Socorro! A vaga sumiu

por Tereza Rodrigues 11/08/2011 12:23

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Emmanuel Pinheiro e Eugênio Gurgel
Segunda a sexta, Gilberto Pereira deixa o carro perto do Mercado Central: meia hora para achar vaga (foto: Emmanuel Pinheiro e Eugênio Gurgel)

Funcionário de uma grande empresa, o motorista Gilberto Pereira precisa ir ao hipercentro de Belo Horizonte de segunda a sexta-feira. Deixa o carro pelo menos duas horas em um estacionamento perto do Mercado Central. Faz parte de sua rotina voltar ao escritório, ao fim do expediente, com um recibo de R$ 16 pagos em um estacionamento privado. Apesar de achar o serviço caro, não é o preço o que mais o incomoda: “Tem dias que eu fico mais de meia hora procurando vaga. Na rua eu nem tento mais, já me acostumei a preferir resolver logo. Mas acho revoltante é quando nem pagando caro a gente consegue estacionar para trabalhar. Fica complicado, principalmente quando o fim de semana está chegando ou se é véspera de feriado”, conta.

 

O dilema, no entanto, não é vivido exclusivamente por ele ou por motoristas que diariamente precisam parar próximo ao Mercado Central. Pesquisa realizada pelo site Mercado Mineiro no último mês mostra que a demanda por vagas em praticamente toda a região localizada dentro da avenida do Contorno é maior que a oferta. Com isso, além de perder tempo se deparando com placas de “lotado” nas entradas dos estacionamentos – como frequentemente acontece com Gilberto –, os motoristas que transitam pela região central da cidade enfrentam outros problemas, como serviços mal prestados e cobranças de taxas consideradas abusivas, com variações que chegam a 400% pela fração de 15 minutos.

 

Para ter segurança, a servidora pública Maria Regiane prefere pagar
estacionamento a deixar o carro na rua. Mas reclama do preço: "Outro dia
deixei meu filho no hospital e paguei R$ 36  para estacionar"
 

 

O Índice de Preços ao Consumidor IPC-S, medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que de julho de 2010 para julho de 2011, a inflação desse serviço teve aumento de 16,62% em Belo Horizonte. O economista da FGV André Braz explica que a pesquisa analisou gastos com vagas em shoppings, supermercados, ruas e prédios comerciais. “Estes aumentos refletem uma demanda mais aquecida. Expandir vagas na velocidade de crescimento da frota não é fácil. O resultado se vê na pesquisa, ou seja, o serviço está mais caro”, comenta. Para se ter uma ideia, a inflação anual da capital mineira ficou em 7,26% no mesmo período. Ou seja, os preços de estacionamento subiram mais do que o dobro dos preços em geral.

 

 

 

De acordo com Feliciano Abreu, diretor do site Mercado Mineiro e coordenador da pesquisa, faltam vagas e, como acontece em outras metrópoles, em quarteirões onde há maior procura, o preço regula a oferta do serviço. Próximo à rodoviária, onde a rotatividade é alta, é possível estacionar 15 minutos por 1 real. “Às vezes dá para andar um pouco a pé, parar mais longe e pagar menos. É só pesquisar”, diz. Em compensação, não muito longe dali, na rua Levindo Lopes, no bairro de Lourdes, esse mesmo período de tempo chega a custar R$ 5. “Compensa dar uma checada nos preços e na disponibilidade de estabelecimentos antes de sair de casa. Se for para ficar mais de 2h no centro, vale a pena ir de táxi ou até de ônibus. Pode parecer menos confortável, mas tem que pesar o transtorno que é ficar procurando vaga, se estressando com o trânsito. Na ponta do lápis deve entrar, no mínimo, o gasto com estacionamento e combustível. O ideal é criar o hábito de fazer essa conta”, explica Feliciano Abreu.

 

A pesquisa mostra que a variação de preços é maior na cobrança pela fração, que, no caso de BH, é medida de 15 em 15 minutos. De acordo com o economista, muitos donos de estabelecimentos nem chegam a oferecer vagas para diaristas ou mensalistas. “Se eu fico 16 minutos, pago por meia hora; chega a ser abusivo, porque para eles é vantajoso deixar a vaga livre para esse cliente passante. Mas acredito que, se mudar a regra e a cobrança for por minuto, o quadro de oferta pode ser diferente e os preços tendem a melhorar”, comenta.

 

Marcílio Magalhães, administrador de empresa: “Na área hospitalar,
o trânsito é complicado e estacionar o carro é muito difícil”
 

 

À frente do Estacionamento Chuí, na avenida Oiapoque, a empresária Ana Carolina Costa confirma que não compensa trabalhar com mensalistas: “Quem precisa deixar o carro o dia todo aqui no hipercentro sabe o quanto é difícil conseguir vaga. Eu nem recebo mensalista mais. Até cobro R$ 30 a diária, mas prefiro o cliente que vem, paga R$ 6 por 1h, e dá lugar para outro. É o mais rentável”. Ela conta ainda que quase toda tarde precisa fechar o portão por determinados períodos, e aos sábados a placa de “lotado” fica do lado fora do estacionamento praticamente o dia todo.

 

O comerciante Etiene Silveira de Amorim circula pela região central de BH todos os dias. Depois de ser multado duas vezes por demorar mais que o tempo previsto com o carro parado na Faixa Azul (ruas com trechos de estacionamento rotativo, controlados pela Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte, a BHTrans), ele resolveu que é melhor parar em estacionamentos privados. “Gasto de R$ 300 a R$ 400 por mês para deixar o carro perto de onde eu tenho que entregar ou pegar mercadoria. Acho que poderia ser mais barato, porque sempre fico pouco tempo em cada lugar, mas para mim é uma tranquilidade não correr o risco de ser rebocado de novo”, diz.

 

 

 

Enquanto muitos urbanistas defendem que, ao invés de mais vagas, sejam criadas formas de evitar que as pessoas queiram ir ao centro de carro (como o aprimoramento do transporte público e mesmo mais aumento no preço dos estacionamentos), o engenheiro civil especializado em trânsito Eduardo Coelho defende uma política de controle de tráfego menos restritiva. Segundo ele, é possível melhorar o trânsito evitando que o centro seja um lugar de passagem, rota de tantas linhas de ônibus, por exemplo; mas é contraditório não oferecer vagas onde se tem comércio – o que, segundo ele, confirma a expressão norte-americana no parking, no business (se não há estacionamento, não há negócio). “Alguns serviços são oferecidos somente no centro, não dá para impedir que o movimento vá para lá. O que é preciso é saber lidar e organizar isto. Como o poder público incentiva a compra de veículos e depois vai querer impedir o cidadão de ir com ele para a rua?”.

 

Ainda segundo o consultor, o serviço de estacionamento em BH não é caro, principalmente se for analisado o “amadorismo” com que é realizado. “Em São Paulo é mais caro, mas geralmente são grandes redes; o motorista pode confiar que não vai ter problema. Aqui não dá para ficar despreocupado”, relata.

 

Dona de estacionamento, Ana Carolina Costa deixou
de trabalhar com mensalistas: “Prefiro o cliente
que vem, paga  R$ 6 a hora e dá lugar para outro”
 

 

A servidora pública Maria Regiane Megale diz que fica mais tranquila ao deixar o carro em estacionamento fechado, longe da possibilidade de ter seu carro batido por um motorista que sai sem dar satisfação, como ela não raras vezes vê nas ruas. “Prefiro pagar e deixar num lugar seguro”. Uma vez, ela foi levar ao filho ao hospital e teve de pagar R$ 36 pelo estacionamento. “Fui surpreendida e tive de usar cheque, pois na hora não tinha o dinheiro em espécie.”

 

O administrador de empresas Marcílio Dias Magalhães gastou R$ 3 por menos de 15 minutos em que seu carro ficou parado em frente ao hospital onde foi buscar a esposa. “Na área hospitalar o trânsito é difícil, estacionar é complicado, e transporte público digno não existe. Mas eu não acho caro. Acredito que poderia ser melhor, mas prefiro pagar e dar mais conforto para minha família”, complementa.

 

O comerciante Etiene Silveira Amorim gasta
mensalmente de  R$ 300 a R$ 400  para estacionar
por poucas horas em diferentes pontos do centro de BH
 

 

Se é unânime que o serviço de estacionamento precisa melhorar em BH, para discutir se o preço poderia ser menor ou não, é preciso ouvir também o outro lado. O presidente Sindicato das Empresas de Administração e Operação de Estacionamentos, Garagens, Vallet Park e Similares do Estado de Minas Gerais (Sindepark-MG), Armando Couri, diz que os valores estão abaixo das margens de vários outros tipos negócios relacionados à prestação de serviços. Segundo ele, não existe um estudo específico sobre o ticket médio gasto na região central da capital mineira em comparação com outras capitais. “No entanto, existe uma certeza de que os preços praticados aqui são menores do que aqueles cobrados nas garagens particulares de outras capitais do país, como Rio e São Paulo”, explica.

 

 

 

Couri exemplifica que nos estacionamentos localizados na região central da capital paulista são cobrados, em média, R$ 20 pela primeira hora de permanência. “Já nos estacionamentos do centro do Rio o valor da diária chega a R$ 48, como ocorre no edifício-garagem Menezes Cortes”. De acordo com o presidente do Sindepark-MG, a forte especulação imobiliária tem influenciado nos preços, mas a margem de lucro geralmente fica na casa dos 10%. Como principais problemas para quem investe no setor, ele destaca o aumento dos aluguéis e a diminuição dos espaços físicos destinados a estacionamentos.

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