O resgate da vida

por João Paulo Martins 19/10/2011 11:45

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Maíra Vieira
Maria Dulce Barbosa, diretora da Memória Gráfica (foto: Maíra Vieira)

Você sabe o que é a xilogravura? Na própria palavra está a resposta: trata-se da técnica de esculpir a madeira com instrumentos específicos, como goiva ou buril, para formar um desenho que será reproduzido num papel, tal qual um carimbo. Esse estilo de impressão teve origem na China, no século VI, mas ficou popular na Europa do século XVIII. No Brasil ela é mais ligada à literatura de cordel, típica da região nordeste. Artesanal e artística, a xilogravura acabou sendo escolhida pelo projeto Memória Gráfica, de Belo Horizonte, para trabalhar com jovens carentes e em reclusão.

 

Criado em 1999 por Oswaldo Medeiros e outros 24 artistas e gravadores, o projeto Memória Gráfica – Typographia Escola de Gravura foi pensado como forma de trazer cidadania e cultura aos jovens com privação de liberdade. E, para tal, foram incorporados os equipamentos de impressão da extinta Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor). Instalada no Centro de Internação da Criança e do Adolescente, no complexo penitenciário Estevão Pinto, no bairro Horto, zona leste de BH, a Memória Gráfica atende também a crianças e adolescentes carentes do entorno e da região metropolitana, e conta com o apoio de várias empresas, como a Usiminas.

 

Trabalhos baseados em técnicas tradicionais de impressão, como xilogravura e tipografia: valorização da criatividade dos adolescentes
 

 

As turmas são compostas por até 40 alunos, que têm à disposição sete impressoras, além de tipos (letras e símbolos) móveis, para composição de textos (tipografia). A xilogravura é uma das oficinas, que compreendem também: alfabetização visual, construção de texto, oficina de parque gráfico e gestão da vida. Segundo a diretora do projeto, Maria Dulce Peixoto Barbosa, os cursos não seguem a lógica da escola tradicional, e sim, instigam os jovens a externarem a criatividade. “Muitos chegam dizendo que não sabem desenhar. Mas explico que aqui eles não vão desenhar, e sim, gravar. Isso ajuda a desbloquear a imaginação”, completa. O desafio é justamente tirar os estereótipos visuais que eles trazem, tanto ligados ao universo da violência, quanto oriundos da televisão, ou seja, baseados em computação gráfica e desenhos japoneses.

 

O que mantém o interesse dos jovens nas oficinas é o reconhecimento pelo resultado de seus trabalhos. Os livros e peças visuais são vendidos na própria sede do projeto e também enviados a exposições, que ocorrem periodicamente. Maria Dulce Barbosa conta que certa vez um jovem disse que não acreditou que seu desenho foi valorizado, e não jogado fora, no rio Arrudas. Isso porque na escola, ele costumava sofrer discriminação e os professores jogavam fora seus trabalhos.

 

 

 

Com a Memória Gráfica, até a posição dentro da família mudou, passou a ser mais representativa. “Quando expusemos pela primeira vez na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, os familiares, receosos, nem entravam no saguão. Agora, eles usam as melhores roupas e ficam orgulhosos dos trabalhos de seus filhos”, explica a diretora.

 

Um bom exemplo de como a cultura muda as pessoas é o segurança Anderson Paulo de Oliveira, de 27 anos, que participou dos cursos durante cinco anos. Filho de uma catadora de papel que morava debaixo de um viaduto, ele é o único sobrevivente de seu grupo de adolescentes infratores.

 

Quando chegou à Memória Gráfica, o menino adorava contar seus feitos no mundo do crime, e como tem um porte mais robusto, todos achavam que não combinaria com produção artística. “Apesar de seu tamanho, ele tinha uma técnica muito apurada”, diz Maria Dulce Barbosa. Hoje, Anderson está casado e ainda mantém um laço com o projeto. “É claro que não ganhava tanto dinheiro com a gráfica como ganhei com o crime, mas preservei minha vida”, atesta o segurança.

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