Você topa ser gentil?

por Daniele Hostalácio e Simone Dutra 06/07/2011 08:12

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Cláudio Cunha, Melissa Boëchat e Emmanuel Pinheiro
None (foto: Cláudio Cunha, Melissa Boëchat e Emmanuel Pinheiro)
 

Não faz muito tempo que os jornais trouxeram mais uma notícia de morte causada por uma briga de trânsito: um motoqueiro e o motorista de um carro se desentenderam depois de uma simples batida,numa das avenidas mais movimentadas da cidade de São Paulo. O motoqueiro acabou sendo baleado e morreu, vítima de um enredo que tem vários pontos de semelhança com muitas outras tragédias que, de tempos em tempos, ganham espaço no noticiário: motoristas discutem por causa de uma colisão ou de uma fechada, segue-se uma perseguição. Saldo: morte.

 

Não foi a primeira e provavelmente não será a última. Diante de episódios como esses, mais uma vez nos deparamos com algumas reflexões: por que o trânsito se tornou um espaço para destilarmos tanta ira? Por que, mesmo quando saímos de casa para um domingo feliz, poucos quarteirões adiante podemos fazer um inimigo mortal? Por que nos despimos de nossa gentileza e cordialidade antes de pegar no volante de um carro?

 

Pateta, personagem da Disney, como o Sr. Walker: fora do volante, gentil e amável. No carro, individualista ao extremo
 

 

Há uma unanimidade quando a questão está em debate: precisamos tornar o trânsito mais humano e, para isso, não seria nada mal levar mais gentileza para as relações que obrigatoriamente tecemos com estranhos enquanto guiamos nosso carro por vias públicas. Ceder espaço para que outro carro entre na nossa frente, esperar pacientemente que um pedestre mais lento atravesse a rua, não sair por aí disputando com outros carros quem arranca primeiro ao abrir o sinal, ter tolerância com barbeiragens alheias...

 

“A falta de gentileza entre pessoas, em qualquer situação, é um fator que contribui para o desgaste das relações interpessoais. Em contextos que já significam uma maior tensão emocional, como no trânsito, a falta de gentileza é mais facilmente interpretada como grosseria e pode desencadear respostas agressivas”, observa João Gabriel Marques Fonseca, médico e músico, professor da Faculdade de Medicina e da Escola de Música da UFMG, que tem se dedicado a programas de promoção da saúde e controle do estresse.

 

 

 

Inspiradas nessa ideia do poder da gentileza, várias campanhas têm surgido espontaneamente na sociedade, pedindo mais cordialidade no trânsito. Uma delas, idealizada pela seguradora de carros Porto Seguro, intitula-se “Trânsito Mais Gentil”. “A ideia surgiu da percepção de nossas próprias equipes de que a intolerância no trânsito vem aumentado. Pensamos no que poderíamos fazer, que não fosse centrado no respeito às leis, mas sim no comportamento das pessoas”, explica Tanyze Marconato, gerente de marketing da seguradora.

 

O movimento é apoiado por campanhas publicitárias, ações de rua, ações interativas na internet e promoção de descontos na renovação ou contratação de seguro para quem não possui pontos na carteira de habilitação. Inicialmente lançada em São Paulo e depois estendida para todo o Brasil, a campanha tem colhido saldos muito positivos, com milhares de motoristas adotando o adesivo do movimento e muitas discussões em torno do tema nas redes sociais.

 

 

 

Um ano depois de lançada, ela contabiliza mais de 45 mil apoiadores em sua página oficial na internet e mais de 6 mil seguidores no twitter. A comunidade “Trânsito Mais Gentil’, no Orkut, já possui cerca de 4,5 mil membros.“Ficamos surpreendidos com essa resposta da sociedade. O que percebemos é que as pessoas precisavam de uma causa no trânsito. Elas queriam se mobilizar e não sabiam como”, acredita Tanyse.

 

Outra campanha que tem como mote a cordialidade está sendo capitaneada pela UFMG. “Bocados de Gentileza” pretende propagar um movimento maior dentro dos campi da universidade, levando a ideia de que pequenas atitudes gentis podem melhorar a convivência de todos. O trânsito é exatamente um dos focos da campanha, já que só no campus da Pampulha circulam, diariamente, mais de 35 mil veículos e 55 mil pessoas, números que superam os de muitas cidades brasileiras. Excesso de velocidade, desrespeito à faixa de pedestres e estacionamento em locais proibidos são alguns dos problemas com os quais a comunidade acadêmica convive, agravados pelo fato de que dentro da universidade não existem multas de trânsito. “Por isso, precisamos apelar para a consciência de cada um, e é isso que a campanha tem tentado fazer. Nossa intenção é de que os efeitos da campanha se estendam também para fora do campus”, observa Márcio Baptista, pró-reitor de Administração da UFMG.

 

 

 

“A forma como as pessoas se relacionam no trânsito pode ser indicadora de como os membros de uma sociedade se relacionam de modo geral. Se nas relações na vida social impera a competitividade, o individualismo e o imediatismo, não se pode esperar outra coisa do trânsito”, diz Fábio de Cristo, psicólogo e doutorando em psicologia na Universidade de Brasília, onde desenvolve estudos sobre o comportamento no trânsito.

 

Eduardo Biavati, sociólogo, autor do livro Rota de Colisão, a Cidade, o Trânsito e Você (Berlendis & Vertechia Editores), destaca o fato de que, seja como for, o trânsito está longe de ser expressão da cidadania, não só pela falta de gentileza, mas pelas usuais transgressões às leis de trânsito, bem como pela marca da violência. “Quando avaliamos o modo como transitamos, vemos que não sabemos respeitar o próximo. Acaba imperando a lei do mais forte”, ressalta.

 

Nessa relação de poder, comumente os pedestres perdem para os carros. Essa desigualdade deu origem a um clássico desenho da Disney, protagonizado pelo Pateta. A animação é uma parábola da nossa relação com os carros e da nossa postura diferenciada quando somos pedestres ou motoristas. Em cena, Pateta é o Sr. Walker, apresentado pelo narrador como um típico homem comum: bom cidadão, gentil, amável e honesto, “incapaz de machucar uma mosca”, e que se considera um bom motorista. O narrador continua a apresentação: “Mas, quando pega no volante, ele se deixa levar pela sensação de ser forte e se transforma num monstro diabólico: o Sr. Wheller: péssimo motorista, individualista, que faz das vias públicas uma pista de corrida”.

 

César Lopes, gerente de educação da BHTrans: “Ficou difícil ver quem está dentro do carro, se é uma mãe com crianças, se é uma pessoa idosa”
 

 

Há outros fatores em jogo. A psicóloga Neuza Corassa, especialista em trânsito, pesquisou o comportamento de motoristas durante 10 anos e observou que há uma importante característica que faz do trânsito um espaço único. “As pessoas não se reúnem ali por afinidade, como acontece em outros tipos de agrupamentos. Trata-se de um espaço coletivo marcado pela heterogeneidade, onde se encontra uma diversidade de pessoas, de personalidades, de tipos e de classes sociais”. Esse ambiente peculiar exige doses mais generosas de tolerância, mas o que acontece é o oposto.

 

Autora do livro Síndrome do Caracol-Seu Carro: Sua Casa Sobre Rodas (Ed. Juruá), Neuza Corassa acrescenta que outro aspecto que faz do trânsito um espaço para possíveis conflitos é o fato de que os carros se tornaram extensões da casa. Presas em congestionamentos e sempre atrasadas, as pessoas acabam fazendo do carro a cozinha, onde lancham, o escritório, onde fazem anotações e reuniões pelos celulares, o quarto, onde se penteiam e se maqueiam. “As pessoas entram no carro como se estivessem em casa, mas se esquecem de que estão deixando um espaço privado e adentrando um espaço coletivo, público. Por isso, o outro é visto como um intruso, e qualquer aproximação maior entre os carros é vista como uma agressão, como uma invasão de privacidade, o que acaba potencializando conflitos”, explica.

 

Entre os fatores que mais contribuem para a falta de gentileza ao volante estão os constantes congestionamentos. “Em Belo Horizonte, hoje, se contarmos com a frota flutuante, são cerca de 1,5 milhão de carros circulando pelas ruas, e esse número só cresce. Acrescente-se a isso o fato de que é a cidade do país com maior número de sinais de trânsito, um verdadeiro tabuleiro de xadrez, com mais de 100 pontos de gargalos. Anda-se pouco, o fluxo fica lento e isso aumenta a tensão, porque as pessoas ficam muito irritadas”, observa José Aparecido Ribeiro, estudioso de assuntos urbanos e de trânsito.

 

Márcio Baptista, pró-reitor da UFMG, que lançou a campanha Bocados de Gentileza
 

 

Segundo dados da BHTrans, na avenida Nossa Senhora do Carmo circulam 85 mil veículos todos os dias. Por hora, no final da tarde, no horário de pico, 3.500 veículos trafegam no sentido bairro/centro. “Presas nos carros, as pessoas passam a não ter paciência nem para esperar o outro levar alguns segundos para arrancar. A buzina acaba sendo o grito do motorista dizendo ‘estou ficando louco aqui dentro’. É uma forma de se fazer ouvir”, avalia Ribeiro.

 

A lentidão do trânsito estressa e acaba impedindo atitudes gentis, já que o tempo é um elemento crucial quando falamos de locomoção sobre quatro rodas. Segundo uma recente pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 35% dos brasileiros percebem que a rapidez é a principal característica de um bom transporte. “Queremos chegar rápido nos lugares, queremos nos deslocar rápido até um compromisso para, logo em seguida, ir a outro. Mas, e quando não conseguimos a rapidez esperada? Em muitos casos, nós nos frustramos e nos angustiamos, ficamos ansiosos. Isso poderá nos levar ao adoecimento ou a agir agressivamente, ferindo, agredindo e até machucando alguém”, acrescenta Fábio de Cristo.

 

É por isso que um olhar mais atento sobre a nossa sociedade conclui rapidamente que vivemos uma relação muito complicada com o tempo, e ela tem impacto na falta de gentileza no trânsito: estamos sempre com a agenda cheia, pulando de um compromisso para outro, com as atividades cronometradas. Por isso um carro lento na nossa frente, um veículo que fecha o cruzamento, uma pessoa que decide manobrar impedindo por alguns minutos o fluxo de trânsito deixam as pessoas muito irritadas. Fica difícil ser gentil, ceder a vez, ser paciente, quando se está atrasado.

 

Repensar a nossa relação com o tempo e nossa relação com o outro, desconhecido, com quem divido o espaço público, torna-se por isso fundamental, especialmente se considerarmos as mudanças pelas quais as vias públicas passaram nas últimas décadas, em função da elevada quantidade de automóveis e da maior potência dos motores. “São dois aspectos que requerem das pessoas novas habilidades, para além daquelas que as autoescolas têm focado – ligar o carro, colocá-lo em movimento, pará-lo e estacioná-lo. O trânsito atual exige de nós habilidades para conviver com muitas pessoas e, especialmente, de nos autoavaliarmos, a fim de controlarmos nossas emoções e impulsos”, ressalta Fábio de Cristo.

 

Colocar-se no lugar do outro é também exercício fundamental nesse movimento por mais gentileza no trânsito, na avaliação de César Teixeira Lopes, gerente de Educação da BHTrans. Algo mais difícil quando, lembra ele, as pessoas se apresentam mais individualistas e andam com os vidros dos carros fechados, por medo de assaltos, e, muitas vezes, escurecidos. “Fica difícil ver quem está dentro do carro, se é uma mãe com crianças, se é uma pessoa idosa”, diz. Mas pequenas mudanças na rotina já trariam alguns impactos. “As pessoas precisam sair com mais tempo para seus compromissos e deixar de se incomodar em ceder passagem para um único ônibus, pois ali viajam 50 pessoas”, diz Lopes.

 

 
 

 

Basicamente, ser mais gentil no trânsito é lembrar que todos nós dividimos um mesmo espaço, as ruas e avenidas da nossa cidade, e que atos gentis podem tornar as jornadas mais leves. Teixeira lembra que a BHTrans tem feito continuamente diversas campanhas com focos nos pedestres, nas infrações ou no respeito aos direitos de idosos e deficientes físicos, entre outras.

 

Para mudar o quadro, além de refletir sobre nosso papel no salve-se quem puder em que o trânsito se tornou, o psicólogo Fábio de Cristo lembra que cabe a nós, motoristas de hoje, ajudar a formar a cultura da solidariedade no trânsito de amanhã. “Os pais são os primeiros instrutores de trânsito. O que as escolas e autoescolas devem fazer é dar continuidade a essa tarefa”, indica. O esforço é de lembrar que por trás das poderosas máquinas sobre quatro rodas estão pessoas, com suas histórias, seus problemas, suas limitações, suas urgências. E que a gentileza pode provocar um círculo vicioso, levando um sopro de bem-estar pelas ruas da cidade, enquanto dirigimos rumo aos nossos destinos.





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