O comércio pede socorro

por Kátia Massimo 06/10/2011 12:57

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João Carlos Martins, Maíra Vieira
Situação atual da Praça da Savassi (foto: João Carlos Martins, Maíra Vieira)

Se você fosse lojista de uma região nobre da cidade e ficasse sabendo que um projeto do poder municipal vai revitalizar o local e deixá-lo ainda mais charmoso, podendo atrair novos compradores, inclusive turistas, certamente não teria dúvidas em apoiar a ideia.

 

O problema está no período de execução das obras, que torna tudo um caos: ruas e calçadas fechadas, trânsito desviado, poeira, barulho. Uma combinação de transtornos que afugenta os clientes e traz prejuízos e desespero para quem precisa continuar pagando as contas no fim do mês. Hoje, essa é a realidade dos lojistas da Savassi.

 

A maioria dos empresários não tem dúvidas: as obras vão deixar a região belíssima e trazer muitos benefícios para seus negócios. Vai possibilitar até mesmo que as lojas funcionem em horário noturno e possam competir com os shoppings. A dificuldade é resistir até que tudo esteja pronto. Até porque a previsão é de que a revitalização esteja concluída apenas em março de 2012. Ou seja, depois do principal período de vendas do comércio, o Natal.

 

 
 

 

A situação está tirando o sono de lojistas e de funcionários do comércio desde que as máquinas ocuparam as ruas da Savassi, no fim de março. Em cinco meses, as vendas despencaram. Em alguns estabelecimentos, chegaram a cair pela metade, como nas lojas Baby, localizada na avenida Getúlio Vargas. Instalado há 40 anos no mesmo imóvel, o proprietário não se conforma. “Meu prejuízo é brutal”, diz David Malamud. “Como pagar os impostos, empregados, fornecedores?”.

 

O pior é que, nas três últimas semanas, a central de operações da obra foi transferida para a porta das lojas Baby, deixando toda a fachada escondida pelos tapumes. Como estão fechadas, as calçadas do quarteirão passaram a abrigar moradores de rua que permanecem por lá inclusive durante o dia, o que só contribuiu para afastar os compradores. Diante dessa situação, as demissões foram inevitáveis. Dos 25 balconistas, sete foram dispensados e o dono da loja não descarta nova redução do quadro. “Do jeito que as coisas andam, o que vai acontecer aqui é muita quebradeira de lojas”, diz Malamud.

 

David Malamud, dono da Baby, que está com a fachada escondida pelos tapumes: “Como pagar os impostos, empregados e fornecedores?”
 

 

Pouco mais à frente, no Café da Travessa Livraria, a situação é igualmente crítica. As mesas, que eram disputadas pelos apreciadores da cafeteria, agora ficam cheias de poeira. “Nosso movimento caiu 80%”, lamenta Luiza Campos, que, juntamente com o pai, comanda os negócios da família, que inclui ainda outra livraria na Savassi, a Mineiriana. Segundo ela, a família paga um dos alugueis mais caros do local e não tem como reduzir as despesas mensais. O jeito foi demitir oito dos 20 atendentes e reduzir o preço do almoço, que de R$ 29,90 passou para R$ 19,90 o quilo, e assim tentar atrair outros frequentadores. “Tenho medo de a gente não aguentar até o fim da obra”, diz.

 

Luiza Campos, da Livraria e Café da Travessa, em frente à cafeteria que foi invadida pela poeira:
“Tenho medo de a gente não aguentar até o fim da obra”
 

 

Pelo menos quatro lojas já fecharam as portas definitivamente e outras três estão passando o ponto, como mostra balanço, ainda preliminar, do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Belo Horizonte (Sindilojas). “O problema não é a revitalização, já que essa é uma demanda dos próprios lojistas”, diz o presidente do Sindilojas, Nadim Donato. “Mas a forma como vem sendo conduzida”. Segundo ele, os comerciantes só foram informados oficialmente sobre prazos uma semana antes de tudo começar, e ainda tiveram a garantia, por parte da prefeitura, de que as obras seriam concluídas por etapas, evitando que toda a região se tornasse um canteiro de obras. “Não foi o que aconteceu. As ruas foram todas abertas de uma vez e o ritmo dos trabalhos está lento”, diz Nadim. O representante dos lojistas observa que há número reduzido de operários e o expediente é encerrado cedo, por volta das 17h.

 

Para protestar contra a situação e pedir a agilização das obras, contratação de mais operários e realização de trabalhos noturnos e nos fins de semana, os lojistas fizeram uma manifestação, em setembro, que contou com a adesão de pelo menos 90% dos estabelecimentos, de acordo com o Sindilojas. Eles fecharam as portas das lojas no final da manhã e deram um abraço simbólico na Praça da Savassi. O movimento contou com a adesão até mesmo do Sindicato dos Empregados do Comércio de Belo Horizonte e Região Metropolitana, que vem engrossando o coro dos insatisfeitos. “Estamos muito preocupados porque, além das demissões, tem funcionário pedindo as contas. já que a maioria depende de comissões e agora não dá para sobreviver com o que está ganhando”, diz José Alves Paixão, presidente do Sindicato dos Comerciários.

 

Marco Antônio Gaspar, da papelaria Brasilusa, passa o dia tirando o pó das mercadorias: “E pensar que eu briguei tanto para ter essa obra”
 

 

A prefeitura, por sua vez, nega que tenha havido promessas de que as obras seriam executadas por etapas. “Até poderíamos fazer dessa forma, mas correríamos o risco de ter retrabalho”, diz a diretora de Infrestrutura da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), Maria Luisa Ferreira Belo Moncorvo. “Por isso, optamos pela solução que consideramos mais adequada, que foi fazer a interface com as concessionárias e construir toda a rede de água, esgoto e telefonia de uma única vez”. Pelo planejamento da obra, somente os pisos serão colocados por quarteirões.

 

A possibilidade de conclusão da obra antes de março também foi descartada pela diretora. “Temos limitações, por exemplo, para trabalhos noturnos, já que não pode ser feito nada que dê impacto de barulho ou mesmo acabamentos, que dependem de luz”, explica. “Por isso trabalhamos mesmo é com o período de 12 meses”. O prazo será cumprido mesmo com a possibilidade de suspender os trabalhos em dezembro, no período de Natal, se essa for a opção dos lojistas, garante a diretora.

 

A diretora da Sudecap, Maria Luisa Ferreira Belo Moncorvo, nega a possibilidade de antecipar a conclusão da obra: “Trabalhamos mesmo é com o período de 12 meses”
 

 

Ao avaliar a situação, a presidente da seção mineira do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG), Cláudia Pires, entende que o impacto da intervenção no comércio poderia ser menor, mesmo com os transtornos inerentes a esse tipo de obra, especialmente por ser tratar de região com comércio dinâmico e fluxo intenso de carros e pessoas.

 

“É mesmo complicado gerenciar as externalidades, mas é plenamente possível compatibilizar os interesses”, afirma. Recorrer aos trabalhos noturnos seria uma alternativa para reduzir prazos. “Basta planejar os procedimentos que não dão impacto de barulho. É claro que o custo nesse caso é mais elevado, mas o cronograma seria agilizado e melhor suportado pelos comerciantes”, diz. A arquiteta sugere ainda a adoção de compensações relativas a taxas públicas. “É assim nos países desenvolvidos e você não vê ninguém reclamando de transtornos de obras”, diz Cláudia.

 

Joana Mourão tem duas lojas na região das obras: “Vai ser difícil compensar depois”
 

 

A proprietária da Equipage, Joana Mourão, que tem duas lojas na região das obras, considera que faltou sensibilidade do poder público para lidar com o projeto. “Acho que perdemos uma grande oportunidade de fazer uma intervenção coerente com o espírito da revitalização. Por que não tomar pequenos cuidados, como fazer passarelas para circulação de pedestres ou mesmo utilizar, por exemplo, tapumes pintados por artistas para deixar o local mais agradável?”, questiona. Na Equipage, a estratégia utilizada para atrair a clientela foi antecipar a liquidação. Mas a queda das vendas é estimada em 20%. “Vai ser difícil compensar depois”, diz Joana.

 

No quarteirão da frente, o dono da papelaria Brasilusa, Marco Antônio Gaspar, agora passa mais tempo espanando o pó das mercadorias do que atendendo os clientes, que ficaram escassos. Ele foi obrigado a embalar livros, agendas e outros artigos com plástico transparente, para não ter prejuízo maior. O quadro de pessoal teve de ser reduzido em 30%. “E pensar que eu briguei tanto para ter essa obra”, lamenta. “Jamais imaginei que todos nós iríamos ficar nesta situação.”

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