Fábrica de invenções

por João Pombo Barile 16/09/2011 13:09

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Paulo Márcio, Rafael Motta, Márcio Jumpei
None (foto: Paulo Márcio, Rafael Motta, Márcio Jumpei)

Poucas vezes a máxima de que o mineiro trabalha em silêncio foi tão verdadeira. De maneira discreta, sem fazer alarde, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se transformou em um dos mais importantes centros de tecnologia do país. Uma trajetória de sucesso que se consolida com mais uma boa notícia: a instituição mineira ultrapassou a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em número de registros de patente.

 

Enquanto a federal mineira fez 61 pedidos em 2010, junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), na paulista foram 52 depósitos. Nove a mais. O número merece ser comemorado. Ele representa uma mudança significativa no paradigma da maior universidade do estado. Afinal de contas, a Unicamp é a grande referência nacional para produção tecnológica, tendo sido a maior possuidora de patentes no Brasil no período de 1999 a 2003.

 

“Na área de patentes, nossa universidade manteve, no ano passado, uma posição de destaque. Fechamos 2010 com 500 pedidos de patente, dos quais 362 correspondentes a patentes nacionais e 138 a patentes internacionais”, afirma o reitor da UFMG, Clélio Campolina. “Nossa intenção é seguir a mesma interação com o meio privado que marcou as universidades norte-americanas da região do Vale do Silício e que também foi seguida pela Unicamp, nos anos 1980, e pela USP (Universidade de São Paulo), mais recentemente”, explica.

 

 

 

E as boas notícias não param aí: além dos 61 pedidos de patente (um aumento considerável se comparado ao ano de 2009, quando foram depositados 45 pedidos) houve, no ano passado, um pedido de proteção de desenho industrial, oito pedidos de marca e um de software. Além disso, foram assinados quatro licenciamentos de tecnologia em 2010 que irão gerar royalties para a UFMG.

 

“Esse crescimento está relacionado à profissionalização do escritório responsável pelos depósitos de pedidos de patentes e transferência tecnológica. Temos hoje uma cultura de proteção do conhecimento desenvolvido dentro da universidade”, explica o diretor da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da UFMG, Ado Jorio de Vasconcelos. “Desde que passamos a valorizar os órgãos que fazem esse trabalho, não paramos de crescer. E espero que continue assim ao longo dos próximos anos”.

 

 

 

O crescimento do número de patentes da universidade mineira é a prova cabal que a sociedade brasileira, aos poucos, vai entendendo que uma nação só se torna bem sucedida economicamente se parar de ficar apenas exportando commodities. E investir pesado em ciência e tecnologia.

 

“Acho que agora acordamos”, conta o professor da Escola de Engenharia Marcos Pinotti, um dos grandes nomes nacionais quando o assunto é patente (vide box). “Parece que finalmente os brasileiros perceberam que o conhecimento pode gerar riqueza para o país”, analisa.
A opinião de Pinotti é compartilhada pelo professor Renato de Lima Santos. Pró-Reitor de Pesquisa da UFMG. Ele conta que só na última década, o Brasil se deu conta da necessidade de maiores investimentos em pesquisa de novas tecnologias.

 

 

 

“Perdemos muito tempo. Na década de 1980, o Brasil e a Coréia do Sul tinham praticamente o mesmo número de patentes registradas. Vinte anos depois, a situação era completamente diferente: o Brasil registrava, por ano, cerca de 500 patentes. Os sul-coreanos, quase 24 mil”, conta Renato, para depois explicar. “Mas nos últimos dez anos tomamos consciência da importância de criar novas patentes, e estamos correndo atrás do prejuízo”, afirma otimista.
Se o grande aumento no número de patentes da UFMG merece ser festejado, o Pró-Reitor de Pesquisa chama a atenção, no entanto, para a necessidade de o empresariado nacional investir em pesquisa.

 

“O predomínio, no Brasil, de investimentos que criam novas tecnologias é ainda majoritariamente público: dois terços de todas as nossas invenções são criadas nas universidades e estas são, na sua maioria, públicas”, analisa. Segundo ele, o quadro brasileiro é exatamente o contrário dos países desenvolvidos. Em países como os Estados Unidos, Japão e Alemanha, a iniciativa privada é responsável pela maioria das pesquisas. “O setor privado é muito mais indutor de inovação do que o estado. Ou seja: uma invenção gerada dentro de uma empresa privada tem muito mais chances de chegar ao mercado”, explica Renato.

 

Ado Jorio de Vasconcelos: crescimento das patentes ligado à profissionalização
 

Assim, não basta apenas patentear o produto se ele não for licenciado e chegar até o consumidor. Para tentar diminuir este abismo entre o mundo real e a academia, a UFMG criou, em 2003, a INOVA – uma incubadora de empresas de base tecnológica de caráter multidisciplinar que apoia projetos de diversas áreas do conhecimento. Até hoje, 39 empresas já foram certificadas.
“A principal função da INOVA é incubar empresas e projetos inovadores até que estejam fortalecidos para atuar num cenário empresarial cada vez mais competitivo”, conta Ado. “Para isso, disponibilizamos uma infraestrutura física, de serviços e de treinamento capaz de potencializar a criação e a consolidação de empresas emergentes, fortalecendo a relação universidade-comunidade-empresa”, finaliza.

 

Patentear um produto no Brasil pode se transformar num calvário. “Enquanto nos Estados Unidos o processo de patente pode demorar de seis meses a um ano, nas terras tupiniquins um processo pode demorar até doze anos”, conta Marcos Pinotti, que se diverte ao lembrar que uma invenção sua, feita ainda no tempo de estudante, só teve a patente concluída quando já era professor na UFMG.

 

Clélio Campolina, reitor da UFMG: modelo das universidades americanas do Vale do Silício
 

 

Para tentar diminuir tamanha inoperância, o INPI promete que, até 2014, esse tempo de espera será reduzido para, no máximo, quatro anos. Para isso, está sendo implementado o chamado e-patente, que passará por três etapas. Na primeira, todos os pedidos recebidos no INPI serão informatizados. “Em seguida, vamos ganhar tempo e evitar erros, começando a receber as novas documentações via internet. As filas para as análises deverão diminuir de forma substancial", explicou, otimista, o porta-voz do INPI Júlio César Moreira.

 

*Colaborou Tereza Rodrigues

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