Será essa a solução?

por Fábio Doyle e Pedro Procópio 18/08/2011 09:32

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Eugênio Gurgel e Maíra Vieira
Cláudio Hermanny comprou sua primeira scooter há 15 anos. (foto: Eugênio Gurgel e Maíra Vieira)

Diante do caos urbanos, a mobilidade nas grandes cidades é um desafio de toda a população. O uso de carros, teoricamente, a forma mais confortável de locomoção, torna-se cada vez mais insuportável. O transporte público em Belo Horizonte é precário, desconfortável e ainda mais estressante. O que fazer?

 

É segunda-feira, poucos minutos depois das 20h, horário especialmente escolhido para deixar o trabalho e finalmente chegar em casa sem ter contato com qualquer resquício dos veículos que se embolam pelas ruas e avenidas de Belo Horizonte na malfadada hora do rush. Sem entender o aglomerado de carros que entopem o caminho de praxe àquela hora da noite e já livre da Voz do Brasil, a solução é sintonizar uma estação de notícias no rádio do carro. A explicação não demora. Uma série de acidentes em diferentes pontos da cidade foi responsável por tamanho estrago, maculando o retorno tranquilo dos motoristas que, para o bem de sua saúde mental, preferem chegar mais tarde em casa para se desencontrar da massa.

 

Trancado entre o canteiro central e os demais veículos, o motorista só pode observar (com inveja oculta) as motocicletas, costurando seu caminho entre as faixas, avançarem no corredor formado pelos carros parados. Mas entre as tradicionais CG 125 com guidão serrado (para facilitar a passagem entre os carros), guiadas por motoboys de capacete rosa, também passava uma ou outra motocicleta sendo conduzida de forma menos agressiva, com motociclistas em trajes sociais, inclusive mulheres. O estranhamento é instantâneo, já que o costume é ver tais figuras dentro de automóveis.

 

Flávio Monteiro, que trocou o carro pela moto: “Estou economizando dinheiro, mas valorizo mais o ganho em tempo e agilidade”

 

 

Almoço em casa

 

Esse perfil de motociclista não é novo, mas é um dos que mais cresce com a adesão de pessoas que deixaram o carro na garagem e adotaram as motocicletas para driblar o trânsito caótico e ganhar em mobilidade.

 

Em fevereiro, o advogado Felipe Pereira Libório adquiriu uma Honda Lead “para abandonar de vez o carro na garagem”. Seu desejo era almoçar em casa, que fica a três quilômetros do trabalho, com sua família. Apesar da curta distância, apenas para chegar em casa de carro gastava de 20 a 30 minutos, sendo que 10 apenas para sair do estacionamento do escritório, com acesso apertado e muito movimentado. “Agora com a moto chego em casa em não mais que 10 minutos, vou com tranquilidade e sem costurar no trânsito”, afirma.

 

O advogado conta que, com a motocicleta, não se sente menos seguro que no carro. “Para isso você precisa adotar uma série de posturas que te diferenciem da maioria dos motociclistas. Para começar, eu ando dentro da faixa e só pego o corredor quando o sinal fecha. Mesmo assim, se o corredor é estreito, eu nem entro”, explica. Como usuário de carro, também aprendeu que é importante se diferenciar visualmente. Por isso, até a escolha da cor foi pensada: “Queria amarela, não tinha; então escolhi vermelha”. Mas Felipe mantém seu carro para usar com a família nos fins de semana, ou para trabalhar nos dias de chuva.

 

Despesas reduzidas

 

O bancário Daniel Saddi é um dos mais novos adeptos das duas rodas. Mas sua história começou quando usava o transporte público. “Minha rotina era ir de metrô até o trabalho, depois metrô de novo até a faculdade, e voltava para casa de ônibus. Além de desconfortável, precisava andar muito até as estações de metrô”, recorda Daniel. Esse sofrimento durou até que o bancário fosse contemplado com a carta de crédito do consórcio, usada para comprar um Citroën C3. Apesar do maior conforto, o uso frequente do carro trouxe novos problemas.

 

Para começar, a diária do estacionamento perto do trabalho era de R$ 15. Quando encontrava uma vaga na rua pagava o estacionamento rotativo “mais a gorjeta do flanelinha”, conta. Daniel calcula que o gasto mensal com estacionamento e combustível era de R$ 450, fora as taxas, impostos e o próprio desgaste do veículo. Posto isso na ponta do lápis, o bancário comprou uma Honda Lead. “Com a moto eu estaciono na frente do trabalho e na faculdade sem pagar nada. Enquanto o carro tinha consumo de 10 km/l, a moto roda 40 km/l. O que estou economizando dá para pagar as prestações da moto. O carro continua na garagem e é usado nos finais de semana. “Estou economizando, mas reconheço o conforto e a segurança do carro, principalmente nesses dias frios”, pondera.

 

Depois que comprou sua scooter Lead, Felipe Libório passou a almoçar em casa com a família: “Agora chego em casa em não mais que 10 minutos, vou com tranquilidade e sem costurar no trânsito”  

 

 

Vantagens da scooter

 

Estudante de administração, Flávio Monteiro garante que sua vida ficou mais prática depois que trocou o uso rotineiro do carro pela motocicleta. “Estou economizando dinheiro, mas valorizo mais o ganho em tempo e agilidade”, avalia Flávio, calculando que ganhou mais uma hora em seu dia se deslocando sobre duas rodas. Gerente comercial de uma loja de motos, Flávio pode justificar bem a opção por uma scooter, também uma Honda Lead. “Por ter o assoalho plano, esse tipo de motocicleta proporciona uma boa posição para pilotagem. Esse modelo tem um ótimo bagageiro sob o banco que comporta até dois capacetes”, comenta. Além de elogiar o bagageiro, Daniel Saddi considera as scooters fáceis de serem pilotadas por quem não tem muita experiência com moto, já que o modelo escolhido por ele possui câmbio automático.

 

“Queria uma moto automática para não estragar o sapato ao trocar as marchas. Como eu só a utilizo para trajetos curtos, não precisava ser muito potente, nem cara”, justifica o advogado Felipe Pereira Libório. Para ele, a scooter, assim como uma custom, também serve para diferenciá-lo dos outros motociclistas.

 

Aficionado

 

O que começou como uma experiência despretensiosa, com modelos chineses de pequena cilindrada, se transformou em paixão. O empresário Cláudio Hermanny comprou sua primeira scooter há 15 anos e nunca mais teve outro tipo de moto. Desde então troca de modelo regularmente. As mais recentes foram Suzuki AZ, Sundown Future (a primeira com motor de 4 tempos), Suzuki Burgman 125 e 400. “Moro no bairro Santo Antônio, que é um tanto acidentado. Lembro de algumas que mal conseguiam subir a rua. Com garupa, então...”, conta. As duas Burgman ainda moram na garagem do empresário, mas um sonho prestes a se realizar é estacionar ali uma Burgman 650.

 

Cláudio usa a motocicleta para trabalhar diariamente e até para viagens. Carro, só nos fins de semana. “Eu ando de moto desde os 11 anos de idade e já quebrei alguns ossos. Depois que comecei a usar a scooter, nunca mais me acidentei”, garante o empresário. Ele lista o que gosta desses modelos: “Acho mais seguro, os outros te respeitam mais. As pernas e joelhos ficam menos expostos, ela te protege mais na chuva, tem o bagageiro para guardar o capacete, não tem que trocar marcha, tem baixo consumo de combustível e é ágil. Essa moto (Burgman 400) me dá muita segurança, responde rápido e freia bem”.

 

De acordo com a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), de 2009 a 2010 o mercado brasileiro de motocicletas cresceu 12% (de 1.609.180 para 1.803.864 emplacamentos). Já para as scooters o crescimento foi maior: 20%, saltando de 286.520 para 344.308 unidades. A líder do segmento é a Honda Biz, responsável por 54,96% das vendas em 2010. O volume impressiona, mas já demonstra uma queda na participação, já que em 2009 o modelo respondia por 59,25% das vendas.

 

Daniel Saddi economiza até no estacionamento: “Com a moto eu estaciono na frente do trabalho e na faculdade sem pagar nada”

 

 

 

Quando a solução se transforma em problema

 

 

A opção por motos como solução de mobilidade pode ser interessante em um primeiro momento, mas a tendência é se tornar mais um monstro. O crescimento exponencial do volume de motocicletas nas grandes cidades é proporcional ao de acidentes e mortes envolvendo esses veículos de duas rodas.

 

Que é preciso encontrar uma solução para o crescimento exponencial de acidentes envolvendo motocicletas no trânsito urbano, ninguém discute. A questão está na natureza da solução. A mais recente tentativa é um projeto de lei apresentado pelo deputado federal Newton Lima (PT-SP), que prevê a criação de faixa exclusiva para circulação de motos.

 

A matéria proposta pelo parlamentar petista também defende a proibição do tráfego de motos e demais veículos ciclomotores entre veículos de faixas adjacentes ou entre a calçada e a pista a ela contígua. Entre os especialistas da área, muitos não consideram que essa seja a solução, entre eles o presidente da BH Trans, Ramon Cesar.

 

Outros são favoráveis a medidas mais drásticas, como o fim dos incentivos para a compra de motocicletas no país, criação de taxas extras como forma de reduzir a procura, e até medidas autoritárias como a proibição da circulação de motos movidas a gasolina em centros urbanos, como ocorreu nas cidades chinesas de Beijing, Shangai e Guangzhou, em 2007. Isso porque motocicletas convencionais de pequeno porte movidas a gasolina normalmente poluem mais do que o dobro de um automóvel. Os chineses sofreram com a medida, mas logo encontraram a solução. Trocaram suas motos a gasolina por pequenas motos e scooters elétricas, que circulam de maneira silenciosa e segura, a velocidades de 30 a 40 km/h.

 

Em 2010, as mortes de motociclistas aumentaram no Brasil 11,7% em relação ao ano anterior, enquanto o aumento da frota ficou em torno de 7,2%. Na capital paulista, levantamento da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET) mostra que 478 motoqueiros perderam suas vidas no ano passado.

 

Entre os anos de 1998 e 2008 houve no Brasil um crescimento de 753% no número de motociclistas acidentados, e o total de vítimas fatais subiu 23,9%. A engenharia de trânsito das cidades de médio e grande porte tem enfrentado o grande desafio de conciliar, com segurança e agilidade, a convivência de carros e motos.

 

Em Belo Horizonte, segundo dados da BHTrans, a frota de motocicletas aumentou 97,42% entre 2004 e 2009, passando de 75.495 para 149.046. O número de acidentes fatais envolvendo motos aumentou 105,45% (de 55 para 113) e o de vítimas fatais motociclistas cresceu 72,09% (de 43 para 74). Este último índice não inclui os óbitos de acidentados levados com vida para o hospital.

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