Deu a louca em São Pedro

por João Pombo Barile 06/10/2011 12:04

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Júnia Garrido, Robson Mariz
No fim de setembro, vários incêndios atingiram áreas de preservação ambiental na Serra do Rola Moça (foto: Júnia Garrido, Robson Mariz)

Lembra da época em que Belo Horizonte era conhecida como cidade-jardim e a temperatura era amena durante todo o ano? Os mais novos talvez até duvidem, mas podem acreditar: já houve um tempo em que muita gente com problema respiratório vinha morar na capital por causa do seu clima. Com o índice de umidade relativa do ar chegando a 12% no último mês, e sem uma chuvinha decente desde junho, o clima da cidade em alguns momentos é comparável ao de desertos.

 

No final do mês, a seca acabou virando tragédia. E vários incêndios (alguns, diga-se de passagem, criminosos) atingiram áreas de preservação ambiental na Serra do Rola Moça e na Serra do Cipó, e consumiram mais de 650 mil m² de vegetação. Em vários condomínios residenciais da região metropolitana da capital, como o Retiro das Pedras e Pasárgada, as chamas assustaram os moradores, que quase viram suas casas virarem cinzas.

 

Com um clima tão hostil, que provoca até dificuldade para respirar, fica a dúvida sobre o clima de BH: será que está mudando? “Ainda não dá para afirmar, de maneira categórica e científica, que o clima da cidade está mudando para pior. Mas já temos alguns fortes indícios”, afirma o professor Eduardo Neto Ferreira, da Universidade Fumec/Fea e coordenador de um grupo de estudos sobre as possíveis alterações de clima na cidade. A pesquisa orientada por ele já conseguiu demonstrar, por exemplo, que a umidade relativa do ar varia muito de acordo com a região da cidade. Assim, os moradores da Pampulha, por exemplo, têm enfrentado menos problemas com a secura se comparado a bairros mais centrais. Isso porque a lagoa ajuda a diminuir um pouco a baixa umidade.

 

Wellington Lopes Assis, professor da UFMG: aumento da temperatura já é uma realidade
 

 

Eduardo é, no entanto, cauteloso em afirmar que uma mudança climática significativa já está acontecendo na cidade. Ele explica que as séries de dados meteorológicos do Brasil não vão muito além dos 120 anos, o que é considerado um período curto para avaliar possíveis mudanças. Daí não se poder dizer que o clima esteja piorando.

 

“Mas isso não significa que o crescimento da cidade nas últimas décadas, com a urbanização feita sem nenhuma racionalidade, não tenha efeitos maléficos para o microclima de toda a região”, ressalta. “Tivemos, sim, grande aumento das ilhas de calor”. A edificação de prédios, construídos em detrimento das áreas verdes que são importantes fontes de umidade, e os rios, canalizados e tampados, que contribuíram para diminuir as fontes de evaporação, ajudaram, sim, segundo o especialista, a tornar nossa cidade mais quente.

 

Mas se não se pode ainda afirmar com precisão, o que está acontecendo com o clima da capital, o aumento da temperatura, no entanto, já é uma realidade. Trabalho do professor Wellington Lopes Assis, do departamento de Geografia da UFMG, demonstrou que a temperatura vem aumentando. A pesquisa mostra que a taxa média de umidade do ar diminui 9,56% nos últimos cem anos em BH, com a temperatura média subindo 1,5ºC no mesmo período. Enquanto a umidade média do ar caiu de 73,2% para 66,2%, a temperatura média se elevou de 20,4ºC para 21,9ºC.

 

 

 

“Esta secura verificada nos últimos meses não é determinada pela urbanização. Mas pode piorar muito com ela”, alerta o especialista. Wellington também chama a atenção para os estragos que a falta de planejamento pode causar. “Nas últimas duas décadas, o adensamento de bairros como o Buritis e Venda Nova levou a uma piora no clima de BH”, diz. “Isto sem falar na grande verticalização no entorno da avenida do Contorno, que claramente aumentou a temperatura da região”.

 

Já para a professora da Escola de Arquitetura da UFMG, Eleonora Sad de Assis, existe certo exagero quando o assunto é mudança climática. Para a estudiosa, muitos fatores devem ser levados em conta antes de uma conclusão definitiva. “O período de estiagem deste ano está absolutamente dentro da normalidade, e não podemos ainda concluir que a secura está piorando”, assegura a pesquisadora. “É claro que a verticalização pode atrapalhar o clima. Mas não é fator determinante”, finaliza.

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