A ética nossa de cada dia

por Patrus Ananias 10/08/2011 10:53

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A palavra ética entrou na moda. Infelizmente, muito mais falada do que vivida. E quase sempre nós a cobramos nos outros, reservando pouco espaço para a reflexão sobre os nossos atos e responsabilidades.

 

É sempre bom buscar o sentido das palavras nas suas raízes históricas. Ética vem do termo grego éthikos, donde veio etos, que originariamente significava covil ou lugar onde os animais se resguardavam e se protegiam das perseguições ou dos percalços da natureza. Posteriormente, a palavra passou a designar a morada cultural dos seres humanos. Ela, então, diz respeito aos instrumentos desenvolvidos ao longo do tempo pelas comunidades humanas para possibilitar a convivência e cooperação; são usos, práticas e procedimentos compartilhados, costumes, interdições, manifestações religiosas. Assim, as sociedades vão estabelecendo os valores fundamentais nas suas relações internas e externas.

 

Nas tradições religiosas, os valores éticos emergem a partir de revelações e manifestações transcendentais. Outros buscam as origens da ética na história humana, onde se dá o aprendizado e a construção de determinados padrões de comportamentos individuais e coletivos. As duas concepções podem ser harmonizadas de modo que não se tenha, de um lado, concepções religiosas desencarnadas e alheias aos conflitos humanos e sociais e, de outro, uma compreensão relativista da história onde cada um decide o que é certo ou errado segundo as suas conveniências.

 

Os valores éticos vão se consolidando através dos tempos, na medida em que são acolhidos por diferentes povos e gerações como valores permanentes e universais. Como, por exemplo, o direito à vida. Nessas conquistas culturais e civilizatórias que vão se sedimentando na caminhada histórica de povos e nações, e da própria humanidade, contamos com o empenho de exemplos de personalidades muito fortes e inovadoras. Foi assim com o exemplo de Jesus, a destacar o princípio do amor ao próximo como fundamento da sociedade cristã, e Gandhi, com a ética da não violência.

 

No Brasil, temos muitos exemplos que fundam princípios éticos que mudaram nossa forma de pensar o país. Podemos citar o marechal Rondon, lançando um novo olhar e uma nova política sobre os povos indígenas. A Herbert de Souza, nosso Betinho, devemos a valiosa conquista de ter pautado, definitivamente, o desafio da superação da fome e da miséria. Dom Hélder Câmara é o símbolo de um movimento que resgata a dimensão libertária de Jesus a partir do compromisso com os pobres.

 

Falamos hoje, com mais frequência, na ética, ou falta dela, na ação dos políticos. É fundamental mesmo o combate sem tréguas à corrupção e ao mau uso do dinheiro e dos bens públicos. Mas são importantes também a ética dos eleitores, a responsabilidade social, a responsabilidade política na hora de votar e mesmo depois, o exercício cotidiano dos direitos e deveres da cidadania. Impõe-se também a ética nos negócios e nas empresas. O que seria deles sem os trabalhadores, os consumidores, os financiamentos e obras estatais de infraestrutura?
Vivemos cada vez mais próximos uns dos outros nos centros urbanos. Mas ainda precisamos estabelecer a ética da boa vizinhança, da atenção e do cuidado com os mais próximos. Da mesma forma, o trânsito clama por novos padrões de comportamento; a escassez e a finitude dos recursos naturais evoca a ética de pensar a existência da espécie humana em harmonia com a natureza.

 

E tudo isso depende de cada um. Somos mais de 6 bilhões de pessoas no planeta; no Brasil, caminhamos para 200 milhões de compatriotas. Muita gente pensa que suas ações não fazem diferença. Mas é com a soma de cada um que conseguiremos as mudanças coletivas. Há um dever das pessoas e da sociedade que torna cada vez mais verdadeiro o ensinamento de Gandhi: “Façamos em nós as mudanças que cobramos nos outros”.

 

 

* Patrus Ananias é advogado, professor e pesquisador. Foi prefeito de BH e ministro do Desenvolvimento Social. Escreve mensalmente na Encontro

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