Recordar os mortos, celebrar a vida

por Patrus Ananias 01/11/2011 05:43

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O mês de novembro, logo no seu começo, nos convida à nada fácil tarefa de refletir sobre a morte. Pensar na “indesejada das gentes”, lembrar os que partiram, nos coloca diante de nossa extrema fragilidade. Alguns trataram a morte de forma poética e até mesmo acolhedora. Francisco de Assis a chamou de irmã; para Guimarães Rosa, a morte é “o sobrevir de Deus entornadamente”. O mestre de Grande Sertão: Veredas estendeu-se mais sobre a dita cuja no seu magnífico discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, poucas horas antes de ele próprio fazer a misteriosa, insondável travessia: “Choras o que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta. (...) A gente morre é para provar que viveu... As pessoas não morrem, ficam encantadas”. Já outros, como o médico e memorialista Pedro Nava, não viam na morte nenhuma graça.

 

Manifestações místicas, poéticas e de repulsa à parte, sempre dignas de respeito e acolhimento, penso que o confronto com a morte e a recordação dos nossos mortos devem nos direcionar a uma vigorosa opção pela vida. A saudade que sentimos de tantos que não estão mais fisicamente entre nós e o legado que eles nos deixaram dão a importância do nosso tempo existencial. Lembramos com enternecido carinho sobretudo daqueles e daquelas que firmaram, na sua passagem, as marcas permanentes da bondade, da compaixão, da justiça, da solidariedade, do compromisso com a vida.

 

É sabedoria aceitar e conviver com os limites da vida e do nosso tempo biológico. Trata-se de aceitar a morte no limite da nossa condição física. Mas não podemos aceitar a morte precipitada, violenta, estúpida, injusta com quem vai e com quem fica.

 

A morte que chega antes do tempo vem por três caminhos: a morte Severina, que mata pela violência silenciosa da fome, da desnutrição, das doenças que podem ser prevenidas, evitadas e eficazmente combatidas; a morte insensata, brutal, inadmissível nas ruas e estradas pelo automóvel transformado em arma letal; e a morte chamada no sertão de “morte matada”, a violência nua e crua dos homicídios e das guerras nas suas diversas facetas históricas.

 

Foi-nos dado o dom da vida e, com ele, nossa dimensão social. Somos devedores dos outros, dos nossos antepassados, dos que partilham conosco no dia a dia os mistérios e os desafios da existência e da convivência. Cabe-nos defender e preservar a vida em nós e nos outros. Além da nossa vocação comunitária, estamos também ligados à vida nas suas múltiplas manifestações e às condições em que ela floresce. Assim como precisamos do outro, precisamos da terra, da água, do ar, das plantas, dos ecossistemas, da natureza, enfim.

 

Temos aqui o nosso tempo. Tempo de aprendizado individual e coletivo, de construções compartilhadas, de celebrações, de festas, de alegria. Tempo de trabalho, de superação de dificuldades e tempo de desafios; tempo de preparar a casa para a acolhida amorosa da meninada que está chegando. A aventura humana precisa e deve continuar. Temos, diante dos que nos precederam, de fazer o grande pacto: todos os recursos (humanos, financeiros e tecnológicos) devem estar voltados para a preservação da vida humana, que é o valor supremo e coesionador da vida e a ela devem estar subordinados todos os demais direitos e interesses.

 

A norma fundamental que deve orientar o novo pacto social é que ninguém deve morrer antes de chegada a sua hora. E a hora só chega quando esgotados os recursos da medicina e outras ciências, quando levados aos limites todos os cuidados, e então se manifesta a fragilidade dos nossos corpos. Aí talvez a morte ganhe um pouco de respeito e dignidade. Morte prematura, injusta, violenta dá razão a Pedro Nava: torna-se obscena. Zelar pela dignidade da morte faz parte de nossa tarefa, para que assim ela, devidamente incorporada ao ciclo biológico, seja mais um modo de nos ajudar a valorizar a vida.

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