1990. A recuperação se dará por meio da implantação de uma pilha de 150 metros de altura, formada com os rejeitos dos minérios, além da completa revegetação com espécies da flora local. Após a conclusão, em 2020, aproximadamente 225 espécies vegetais da flora local terão sido recuperadas. Além disso, a empresa mantém um programa de reabilitação de áreas alteradas, permanente. Ele envolve ainda mecanismos de atração e monitoramento da fauna nas áreas de reabilitação e a introdução de abelhas nativas, além de cuidados com a água e eventuais drenagens.

 

Com todos esses cuidados, mais os investimentos, a resposta para as perguntas é que Ouro Preto tem, sim, futuro econômico e boas possibilidades de se conservar como uma das mais belas cidades de todo o mundo.

 

 

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