Obra de Fogo

por Simone Dutra 19/10/2011 12:43

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Eugênio Gurgel
Erli Fantini em seu refúgio, no sítio em Piedade de Paraopeba: peças criadas no forno à lenha tipo (foto: Eugênio Gurgel)

A arte milenar de fazer cerâmica depende não só da criatividade do artista, mas também do conhecimento das técnicas e domínio da argila e do fogo. Foi exatamente neste aprendizado que a artista plástica Erli Fantini, mineira de Sabará, decidiu se especializar na década de 1970, depois de estudar na Escola de Belas Artes da UFMG. Apesar de a instituição não oferecer essa formação naquela época, ela buscou cursos fora do campus e se tornou umas das primeiras professoras de cerâmica na capital.

 

Ao longo dos anos, Erli teve seu trabalho reconhecido com muitos prêmios e convites para ensinar a arte em outros estados e até fora do Brasil. Em 2002 alcançou seu maior objetivo: construir um forno a lenha em sua propriedade, em Piedade de Paraopeba, distrito de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte.

 

Único em Minas e um dos poucos exemplares existentes no país, o forno tem três camadas e é do tipo noborigama, com modificações para queima bizen (que significa queima mais longa). Demorou mais de um ano para ficar pronto, mesmo contando com mão-de-obra especializada. “A primeira queima deu frio na barriga. A ansiedade era grande”, afirma a artista.

 

Da chaminé desse forno saem enormes labaredas de fogo, com temperaturas que podem chegar a 1.300ºC. A queima dura de cinco a seis dias e a última, a 25º, foi feita no mês passado, com 450 peças de tamanhos variados, com objetos de Erli e de mais 14 artistas.

 

“Já chegamos a queimar até 600 peças. Acendemos o forno apenas três ou quatro vezes ao ano”, conta. O curioso é que as peças saem de lá como se tivessem sido pintadas à mão. Mas, na verdade, elas ganham um colorido especial por meio das labaredas de fogo que entram em suas formas. “Geralmente não utilizo pintura; os objetos já saem com cores variadas”.

 

A história de Erli Fantini com a cerâmica começou durante a faculdade, mas foi em Ouro Preto, em 1977, que ela conheceu o mestre ceramista Megumi Yuasa, que mudou toda a sua trajetória, forma de pensar e de trabalhar. “Ele me mostrou outras possibilidades da cerâmica que me abriram novos caminhos”, diz Erli. Ela decidiu, então, comprar um forno elétrico com a amiga Tânia Gontijo. Foram muitas experimentações, muitos erros e acertos, e começaram a produzir sem conhecer o processo de queima. As duas, conta Erli, iam olhando nos livros, tentando fazer, e “nesse processo, a gente quebrava a cabeça e as peças”.

 

A ceramista passou pela Escola Guignard e conheceu outro talento da arte, Celeida Tostes, convidada para ensinar as técnicas de pintura e queima da argila. Além desse curso, Erli ainda fez muitos outros, inclusive estudos com Amilcar de Castro e desenho com Luiz Paulo Baravelli. “Hoje, estou fazendo novamente curso de desenho. Acho importante enxergar com um novo olhar, saber observar”, diz.

 

Em 1980 começou a pesquisar a fundo as técnicas da cerâmica, buscando novas formas para o seu trabalho e inovando com a adição de materiais como ferro, vidro e pedras que, incorporados à cerâmica, aumentaram suas possibilidades de expressão. Conheceu na mesma época Toshiko Ishii, e juntas passaram a usar a técnica de queima japonesa bizen, em forno à lenha. “Ela passou a ser para mim uma referência de vida”, revela. A primeira mostra individual de Erli aconteceu nessa época, em 1984, na Galeria de Arte, onde apresentou placas de cerâmica, trabalhos em papel artesanal e uma série, a qual denominava Abraços.

 

Em 1990 passou a trabalhar com formas de cone para criar objetos diferentes, semelhntes a torres, que passaram a fazer parte das construções que ela faz até hoje. “Elas compõem minha cidade imaginária, que cada vez incorpora mais elementos”, conta. Atualmente, Erli Fantini dá aulas em seu ateliê, em Santa Tereza, para oito alunos. Mas seus planos são terminar seu ateliê em Piedade do Paraopeba e mesclar as atividades nos dois lugares. “É muito gratificante ver um aluno se apaixonar pela cerâmica como eu me apaixonei, e buscar novas técnicas, novas linguagens nessa matéria tão rica”, garante.

 

Detalhe das peças no forno bizen (acima) e

duas obras da exposição Cidade, em Ouro

Preto (abaixo): objetos já saem com cores

variadas"

 
 

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