"É preciso melhorar a formação do professor"

por João Pombo Barile 07/07/2011 14:50

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Eny Miranda
None (foto: Eny Miranda)

O escritor mineiro de Formiga Silviano Santiago acaba de assinar contrato com a Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Ele vai lecionar durante um semestre, como Visiting Full, no ano letivo de 2011/2012. As aulas começam em setembro e serão dois cursos: um de graduação e outro de pós-graduação.

 

Professor aposentado de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense e há uma década longe da sala de aula, Silviano, de 74 anos, ajudou a formar alguns dos nomes mais importantes da atual crítica literária brasileira.

 

Vivendo no Rio de Janeiro desde os anos 1970, Silviano, é graduado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais, doutor pela Universidade de Paris – Sorbonne. Já lecionou em universidades de renome, como Yale, Stanford, Texas e Indiana, nos EUA, e Toronto, no Canadá. Ele fala a Encontro sobre o professor no Brasil, os cursos nos EUA, a literatura brasileira, a polêmica sobre a obra de Monteiro Lobato e a paixão pelo cinema.

 

1) ENCONTRO – Nos últimos anos, o Brasil passou a desempenhar importante papel no cenário eco-nômico mundial. Essa mudança teve algum re-flexo na universidade dos EUA? Os norte-americanos se interessam mais pelo Brasil?

SILVIANO SANTIAGO – Sem dúvida. A história dos estudos brasileiros nas universidades norte-americanas passa por três fases. A primeira tem lugar no início dos anos 1960, logo depois que os soviéticos retomam o controle universal do saber (Sputnik, outubro de 1957). Os vizinhos do norte descobrem as burras cheias de ouro e o atraso científico e cultural (como o Brasil nestes anos de pré-sal). Dão-se conta. É assinado em Washington o National Defense Education Act (NDEA). Por ele, o governo federal injetaria, em 1959, US$ 183 milhões nas universidades e, em 1960, US$ 222 milhões. A América Latina tem sua vez. A segunda fase acontece após a implantação da ditadura militar no Brasil. Os brasilianistas passam a desempenhar papel inédito. Conscientizam o povo e a mídia norte-americana sobre o descalabro político brasileiro. O terceiro é recente e advém do interesse pelo papel econômico e político desempenhado pela nação nos planos regional (Mercosul) e internacional (ONU, OEA, Grupo dos 20 etc.).

 

2) ENCONTRO – Quais são os assuntos dominantes dos dois cursos que o senhor vai ministrar nos EUA?

SILVIANO SANTIAGO – Na graduação, pretendo ensinar a literatura brasileira no contexto amplo das literaturas de expressão portuguesa. Interessa-me falar da complexidade literária que a língua portuguesa adquiriu por ter sido colonizadora, nacionalizada, e se tornado, no caso africano, pós-colonial. Na pós-graduação, pretendo questionar a dominância (grifo) da estética terceiro-
mundista na descrição das artes brasileiras. Retomar uma vertente cosmopolita do agir e do pensar brasileiros. A semente está no meu livro O Cosmopolitismo do Pobre, publicado pela Editora da UFMG.

 

3) ENCONTRO – O que acha da Academia Brasi-leira de Letras? O senhor pensa, algum dia, em entrar para a ABL?

SILVIANO SANTIAGO – A Academia Brasileira de Letras é semelhante a um clube inglês, como, aliás, o são as várias academias de letras. Em clube inglês, a gente não pensa em entrar. O escritor é acolhido, ou não, pelos sócios permanentes do quadro.

 

4) ENCONTRO – O senhor uma vez escreveu: “No nosso país, a literatura sempre foi prato secundá-rio no banquete das artes. Um velho exemplo: Machado de Assis é mais falado do que lido. Um novo exemplo: Paulo Coelho é mais lido do fa-lado. Quem é lido não alimenta a literatura; quem é principalmente falado também não a alimenta”. Por que isto aconteceu no Brasil?

SILVIANO SANTIAGO – Curto e grosso: o analfabetismo, o descaso educacional pelas coisas da cultura e também das ciências e (não me joguem pedra, sou apenas primo da Geni), certo sentimentalismo ingênuo prevalente na formação ética e intelectual do brasileiro. Se não se faz literatura com bons sentimentos é para que o leitor seja reflexivo.

 

5) ENCONTRO – Na sua visão, qual é hoje o país onde a literatura é mais vigorosa? Ela existe?

SILVIANO SANTIAGO – Depende da perspectiva. Por ter público cativo, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos (haja vista a alta qualidade e a frequência das revistas e dos suplementos naqueles países). Pela pesquisa estética, países latinos como a França e a Espanha. Como manifestação política, as jovens nações que chegaram ao pós-colonialismo a partir de meados do século XX.

 

6) ENCONTRO – Recentemente a obra de Mon-teiro Lobato foi acusada de racista. E o Ministério da Educação levantou até a possibilidade de se fazer uma edição da obra de Lobato com notas de rodapé contextualizando o texto. O que pensa dessa ideia?

SILVIANO SANTIAGO – Para o leitor comum, nada a fazer com as edições de Lobato. Que ele se torne sensível e inteligente no contato com os livros. Para o leitor criança, ainda em formação, alguns cuidados não devem ser desprezados (veja, por exemplo, o papel dos Classiques Larousse no ensino francês). A melhor idéia é a de mais fácil aplicação: melhorar a qualidade da formação do professor e sua remuneração.

 

7) ENCONTRO – Qual a sua avaliação da vida lite-rária brasileira hoje? Nossa crítica literária e  nossa literatura são melhores ou piores do que nos anos 1960?

SILVIANO SANTIAGO – Em termos de crítica literária, não há como comparar. Saímos da idade da pedra (onde, é claro, havia figuras sensacionais que nos deixaram um legado rupestre de alto nível) e entramos na idade do trabalho. Hoje, o estudioso brasileiro pode ser um pesqui-
sador de renome internacional. Em termos de criação, não há também como comparar. Não vou comparar a contenção de Graciliano Ramos (anos 30) com o exuberante barroco mineiro de Autran Dourado (década de 60). O romance regrediu? Avançou? Mudou.

 

8) ENCONTRO – Falemos de outra paixão sua: o cinema. O senhor tem gostado do que o cinema brasileiro tem produzido nos últimos anos?

SILVIANO SANTIAGO – Pouco e muito. Muito, porque noto que a produção de filmes (curtas e longas) é retomada pelo jovem com gosto, prazer e sensibilidade. Pouco, porque faltam ao cinema brasileiro os rudimentos da boa dramaturgia. Falta-lhe o básico, o quente com veneno. Os piores leitores de prosa, poesia e ensaio no Brasil são os carinhas que escrevem roteiros ou dirigem filmes. Como são preguiçosos em termos de leitura!

 

9) ENCONTRO – Como o senhor vê o atual mo-mento da literatura brasileira?

SILVIANO SANTIAGO – Bons e musculosos ventos a sopram. Os da bonança econômica do país e os do ressurgimento da força jovem na orientação dos passos futuros da nação e da arte.

 

10) ENCONTRO – O senhor é otimista sobre o fu-turo do país? Estamos no caminho certo?

SILVIANO SANTIAGO – Por apego à crítica, o otimista me parece um bobo-alegre disposto a soltar foguete ao menor estalido de glória. Por disposição latino-americana, acredito na possibilidade de melhoria dos cidadãos, dos povos e das nações. No meu firmamento, a esperança é estrela um tanto pálida, mas é estrela-guia. “Quem vem dos Gerais, é alegria adiante, tristeza atrás”. Reconhece a frase, não?

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