Pequenos grandes escritores

por Carolina Godoi 18/10/2011 05:16

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Geraldo Goulart, Maíra Vieira
Todos os anos, alunos do Colégio Logosófico participam de um projeto diferente de criação literária (foto: Geraldo Goulart, Maíra Vieira)

Clara Paes Silva e Pedro Amorim têm algo importante em comum: durante um ano inteiro planejaram, pesquisaram, escreveram, revisaram e editaram seus próprios livros. Clara escreveu uma pequena biografia de Nelson Mandela, e Pedro, uma fábula africana. O momento de maior emoção foi o lançamento da obra, reunindo toda a família, com direito à música e sessão de autógrafos. Nada diferente do que acontece com qualquer escritor, a não ser pelo fato de que ambos têm 9 anos de idade e estão no terceiro ano do ensino fundamental do Colégio Loyola. Como eles, muitos meninos e meninas estão descobrindo que ser escritor não é nada fácil, mas não é privilégio de poucos adultos especiais.

 

O objetivo das escolas de envolver crianças em projetos como este é estimular a leitura e a escrita, mostrando a elas o seu uso social. “É provar que a letra está no cotidiano, nas suas atividades do dia a dia, e nada como ter o leitor em mente para incentivá-las a dar o seu melhor”, conta Alexandra Gazzinelli, coordenadora pedagógica de série, uma das profissionais envolvidas em colocar no prelo livros editados por 200 crianças do Loyola.

 

Ela esclarece que a escola escolhe um tema que tenha viés humanista, ajuda nas pesquisas, oferece oficinas de letramento semanais e envolve os alunos em todas as etapas de criação, desde a escolha do título, seleção e organização dos textos, digitalização, revisão e até a conferência e aprovação da “boneca” do livro. “Não tinha facilidade para criar histórias, mas consegui melhorar”, conta Clara. Já Pedro diz que não sabia como colocar em palavras aquilo que pensava. “Por isso, fiquei feliz em ver um livro assinado com meu nome”, comemora.

 

No Instituto Coração de Jesus, a iniciativa foi das próprias crianças: criaram um Clube da Leitura, onde 25 alunos se reúnem quinzenalmente para ler com liberdade. Depois dos livros escolhidos por eles, a professora de produção de texto e gestora do projeto, Geisa Mara Batista, passou a introduzir outros livros. Há dois anos eles preparam seus próprios contos, escritos em conjunto, que vão virar livro até o início de 2012. “A leitura estimula a escrita, e este tem de ser um lugar de desafio e prazer”, diz Geisa. Um dos participantes, Pedro Henrique Pimenta, de 11 anos, se empolgou com contos de terror, histórias do Drácula e adora escrever: “Colocar minhas ideias e ver que são transformadas pelos colegas é do que mais estou gostando”.

 

Alexandra Gazzinelli, coordenadora pedagógica do Loyola, incentiva os escritores mirins Clara e Pedro: "A letra está no cotidiano"
 

 

O que a professora de produção de texto frisa é que, quando escrevem seus livros, os pequenos passam a entrar não só no universo do outro (como fazem na leitura), e, sim, passam a vivenciar o mundo fantasia deles. “Isso os ajuda a elaborar a própria realidade, porque ela aparece nas histórias que criam. É fundamental ter esta possibilidade, principalmente na infância”, explica Geisa.

 

Além da criação das histórias, os alunos do Colégio Logosófico, que todo ano participam de um projeto diferente de criação literária coletiva, desenvolveram diferentes gêneros. Passaram por contos, poesias, cartas, fábulas, biografias e textos informativos sobre animais marinhos, por exemplo. Henrique Saldanha Bueno, de 12 anos, pesquisou sobre o tubarão-martelo e, durante sete meses, desenvolveu dois tipos de texto, fez diferentes técnicas de ilustração e transformou as ideias em música, já que o livro foi lançado juntamente com um CD. “Eu não imaginava como era grande o esforço para que tudo ficasse bonito no final”, conta.

 

O estímulo da professora Geisa Batista, do Instituto Coração de Jesus, tem o retorno do aluno Pedro: "Colocar minhas ideias e ver que são transformadas pelos colegas é do que mais estou gostando"
 

 

Quando estavam no início da alfabetização, Bruna Celis Marcato e Olavo Martins Donato – alunos do quarto ano fundamental – já estavam começando a editar seu primeiro livro. A partir daí, Bruna passou a escrever cartas para os colegas e já criou uma peça de teatro com suas ideias. O colega Olavo gosta de reler o que publicou: “E quando eu crescer, vou saber o que pensava quando criança”, completa.

 

A vice-diretora pedagógica do Logosófico, Mayra Araújo, opina que foi fundamental para as crianças conhecer escritores e ilustradores e fazer perguntas a eles antes de começarem a colocar as mãos na massa. Dois dos autores que deram palestra foram o escritor e artista plástico mineiro Marcelo Xavier e o artista gráfico Guga Schultze. A empolgação e envolvimento foram tão grandes que os alunos criaram o hábito de ler, escrever e revisar seus próprios trabalhos. “Isso perdurou nas atividades da escola e nos deveres de casa, pois aprenderam com mais consciência”, opina Mayra.

 

No total, o projeto teve 18 livros lançados, com cem unidades cada, e correm o Brasil pelas escolas do Sistema Logosófico de Educação. Uma das professoras envolvidas, Tatiana Latorre, ressalta os muitos conteúdos aprendidos, como o uso da letra maiúscula, pontuação, ortografia, coerência e coesão na escrita. “E o melhor, foi feito de forma criativa e divertida”, completa.

 

Jade e Gabriel com a professora Mariane Nogueira, do Colégio Sagrado Coração de Jesus: eles não têm medo de errar e são orientados a escrever
 

 

Produzir um livro é também ajudar a mudar a mentalidade sobre a educação infantil. Este é um dos pontos destacados pela coordenadora do Colégio Colibri, Liliane Lima. “É possível ‘escrever’ antes de mesmo da criança se alfabetizar por completo”, afirma. Por isso, é feito todo ano um projeto chamado Livro do Conhecimento. Há dois meses, seis crianças de 3 anos de idade tiveram a escrita da professora como meio condutor para fixar suas buscas, pesquisas de campo e ideias sobre ninhos e tocas de animais num livro recém-lançado. “É um diferencial o desenvolvimento da abstração, o estímulo da criatividade e raciocínio lógico quando a criança, na sua tenra idade, está imersa num ambiente de letramento”, completa.

 

A prática de contação de histórias diárias no Colégio Sagrado Coração de Jesus foi o ponto de partida para a elaboração de livros pelas crianças. Mariane Nogueira, professora de língua portuguesa e coordenadora da Área de Códigos e Linguagens, ressalta que as visitas promovidas pela escola a editoras, bibliotecas, museus e sebos em que os alunos registravam tudo o que vivenciaram ajudou na hora de criar os livros. “É assim que são feitos os aprimoramentos da capacidade linguística e da maneira como vão usar a linguagem dentro do texto”, explica.

 

Aluno do colégio, Gabriel Gurgel de Castro, de 10 anos, publicou dois contos e relata como a experiência foi transformadora: “Passei a andar com um caderninho de anotações onde faço desenhos e não paro de inventar histórias”, conta. Com a colega Jade Santos Tamietti, de 9 anos, foi diferente: o apreço pela escrita começou antes do projeto da escola. “Os livros que gosto, reescrevo com minhas palavras”, diz. Esta espontaneidade, segundo Mariane, deve ser estimulada. Eles não têm medo de errar e são orientados a isso. “Claro, é preciso uma diligência atenta da professora para que sejam estimulados a refletir, mas suas idéias devem ser respeitadas e valorizadas”, explica.

 

O resultado para todos os alunos vai além da escrita, como é possível perceber no depoimento de Jade. “Agora gosto muito mais dos livros sem gravura, porque minha imaginação é mais emocionante do que qualquer livro pronto”. É assim que as escolas acreditam que a literatura vai entrar de vez na vida das crianças, que terão muito mais chances de ser bons leitores, e excelentes escritores. Por que não?

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