Sobre corações de avós e netos

por Patrus Ananias 15/09/2011 10:18

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Não sei se existe o dia do avô, ou o dia da avó, ou dos avós. Se não existe, espero que não seja criado. Se existe, que continue discreto, sem ceder às tentações da propaganda e do consumo. Porque é próprio dos avós a discrição. O amor maduro dispensa as festas e as declarações que, com muita frequência, se tornam formais. Nós, avós, não disputamos o primeiro lugar; sabemos que ele pertence aos pais. Aceitamos de bom grado o papel supletivo. Mas desconheço suplência mais pronta, mais dedicada, mais disponível, mais alegre para assumir junto ao neto, à neta, aos netos, o lugar do acolhimento e do afeto sem apegar-se a ele.

 

Sabemos que o lugar dos avós pode ser passageiro, na dimensão da presença; mas é permanente nos recantos do coração dilatado. Os filhos abrem, os netos desdobram. Por isso os avós, quando é chegada a hora, entram felizes em campo para fazer, com o entusiasmo do bom garoto juvenil, as suas primeiras incursões no time titular. Sempre prontos! Aguardam a sua vez de curtir os netos com a mesma expectativa de um estudante de internato que espera a chegada das férias para voltar para casa.

 

É que os netos chegam tomando conta do coração da gente sem pedir licença. Tomam posse e vão expandindo o roçado, rompendo cercas, desbravando territórios até então desconhecidos de nós mesmos. Territórios proibidos, interditados, reprimidos? Eles desconhecem os sinais e vão em frente.

 

O escritor francês Leon Bloy dizia que o sofrimento desperta porções não sabidas do coração. Com os netos, esse caminho é desnecessário. Eles fazem melhor e com prazer. Porções despertadas pela alegria e leveza da infância.

 

Dizem que os pais educam e os avós deseducam. Será? Penso que não, pelo menos para muitos avós que sabem que é preciso desenvolver nas crianças valores e procedimentos éticos e comunitários, que os limites são fundamentais para que as pessoas, desde a infância, possam bem exercer os direitos e os deveres da cidadania. Mas os avós também dão “muita corda”, como dava o esplêndido avô de Bartolomeu Campos de Queirós, imortalizado no belo Por parte de pai. É que os netos encontram os avós mais razoáveis, temperados pelo tempo – que ensina a relativizar e a compreender muita coisa além das aparências e dos lugares comuns de regras sociais gastas e envelhecidas. Curtem as boas novas que a meninada traz, inclusive na linguagem. Descobri por que Guimarães Rosa gostava tanto de conversar com as crianças.

 

Acalmados pela vida, não brigamos por pouca coisa. Evitamos usar o não. A palavra impossibilitadora só deve ser usada nas situações limite, e aí é para valer. No trivial da vida, mais vale o sim, que abre as portas dos sonhos, dos desejos, dos horizontes. O tempo nos ensina a paciência amorosa com os pequenos. E, sobretudo, nos ensina a aprender com eles. Ele nos repõe o espírito da infância. A criança vive o alumbramento diante do mundo. Tudo é novo. É sempre novo o sol que nasce a cada dia. Eles sabem, como o mestre sertanejo, que o mundo é mágico. Mas isso não significa que a infância seja uma fase desprovida de dores e angústias. “Doía muito ser menino. E dor, aumentada pelo silêncio, é como dente latejando com o nervo exposto”, diz Bartolomeu, com a sabedoria da vivência intensa e profunda dos seus tempos de criança. Com o passar dos anos, os avós se reapropriam da própria infância, o que possibilita um diálogo mais íntimo e profundo com os netos. Aprendemos a cuidar dos nervos expostos e das feridas dessa época inaugural da vida. Que beleza ser avô ou avó e redescobrir, no entardecer da vida, o encanto de um sorriso entregue, despojado!

 

Os netos nos repõem o compromisso com a vida e com as futuras gerações – os netos dos nossos netos.

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