Pulando etapas

por Andréa Castello Branco 05/07/2011 13:47

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Geraldo Goulart, Eugênio Gurgel e Maíra Vieira
None (foto: Geraldo Goulart, Eugênio Gurgel e Maíra Vieira)

Eles ainda não aprenderam a amarrar os sapatos, mas já dominam a tecnologia dos jogos virtuais. Hoje, mais crianças sabem brincar no computador (58%) do que nadar (43%), e um quarto já consegue abrir um navegador da web e passear pelo mundo virtual, utilizando jogos online e redes sociais. Esses são alguns dados da pesquisa realizada pela AVG Technologies com 2,2 mil mães em 10 países. O estudo mostra que 69% das crianças usam o computador antes de adquirir habilidades básicas, como fazer as refeições sozinhas, tomar banho ou andar de bicicleta. Na pesquisa, mães com filhos entre 2 e 5 anos classificaram as atividades que as crianças aprenderam primeiro, entre computadores e atividades tradicionais. O resultado mostra uma sensível alteração nas experiências infantis a partir da disseminação da tecnologia no núcleo familiar.

 

O que pais e mães orgulhosos da “esperteza” dos filhotes talvez não saibam é que o uso precoce do computador pode não ser tão positivo quanto parece. Adriana Cançado Munayer, psicóloga e presidente da regional Minas Gerais da Associação Brasileira de Psicomotricidade, afirma que, caso a criança seja muito exposta ao uso de suas atividades cerebrais, haverá um atraso no seu desenvolvimento global e ela pode apresentar dificuldades para amarrar sapatos, grafar com habilidade ou realizar trabalhos manuais. “A predominância de jogos eletrônicos é algo para se preocupar. Podemos observar nessas crianças com comprometimento motor e que apresentam um nível intelectual preservado um atraso na aquisição de habilidades cognitivas”, diz. Segundo a psicóloga, isso se deve ao fato de serem privadas de experiências motoras essenciais para a construção de um saber. “É necessário que as crianças vivenciem o próprio corpo para adquirir conceitos fundamentais, como noções espaciais, temporais, habilidades motoras e sociais”, explica.

 

O pequeno Daniel é estimulado pela mãe, Verônica Teixeira, a trocar a tecnologia por brincadeiras: “Ele já fica muito tempo vendo TV, por isso acho que o videogame e o computador podem esperar mais um pouco”

 

 

Elza Mourão, psicóloga e educadora, reconhece o potencial pedagógico dos meios eletrônicos, mas não acha positivo o desequilíbrio que a entrada da tecnologia provoca no dia a dia das crianças. “O computador é uma atividade basicamente intelectual, a criança fica imóvel. Isso é ruim, porque ela precisa adquirir habilidade não só para dominar os movimentos, mas, principalmente, para conhecer as potencialidades do próprio corpo”, diz.

 

Ela ressalta que os jogos eletrônicos muitas vezes substituem o brincar e jogar coletivamente, atividades essenciais para o desenvolvimento infantil. “Não existe conhecimento desvinculado do mundo real, é preciso experimentar. É nessa interação que a criança também adquire o prazer de dividir com os outros, de respeitar regras, de sofrer frustrações, a que chamamos de socialização”, diz a educadora. Entre as crianças brasileiras já é possível encontrar exemplos do impacto que a tecnologia pode ter na aprendizagem de coisas simples.

 

A publicitária Juliana Carneiro Simões, mãe de Theo, de 6 anos, só foi perceber que o talento surpreendente do filho com jogos eletrônicos estava sendo prejudicial quando ele começou a apresentar problemas na escola: “Ficar no computador era o que ele mais gostava de fazer e a gente achava que aquilo era normal, era mais um brinquedo. Mas ele foi ficando para trás na escola em coisas básicas, como trocar de roupa para a aula de natação ou conseguir se servir no lanche, coisas simples que os coleguinhas já faziam e ele não. Até que ele mesmo começou a ficar constrangido com isso e ter resistência para ir à escola”, conta.

 

A professora universitária Marjorie Marona brinca com o filho Vicente: incentivado pelo pai, o menino gosta mesmo é de ir a um dos parques da cidade para correr, andar de triciclo e ver as plantas, conta a mãe
 
Para a psicóloga e educadora Elza Mourão, jogos eletrônicos não devem substituir as brincadeiras: “A criança precisa adquirir habilidade para dominar os movimentos e conhecer as potencialidades do próprio corpo”

 

 

 

 

 

Com o apoio de uma psicopedagoga, Theo teve a rotina modificada. Hoje ele faz sozinho diversas atividades e tem o limite de uma hora diária para jogos no computador. No final de semana ele ganha um tempinho a mais, mas desde que não substitua nenhuma atividade ao ar livre. “Às vezes ele prefere ficar no computador que assistir televisão; a gente acaba cedendo um pouquinho”, revela a mãe.

 

Já na casa de Maria Izabel Gonçalves Gontijo, mãe de Paula, de 3 anos, e de Laura, de 6, a situação é oposta. Apesar de a família ter computador em casa, as meninas passam longe das brincadeiras tecnológicas. Raramente sentam junto com a mãe para conversar com algum primo que está online, mas a diversão, na maior parte do tempo, é como antigamente. “Acho que é muito cedo para isso. Criança tem de brincar, correr, pular corda. Eu fui criada assim. Não acho interessante para elas aprenderem esse tipo de coisa agora, elas têm a vida inteira para isso”, argumenta.

 

Marjorie Corrêa Marona, professora universitária e mãe de Vicente, de 4 anos, também ainda não sente a “pressão” dos jogos eletrônicos. “O Vicente ainda não tem essa demanda. Só quando eu estou no computador que ele vem para o meu colo e quer teclar, mexer no mouse. O que já acessamos na internet para ele foi desenho e clipe musical. O computador acaba tendo a mesma função de TV, mas nem isso chega a ser uma rotina”, conta. Estimulado pelo pai, Vicente gosta mesmo é de ir a um dos parques da cidade para correr, andar de triciclo e ver as plantas. “Desde pequeno ele foi acostumado a isso e hoje é o que mais curte”, conta a mãe.

 

 

Assim como Marjorie Marona, Verônica Teixeira também estimula as brincadeiras e agradece pelo pouco interesse do filho Daniel, de 4 anos, por jogos de computador. “Pensando no contexto, é muito normal uma criança nessa idade já dominar a tecnologia, a própria escola incentiva isso. Mas o Daniel já fica muito tempo vendo TV, por isso acho que o videogame e o computador podem esperar mais um pouco. Começando cedo, tudo fica mais precoce; daqui a pouco ele vai querer entrar em sites, redes sociais, e isso é muito perigoso”, diz, ressaltando a insegurança que a internet pode significar. Verônica prefere que o filho explore o quintal em brincadeiras em que possa gastar energia. “Tento incentivar o máximo de atividade”, diz.

 

Mírian Vasconcelos Alves de Souza é mãe de Pedro, de 11 anos, e Vivian, 9, e controla com rigor o tempo que os filhos permanecem ao computador. “Aqui em casa é uma hora por dia para cada um e somente nos fins de semana. Durante a semana eles estudam e brincam”, conta. Para ela, o computador, além de ser um brinquedo perigoso “por abrir as portas da casa para estranhos”, acaba prejudicando a socialização. “O que mais vejo são crianças que não sabem cumprimentar as pessoas, que só dão respostas curtas, que não conseguem conversar. Serão adultos que não conseguirão se comunicar como a sociedade de hoje exige. Não quero isso para os meus filhos”, diz.

 

Maria Izabel Gonçalves Gontijo, com as filhas Paula e Laura: “Criança tem de brincar, correr, pular corda. Eu fui criada assim”

 

 

 

O conteúdo a que Pedro e Vivian têm acesso também é bastante controlado. Mírian prefere ser “uma mãe chata” a deixar que os filhos corram risco: “O Pedro está entrando na pré-adolescência, então fica insistindo para ter uma conta no Orkut, mas ainda acho cedo. O que fiz foi passar o meu endereço para os colegas dele e ele conversa através da minha conta. Assim fico segura de que nenhum estranho será adicionado como amigo”, explica.

 

O doutor em fisiologia do exercício, Luciano Sales Prado, chefe do Departamento de Educação Física da UFMG, diz que essa é a melhor conduta que os pais podem ter. Segundo ele, uma criança nessa fase precisa de estímulos motores, caso contrário, vai se tornar um adulto limitado do ponto de vista corporal. “É nessa fase do desenvolvimento que você constrói o gosto pela atividade. Se isso não acontece quando criança, é muito mais difícil você ter adesão a um programa de atividade física na vida adulta”. Segundo o professor, isso acontece por um motivo muito simples: esse adulto vai ter um repertório motor pouco desenvolvido, e se não há habilidade você não tem um feedback positivo e acaba ficando desestimulado.

 

Além do aspecto físico, Luciano Prado afirma que o potencial da brincadeira tende a ser subestimado. Contudo, a pouca interação com outras crianças tem um reflexo negativo também no desenvolvimento cognitivo e social-afetivo. “A mensuração sobre os prejuízos que os jogos tecnológicos podem trazer para a criança ainda é frágil, mas uma coisa é certa: pode haver uma grande limitação nos relacionamentos sociais na vida adulta. É brincando que a gente aprende a conviver. O fato de ficar interagindo horas com uma máquina não é saudável. Além disso, já há indícios de que a falta de atividade física pode trazer um comprometimento na aquisição de conhecimentos, na memória e concentração. A coordenação motora é só um dos aspectos”, analisa.

 

O professor também ressalta que, em tempos de combate à obesidade – nas grandes cidades o sobrepeso da população adulta é de 50% e a obesidade chega a 15% –, é preciso estimular a atividade física ainda na infância. Para Luciano Prado, “a lógica do sedentarismo” é a mesma da TV, e ele alerta: é necessário que os pais estejam atentos para o tipo de uso que esse equipamento terá. “Para muitos pais é um alívio; a criança fica quieta e eles, sossegados. Juntando a atratividade com o comodismo, os pais se rendem. Mas só existe uma forma de prevenção à obesidade: alimentação adequada e gasto de energia. É fundamental que a criança movimente o corpo, brinque, corra”, aconselha.

 

Mírian Vasconcelos Alves de Souza com o filho Pedro, sobre o acesso de seus dois filhos ao computador: “Aqui em casa é uma hora por dia para cada um e somente nos fins de semana”

 

 

 

Como a educação digital e a diversão eletrônica são caminhos sem volta, o melhor é saber escolher qual atividade é mais apropriada para seu filho. Marisa Lucena, doutora em informática e educação, dá algumas dicas para que o computador seja utilizado de forma saudável: “Quando um pai compra um programa para ser usado em casa, a primeira preocupação deve ser com o conhecimento geral. Até um editor de textos pode proporcionar uma atividade interessante; depende da aplicação que se dá. Aos olhos de alguém que não seja um profissional da educação, um site sobre cartões não é educacional. Mas você pode trabalhar a afetividade ao pedir que a criança escolha imagens e palavras que vai usar no cartão virtual a ser enviado para a avó, por exemplo”.

 

Em relação à idade certa para a exploração dos jogos eletrônicos, a psicóloga Adriana Cançado Munayer diz que não há uma regra, mas aponta alguns critérios para o uso do computador por crianças menores de 5 anos. “Crianças que ainda não estão alfabetizadas e demonstram interesse pelo computador podem se beneficiar com jogos ou atividades adequadas para sua fase de desenvolvimento, como as experiências visuais e auditivas que despertam seu interesse pelo aprender. Mas é importante que o tempo de utilização de instrumentos tecnológicos seja regulado pelos pais. Cabe a eles se familiarizar com aquilo que é vivenciado pelos filhos”, diz.

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