Quem cuidará dos nossos filhos?

por Nayara Menezes 13/10/2011 10:54

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Nayara Menezes, Cláudio Cunha, Geraldo Goulart
Mesmo tendo plano de saúde, casal garante a consulta particular com a pediatra: opção pela segurança (foto: Nayara Menezes, Cláudio Cunha, Geraldo Goulart)

 

A professora Rosiane e o marido Rodrigo Roscoe prepararam cada detalhe para a chegada da primeira filha, Gabriela. Quarto decorado, enxoval feito, exames em dia. Saiu tudo conforme o planejado. O que os papais de “primeira viagem” não esperavam era passar logo cedo por um dilema: a difícil tarefa de encontrar um pediatra. Iniciava-se aí uma busca muito mais complicada do que Rodrigo e Rosi imaginavam. “Todos os médicos do convênio só tinham disponibilidade para a consulta num prazo de dois ou três meses. E a maioria não atendia a novos pacientes”, conta a mãe. Depois de muito sufoco, ela acabou encontrando um, mas desabafa: “Ainda não estou completamente segura e tranquila”.

 

O problema vivenciado por Rosi e Rodrigo vem acontecendo com milhares de pais em Minas e no Brasil. A especialidade, tão importante para garantir a saúde dos pequenos, está cada vez mais escassa. A má remuneração, as condições de trabalho adversas e a falta de reconhecimento e valorização profissional vêm provocando um quadro caótico. Somente em Minas, mais de 20 serviços de pediatria fecharam as portas nos últimos quatro anos.

 

Para o presidente da Sociedade Mineira de Pediatria (SMP), Paulo Poggiali, a situação, que se estende há alguns anos, está chegando a um ponto crítico. Somente no hospital Felício Rocho, por exemplo, que recentemente fechou seu setor de pediatria, mais de 3.500 crianças por mês ficam sem atendimento. “Estamos passando por uma crise nacional. Em Minas, tivemos importantes serviços de pediatria fechados nos últimos anos. Foram perdas irreparáveis. Muitas crianças estão ficando sem o atendimento a que têm direito”, alerta.

 

A enfermeira Paula relata a dificuldade de encontrar um especialista de confiança para cuidar do filho Paulo André: “Um dos pediatras já prescreveu medicamentos que não são mais recomendados pela OMS”
 

 

Segundo o pediatra, os problemas atingem tanto o setor público quanto a saúde suplementar. “As políticas públicas de saúde, com a inadequada destinação de verbas, têm reflexos na qualidade do atendimento. Há um sucateamento de unidades de saúde, precariedade de instalações e de recursos diagnósticos e terapêuticos, além da má remuneração do profissional médico”, enumera Poggiali.

 

Quem sente na pele os reflexos da crise é a comunidade, que muitas vezes fica sem atendimento. A professora Danielle de Souza Antonacci paga caro pelo plano de saúde dos filhos Maria Emília, de 2 anos, e Emmanuel, 9. Ainda assim, teve de recorrer a um pediatra particular na última vez que precisou de atendimento para a filha. “A Maria deslocou o braço. Fui correndo para o Hospital Felício Rocho, onde estava acostumada a ir quando algum incidente ocorria com meus filhos. Cheguei lá e fui surpreendida com a notícia de que eles não tinham mais pediatras”, lembra a mãe, que já não conta mais com os médicos do convênio.

 

E os poucos serviços de pediatria que restam em BH estão cada vez mais sobrecarregados. Glenda Hurtado, que trabalha na emergência do Hospital São Camilo, conta que a instituição chega a atender 35 mil crianças por mês. “A consulta de um pediatra é complexa, temos de orientar toda a família. Por causa disto, praticamente todos os dias ultrapassamos nossa jornada de trabalho,” relata.

 

E o futuro da especialidade não é muito animador. A desvalorização profissional faz com que poucos residentes optem pela pediatria. Para se ter uma ideia, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, em 10 anos, a procura pela especialidade caiu mais de 50%. Em 1999, foram 1.660 inscritos e 871 aprovados na prova de obtenção de título. Já em 2008, foram apenas 831 inscritos e 338 aprovados.

 

Rosiane Roscoe com a pequena Gabriela: a difícil tarefa de encontrar um pediatra deixa a mãe insegura
 

 

Para o secretário geral da Sociedade Mineira de Pediatria e diretor de comunicação do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed), Fernando Luiz Mendonça, a explicação está na falta de perspectiva que os graduandos veem na pediatria. “Ao se formar, o estudante se vê diante de uma opção onde só a consulta é remunerada – e mal remunerada – e outra em que procedimentos como exames complexos e cirurgias somam valor agregado”, explica. A previsão, segundo o diretor do sindicato, é de que, em poucos anos, sobre emprego, mas falte profissionais.

 

O médico Tomaz Marcelino Diniz, pediatra há 36 anos, também vê com preocupação o cenário atual. “Costumo brincar que nós somos protegidos pelo Ibama, pois somos espécie em extinção”, define. Além da redução na procura pela especialidade nas faculdades de medicina, acontece ainda uma migração de profissionais para outras áreas. Este foi o caso de Rodrigo Guimarães, que quase abandonou a pediatria. “Hoje sou auditor de saúde, que é de onde vem minha receita. Continuo atendendo uma vez por semana, apenas pela realização pessoal, mas não pelo dinheiro, pois este não compensa”, diz.

 

 

 

Como auditor de planos de saúde, Rodrigo tem a oportunidade de conhecer o outro lado da moeda e revela que a pediatria, assim como a ginecologia, são especialidades que têm um custo alto e geram pouca receita para os hospitais, já que não há muitas intervenções no paciente. Por isso, os gestores de saúde, segundo ele, enxergam essas áreas como fontes de prejuízo. “É uma visão restrita, pois nestas duas áreas, se a prevenção for bem feita, se evitará um gasto futuro com o atendimento”, diz.

 

A engenheira Bruna Gouvêa Baggio sofreu para encontrar um pediatra para a filha Maria Eduarda, de apenas cinco meses. “Cerca de 90% dos que eu liguei não aceitavam novos pacientes, apenas irmãos de pacientes antigos. Os que eu conseguia marcar só tinham vaga para daí a dois meses. Foi uma luta”, conta a mãe.

 

Paulo Poggiali, presidente da Sociedade Mineira de Pediatria: “Muitas crianças estão ficando sem o atendimento a que têm direito”
 

 

Além da dificuldade de encontrar o profissional, muitas mães reclamam da baixa qualidade nos atendimentos. “Já passei por pelo menos quatro pediatras e, como sou da área de saúde, observei que os exames clínicos deixavam muito a desejar”, conta a enfermeira Paula de Freitas Silva, mãe de Paulo André, 2 anos. “É difícil achar um de total confiança. Um dos pediatras já prescreveu medicamentos que não são mais recomendados pela Organização Mundial de Saúde”, conta.

 

Para a pediatra Raquel Pitchon, coordenadora científica do Hospital Mater Dei (um dos poucos que ainda preservam a especialidade), os pediatras não podem desanimar. “Estamos atravessando uma fase ruim, mas temos de acreditar numa perspectiva melhor”. Para ela, apesar de os gestores ainda não terem se dado conta da necessidade de diferenciar o pediatra das demais especialidades, a sociedade sabe do importante papel do profissional. “Em pesquisas feitas pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mais de 90% dos pais afirmaram que gostariam que seus filhos fossem atendidos por um especialista, e não um generalista”, destaca Raquel.

 

 

 

Ela acredita na valorização social do pediatra. “Hoje, a maioria das famílias é constituída por um ou dois filhos. Por isto, esta criança ganha um papel muito importante dentro desse núcleo”, afirma. E é exatamente assim que pensam a bancária Cibele Medina e o marido, o empresário Reinaldo Quintão. Após anos de espera e 12 fertilizações in vitro, o casal finalmente conseguiu realizar o sonho de ter o primeiro filho. E para cuidar da pequena Maria Vitória, de cinco meses, não poupam esforços. Mesmo contando com dois planos privados de saúde, eles optaram por uma pediatra particular, devido à confiança. “Quisemos alguém em que pudéssemos confiar cegamente e que tivesse total disponibilidade, o que, infelizmente, é muito difícil de encontrar num plano de saúde”.

 

E para não passarem o mesmo aperto que a maioria dos casais, Cibele e Reinaldo se adiantaram. Ainda durante o pré-natal, fizeram uma consulta com a pediatra. “Achamos importante, porque nos deu mais segurança”, conta Cibele. O casal passou um susto quando a filha estava com apenas dois meses. “Ela pegou uma infecção bacteriana e teve de passar por uma cirurgia”. O apoio da pediatra, segundo eles, foi fundamental neste momento. “Não esqueço uma frase que ela nos falou no auge do desespero. Perguntei se tinha problema ligar para a casa dela ou no celular, durante a madrugada. Ela respondeu: “De forma alguma, somos parceiros”, diz Reinaldo.

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