A diva eterna

por José João Ribeiro 07/07/2011 14:37

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No circuito das artes, os rótulos são recorrentes. Servem, sobretudo, para auxiliar na consolidação de tendências e carreiras. Tipo assumidamente mais pop e imediato, o cinema não existiria, da forma como o conhecemos, sem o uso (e abuso) dessas espécies de nomenclaturas. Sem dúvida, corre-se um grande perigo com a consequente criação de estereótipos danosos. Porém, são incalculáveis os ganhos quando um profissional consegue se distinguir e se superar numa escala notória.

 

Pouquíssimas atrizes, por exemplo, conciliam perfeitamente, através de décadas e décadas, a beleza exuberante e o talento crescente. Logo, delegamos, nesses casos, um honroso e nobre título de “diva”. Uma das expressões máximas da cultura francesa, Catherine Deneuve é diva por mérito e excelência. Nenhuma outra atriz atravessou tantas gerações, com sua beleza digna e imemorial, sempre se reinventando e sendo, constantemente, requisitada por diretores, sejam eles estreantes ou consagrados.

 

Em Potiche: Esposa Troféu, do versátil diretor François Ozon, Catherine é adorada e escancaradamente homenageada. O longa-metragem, principal atração do recente e concorrido Festival Varilux de Cinema Francês, serve e foi inteiramente desenhado para que sua protagonista brilhasse intensamente. Mas a comédia de vaudeville francesa vai muito além dessa pretensão, arrancando generosas gargalhadas, seja por sua qualidade valorosa, seja pelo árduo e esmerado capricho na reconstituição fiel de cenários e dos últimos anos da década de 1970.

 

Catherine Deneuve em cena de Potiche: Esposa Troféu, de François Ozon
 

 

A dona de casa Suzanne Pujol (Catherine Deneuve), maltratada e ignorada por um marido crápula (Fabrice Luchini), reconhece ser um potiche, espécie de troféu ou bibelô de luxo que se mantém dentro de casa e que nunca compromete,nem questiona as ardilosas aventuras do cônjuge. Deliciosamente alienada, Madame Pujol é obrigada a reavaliar todo o seu cotidiano e seus valores, quando o marido é forçado a se afastar do comando da fábrica de guarda-chuvas da família. Como nova diretora geral, Madame Pujol terá de arbitrar um explosivo conflito com os operários descontentes, além de manter, a contragosto, um estreito contato com um antigo (e conhecido) líder político de esquerda (Gérard Depardieu). Tantas mudanças acabam desmascarando a “verdadeira” Suzanne.

 

Em resumo, a personagem de Catherine domina e cresce durante todo o roteiro de Potiche, inspirado em uma clássica e popular história do teatro francês. O diretor François Ozon, um dos mais produtivos da França, não disfarça seu encantamento por Catherine. Seu primeiro grande sucesso mundial, 8 Mulheres, também tinha o nome iluminado da atriz no topo dos créditos. Em Potiche, Ozon percorre quase toda a carreira da estrela, proporcionando referências e pinceladas nos seus grandes saltos em obras-primas da sétima arte.

 

É perfeitamente prático garantir que sem Catherine Deneuve, Potiche não existiria. Estão presentes, por exemplo, as digitais de Buñuel em A Bela da Tarde; de Jacques Demy em Os Guarda-Chuvas do Amor; e de Polanski em Repulsa do Sexo. Apesar de se apoiar totalmente em sua protagonista, Potiche é uma comédia muito bem realizada. O tempo das cenas, imprescindível para o humor, transcorre com perfeição, a partir de cortes precisos e certeiros. Todo seu elenco colabora generosamente para tanto êxito. Fabrice Luchini, um dos maiores atores da atualidade na França, simplesmente arrasa nos duelos cáusticos travados com Deneuve. Já o papel de Gérard Depardieu exige do ator um giro drástico para a conclusão justa da trama. Esforço que o conhecido intérprete pratica com plena satisfação. Ir além desses detalhes prejudicaria a surpresa de um final apoteótico, com a câmera hipnotizada no enquadramento admirável do rosto de Catherine.

 

Em recente passagem pelo Brasil para divulgar o filme, a grande inspiração e musa do gênio Yves Saint Laurent provou que continua linda, apesar dos seus bem vividos 68 anos de idade. Catherine Deneuve, com seus traços frios (no melhor sentido) e imponentes, merece ainda muitos e muitos roteiros, exclusivamente pensados para ela. Seu trabalho e seu talento, se algum dia, foram questionados por parte da crítica mais preconceituosa, hoje pairam tranquilos e serenos na certeza da mais concreta qualidade.

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