Hora de estudar fora? Yes, oui, sí, dui, ja...

por Tereza Rodrigues 21/09/2011 11:23

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Geraldo Goulart, Emmanuel Pinheiro, Cláudio Cunha, Júnia Garrido, arquivo pessoal
Durante a graduação, Lucas Amaral passou um semestre na Hungria e outro na França (foto: Geraldo Goulart, Emmanuel Pinheiro, Cláudio Cunha, Júnia Garrido, arquivo pessoal)

* “Sim” em inglês, francês, espanhol, mandarim e alemão

 

Os números não deixam mentir: a estimativa de aumento na procura por intercâmbios, entre 20% e 25% em relação ao ano passado, mostra como o mercado está, mais do que nunca, aquecido. De acordo com dados da Associação Brasileira de Organizadores de Viagens Educacionais e Culturais (Belta), um número recorde de brasileiros estudará fora em 2011: cerca de 210 mil pessoas.

 

Razões para o bom cenário são várias, desde a queda do dólar e o aquecimento da economia até a preparação para receber turistas em grandes eventos (principalmente a Copa do Mundo, em 2014), passando pelo o aumento do número de convênios entre instituições educacionais brasileiras e estrangeiras. Mas um motivo especial tem deixado os donos de agências de intercâmbio otimistas. “As pessoas estão mais dispostas a investir na própria formação. Estão descobrindo o quanto é mais prazeroso fazer turismo aliado a um curso que acrescente na própria formação, seja pessoal ou profissional”, comenta Fred Tiba, diretor da Belta.

 

De acordo com o empresário, os cursos de idiomas ainda são os mais procurados. Mas, se antes o principal foco das agências eram os adolescentes que cursam o ensino médio, para programas de high school, agora a diversidade de público tem feito aumentar o leque de opções. “Entre universidades tem crescido muito a ‘troca’ de alunos por um ou dois semestres, tanto na graduação quanto na pós. E tem aumentado bastante também a oferta de atividades combinadas – para quem quer dar um up na carreira, como fazer conversação junto com um curso de business – ou simplesmente diversificar áreas de conhecimento, como uma advogada que vai fazer um curso de moda em Paris durante das férias”, exemplifica Fred Tiba.

 

Gabriel Porto com os pais, Linda e Gilberto. Ele foi à Austrália, mas a tecnologia ajudou no contato com a família: “Não há mais distâncias tão longas”
 

 

O gerente de marketing do Student Travel Bureau (STB), uma das maiores agências de intercâmbio do país, Samuel Lloyd, diz que o mercado está em franca expansão e as mudanças ocorrem principalmente na faixa etária dos interessados. “O maior crescimento da demanda é entre adultos, seja para dar um novo rumo na carreira, ou porque querem ter um diferencial no currículo, como um idioma pouco exigido como critério de contratação em um emprego – o italiano, o francês ou o alemão, por exemplo”, diz.

 

O momento de sair do país pela primeira vez sem os pais também tem mudado – para mais cedo. Segundo Samuel, muitas crianças de oito anos já vão estudar fora, e com um ou dois meses voltam com o idioma na ponta da língua, amigos novos de diversos continentes e “histórias infinitas” para contar. “A profissionalização do setor tem feito muita diferença. Há opções de high school para diversas partes do mundo, com pacotes bastante ‘personalizados’, em que o aluno escolhe tudo, desde o tipo de família com quer morar, até o perfil da escola, da cidade, das pessoas com as quais vai conviver mais de perto. Antes o destino era basicamente Estados Unidos, e esses ‘detalhes’ eram decididos quase como uma loteria”, comenta.

 

Mesmo sem nunca ter ouvido falar em Townsville, uma pequena cidade no nordeste da Austrália, foi este o destino escolhido por Gabriel Porto, de 16 anos, para ingressar em uma high school. O planejamento começou em maio de 2010, e de janeiro a agosto de 2011 ele estudou inglês e assistiu a aulas de matemática, geografia, química e outras disciplinas parecidas com as que ele cursa em uma escola técnica de Belo Horizonte. “Decidi o destino junto com meus pais, influenciado pela curiosidade de conhecer um lugar exótico, mas que tivesse também um bom ensino. No começo, tive um pouco de dificuldade com o vocabulário, mas logo me acostumei. Morei com uma família que era tão tranquila que eu me sentia literalmente em casa”, conta.

 

Daniel Trivellato, diretor da World Study de BH: “Alta demanda é reflexo do aumento do poder aquisitivo do brasileiro”
 

 

Gabriel aproveitou o intercâmbio para desfrutar de experiências que dificilmente teria oportunidade por aqui, como mergulhar entre enormes paredões de corais e pescar com arpão em mar aberto. Os pais, o engenheiro Gilberto Ottoni Porto e a professora Linda Resende, sempre confiaram que ele se daria bem na Austrália. “Não há mais distâncias tão longas, quase todos os dias conversávamos pelo Skype”, conta a mãe. Gilberto diz ainda que o fato de o filho ser um garoto responsável os estimulou a dar autonomia para que ele decidisse como, de fato, seria a viagem. “Esta também é uma etapa importante para aprender a viver as consequências de suas escolhas. Intercâmbio tem muito a ver com a formação moral das pessoas”, conclui o engenheiro.

 

A decisão de passar um semestre fora do país veio logo que Lucas Amaral passou no vestibular. Ele tinha 20 anos quando foi selecionado para fazer o quinto período do curso de relações internacionais na Hungria. Por conta de uma parceria entre as universidades em que estudou, ele foi isento de pagar mensalidade na faculdade europeia, que seria, inclusive, bem mais cara do que os gastos que tinha na PUC. “O investimento financeiro foi baixo, se consideramos o aprendizado. Tive que me virar sozinho, pois nunca tinha saído assim de casa. Mas foi tão bom que lá mesmo mexi meus pauzinhos e consegui estender um semestre para estudar também na França”, relata.

 

A psicóloga Izabella Mattar acaba de voltar do curso Business Abroad, na Europa: “Como tinha alunos de vários cursos, cada um pôde explorar a sua área”
 

 

O bom motivo para atrasar a formatura teve reflexos positivos imediatos na carreira de Lucas. Hoje ele trabalha com pesquisa e já tem vaga garantida no mestrado de uma universidade pública, a Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Durante a pós-graduação, ele vai fazer novamente intercâmbio –agora em Moçambique, na África, mas com prazo menor, já definido pela coordenação do curso: dez meses. “Está agendado no cronograma e vai ser como uma especialização fora, bem bacana”, diz, animado.

 

Para quem já tem definido somente que quer fazer intercâmbio, sem decidir ainda o curso ou mesmo o destino, especialistas são unânimes em recomendar planejamento com o máximo de antecedência. É por isso que o ano de 2012 traz boas perspectivas também para Daniella Ribeiro, de 16 anos. Em agosto ela embarca para a Europa, e lá vai cursar o 3º ano do ensino médio, mas não sabe ainda para qual país vai, muito menos em qual escola vai estudar. “Fiz seleção em uma ONG e consegui entrar em um programa que fica bem mais barato que por agências convencionais. Mas só vou saber mais detalhes de como vai ser no final deste ano”, conta. Para realizar o grande sonho de fazer intercâmbio, Daniella vai adiar a formatura, o vestibular e a sequência de estudos: “Vou terminar o segundo ano e dar um tempo, porque no primeiro semestre de 2012 vou ficar por conta de estudar inglês. Este é meu maior desafio agora. Depois, quando eu voltar, coloco a vida escolar em dia aqui no Brasil”, planeja.

 

O diferencial na formação profissional também foi o objetivo do advogado Rodrigo Carvalho, que embarcou para Chicago em maio deste ano para fazer mestrado em Direito e Negócios em duas das escolas de negócios mais respeitadas do mundo, Kellogg School of Management e a Northwestern School of Law. O curso é oferecido em conjunto e termina em meados de 2012, mas ele pretende ficar até julho de 2013, trabalhando por um ano.

 

O gerente de marketing do STB, Samuel Lloyd: maior procura entre adultos, para dar um novo rumo na carreira ou melhorar o currículo
 

 

Rodrigo já havia morado nos Estados Unidos na adolescência e fez um curso de férias na Espanha enquanto era universitário, mas diz que a experiência agora é engrandecedora. “Tenho como colegas de sala excelentes profissionais. Ampliar a minha rede de contatos internacionalmente é gratificante e acrescenta muito”.

 

A coordenadora de divulgação da Diretoria de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ester Melo, corrobora com a constatação de Rodrigo. Segundo ela, está cada vez mais fácil fazer cursos fora do país e ter o reconhecimento profissional em seguida. Só a UFMG tem atualmente 273 convênios, com 172 instituições, em 30 países. “Há reciprocidade, recebemos alunos dessas universidades e enviamos os nossos para lá. Todo mundo ganha, porque com essa troca cultural o nível de aprendizado melhora muito”, explica. Ainda segundo Ester, as instituições que mais ofertam vagas para alunos da maior universidade mineira estão na Alemanha e em Portugal, e a demanda aumenta vertiginosamente: “Em 2004, 14 alunos nossos foram estudar fora. No ano passado, este número já era 332. Para o ano de 2012, 500 alunos já programam a ida”, conta.

 

Daniella Ribeiro estuda inglês até agosto de 2012, antes de ir para a Europa: "É meu maior desafio agora"
 

 

De olho nessa tendência, as agências se adaptam para atender à demanda, pois nem todos os interessados estão aptos a se beneficiar de parcerias entre escolas ou universidades. Em muitos casos há seleção ou indisponibilidade de datas, por exemplo. Daniel Trivellato, diretor da unidade da World Study de Belo Horizonte, diz que a empresa tem oferecido novos cursos e tido um retorno bastante positivo. “As pessoas estão ousando mais, aliam a oportunidade de ter experiências no exterior com a vontade de fazer curso, mesmo que não tenha nada a ver com sua área de atuação, como gastronomia, surf, design. É reflexo também do aumento do poder aquisitivo do brasileiro”, comenta.

 

Um dos programas de destaque oferecidos pela World Study é o Business Abroad, no qual um cronograma com visitas técnicas em grandes empresas inglesas e francesas é direcionado a jovens executivos. “Os empresários se preparam para receber os alunos e o aprendizado é de alto nível, uma experiência que não se tem fazendo somente turismo. E olha que o preço é competitivo em comparação com o de uma viagem de passeio”, garante Trivellato.

 

Com boa experiência em viagens internacionais, Izabella Mattar foi uma das alunas da primeira turma de Belo Horizonte a fazer o Business Abroad. “Estou me especializando em uma área nova da psicologia, chamada Psicologia Intercultural, e este curso me ajudou a ter uma visão ampliada sobre aspectos específicos em procedimentos de recursos humanos internacionais das empresas europeias. Como tinha alunos de vários cursos, cada um pôde explorar a sua área. O mais interessante é que as experiências se complementam”, conclui.

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