Ficou de bom tamanho

por Cândido Henrique Silva 07/11/2011 12:45

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Sylvio Vasconcelos/Divulgação
Obras no estádio do Mineirão: cronograma em dia colocou a cidade na ponta (foto: Sylvio Vasconcelos/Divulgação)

No último dia 20 de outubro, o secretariado da Federação Internacional de Futebol (Fifa) anunciou o calendário da Copa do Mundo de 2014 e as sedes da Copa das Confederações de 2013. Na porta da sede da entidade, em Zurique, na Suíça, horas antes da revelação, jornalistas europeus buscaram conversar com os representantes das cidades-sede candidatas ao protagonismo: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.

 

Muitos conhecem as três primeiras, entendem sua postura de liderança no processo e acham natural. No entanto, sob a última ainda paira uma nuvem de mistério. O que Belo Horizonte tem que a traz a Zurique como candidata a receber importantes jogos do Mundial e até a disputar a abertura da competição com a cosmopolita São Paulo? Em que região fica a cidade? Quais seus atrativos? Tem praia? E a comida?

 

As perguntas vão das óbvias às mais improváveis – e até engraçadas – para aqueles que conhecem bem a capital mineira. Tiago Lacerda, ex-presidente do Comitê Executivo da Copa 2014 de Belo Horizonte, responde todas: “A gente sabe que a cidade não é tão conhecida assim. Ter um papel importante durante todo o processo de escolha das datas, por si só, já é muito valioso”.

 

 

 

A curiosidade internacional em torno da cidade mineira existe há mais tempo, sempre motivada por sua ambição. Em 30 de julho de 2011, quando a Fifa sorteou os grupos das Eliminatórias para a Copa 2014, no Rio de Janeiro, o Comitê Executivo de BH montou um estande na Marina da Glória. Foi o mais visitado. “Lá, as pessoas viram que a cidade estava amparada por um grande estado e que não era apenas marketing”, diz Lacerda, que presidiu o comitê de agosto de 2009 até o último dia 27 de outubro.

 

Ao lado de Lacerda, em Zurique, está o governador Antonio Anastasia. Ele também espera que Belo Horizonte tenha um papel de destaque. Cumprir o cronograma na modernização do estádio Mineirão é um diferencial que chama a atenção. Quando o secretário-geral da Fifa, Jéròme Valcke, anuncia a tabela da Copa, alegria mineira. A capital não terá a abertura da Copa do Mundo nem a final das Confederações, em 2013, mas terá destaque.

 

Belo Horizonte é uma das quatro sedes já selecionadas para a Copa das Confederações – faltam as confirmações de Salvador e Recife, que dependem do andamento das obras de seus estádios – e receberá 6 jogos do Mundial, sendo uma oitava de final e uma semifinal. Se a Seleção Brasileira terminar na liderança de seu grupo, a capital mineira será a rota do hexa nesses jogos decisivos.

 

Anastasia vibra: “A cidade foi extremamente prestigiada, com nove partidas internacionais (três pela Copa das Confederações) e possivelmente dois jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, e certamente também na Copa das Confederações, em que já teremos garantida pelo menos uma semifinal, além de outros dois jogos de relevância”.

 

O governado Anastasia em Zurique, no anúncio das sedes brasileiras: “A cidade foi extremamente privilegiada”
 

 

O secretário extraordinário da Copa do Mundo, Sergio Barroso, também presente em Zurique, destacou a postura do estado durante todo o processo. “Fizemos uma mobilização pública pela abertura da Copa, o que nos deu muita visibilidade e, com isso, o reconhecimento pela boa gestão que vem sendo realizada em Minas”, afirma.

 

O prefeito Márcio Lacerda ficou surpreso com o papel de Belo Horizonte. Não esperava tanto. Sempre teve consciência de que seria difícil tirar a abertura de São Paulo, mas continuava trabalhando por ela. Esse foi o que diferenciou a capital mineira de Curitiba e Porto Alegre. As grandes cidades sulistas serão apenas coadjuvantes no Mundial, ficando com quatro e cinco jogos, respectivamente.

 

“Achava que receberíamos cinco jogos no Mundial, já que tinha quase certeza que seríamos sede das Confederações. Ter seis jogos é muito bom”, diz Lacerda, que fica ainda mais contente ao ver que, dos quatro jogos que Belo Horizonte receberá na primeira fase, três são de cabeças de chave – seleções que estão no top 8 do ranking da Fifa.

 

Assim, a possibilidade de seleções como Espanha, atual campeã do mundo, Holanda, Itália e Inglaterra jogarem na cidade é alta. No entanto, Tiago Lacerda não tem torcida por uma ou outra. “Não há motivo. Serão seleções de grande nível e que atraem muitos torcedores. E eles saberão já em dezembro de 2013 que Belo Horizonte será o seu destino. Isso é muito importante para já traçar planos para comunicar com esses torcedores”, diz.

 

 

 

No entanto, o que mais agrada a Lacerda é a possibilidade de receber a Seleção Brasileira em jogos decisivos. “Uma semifinal já seria algo sensacional para qualquer cidade, imagina com a possibilidade de receber o Brasil. Isso é excelente. Lembrando sempre que, antes, teremos um jogo de oitava de final”, comemora o presidente do comitê da cidade.

 

Os seis jogos que Belo Horizonte receberá no Mundial acontecerão apenas às terças-feiras e aos sábados. O primeiro será no dia 14 de junho, um sábado. A semifinal acontece no dia 8 de julho, uma terça. No texto da Lei Geral da Copa, enviado pela presidente Dilma Rousseff ao Congresso, há um artigo que permite que cidade e estado decretem feriado em dias de jogos. Pessoalmente, Lacerda não vê problema em utilizar esse artifício.

 

“Seria de bom tom o feriado, até para que a população de Belo Horizonte possa curtir o jogo e a festa. Vale lembrar também que, em jogos do Brasil durante a Copa, o funcionamento de tudo por aqui já é diferenciado. Além disso, os jogos serão, em parte, nas férias escolares. Mas com relação à legislação, vamos esperar a aprovação da Lei Geral”, diz.

 

Na capital mineira, o prefeito Marcio Lacerda acompanhou o anúncio do calendário de um telão no salão nobre da prefeitura, ao lado de jornalistas. E lá, ele traçou uma meta. “Temos o compromisso de fazer de Belo Horizonte a melhor sede da Copa”, diz. Para Tiago Lacerda, “a melhor cidade tem que ser agradável ao turista-torcedor e à população. Queremos que o turista volte e que o belo-horizontino sinta orgulho”.

 

Ser sede da Copa das Confederações, um ano antes, será um bom termômetro para isso. É a chance de a cidade treinar todas as suas operações e ter noção do que pode melhorar para receber o Mundial em 2014, além de ampliar ainda mais o cartão de visitas internacional – o que já foi realizado nesta fase preliminar e política da Copa do Mundo.

 

Entrevista
 
"Será um grande teste para o Brasil"
 
Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral: “Nós, brasileiros, nos contentamos com a metade”
 
Por João Pombo Barile
 

Preocupação. É este o sentimento do professor Paulo Resende, da Fundação Dom Cabral (FDC), quando o assunto é Copa do Mundo no Brasil. Um dos mais respeitados especialistas em mobilidade urbana no país, Resende acredita que, mesmo que todos os projetos previstos sejam realizados e fiquem prontos a tempo para a Copa, boa parte deles não vão atender à mobilidade urbana de forma significativa ou definitiva. “Muitos dos projetos já vão nascer defasados”, diz.

 

A preocupação não é nenhum fatalismo do especialista. Uma pesquisa da FDC, feita no final do ano passado, apontou que, sem investimentos, São Paulo vai parar daqui a quatro anos, avenidas do Rio de Janeiro ficarão intransitáveis em oito, e Belo Horizonte e Porto Alegre terão lentidão permanente em suas vias daqui a 12 anos. Segundo Resende, só medidas visando o longo prazo poderão trazer soluções verdadeiras para o problema do trânsito das cidades brasileiras.

 

Recém chegado de uma viagem da Alemanha, onde participou de um seminário onde os alemães discutiram o legado da Copa para o país, Resende conversou com Encontro. Os melhores momentos da entrevista você confere a seguir.

 

ENCONTRO – O senhor acaba de chegar da Alemanha, onde participou de um encontro em que os alemães discutiram o legado que a Copa do Mundo deixou para eles. O que pode nos contar?

PAULO RESENDE - Fui para a Alemanha para acompanhar uma série de discussões que os alemães estão fazendo desde 2002. Assim que eles ganharam o direito de realizar a Copa, em 2006, eles montaram um plano que duraria de 2002 até a Copa e analisaria os dez anos depois de 2006. Significa que, em termos de planejamento, a Copa da Alemanha só vai terminar em 2016. Significa que o evento em si não passou de uma etapa, de um grande projeto, principalmente para as novas gerações.

 

ENCONTRO - Na época em que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, muitos brasileiros se questionaram se estaríamos preparados para sediar o evento. Apesar de todas as críticas que o senhor tem feito à realização da Copa aqui, o senhor, no entanto, também é a favor de que a Copa aconteça no país...

PAULO RESENDE - Sem dúvida. E sabe por quê? Encaro como uma belíssima oportunidade, mas com uma euforia diferente da dos cartolas. A natureza da minha euforia é a seguinte: a Copa será um grande teste para o Brasil. Um teste de imagem, de saber se sabemos fazer planejamento, se nós conseguimos ser sérios com o dinheiro público, se nós conseguimos realizar algo complexo. O meu entusiasmo mora na gestão. A minha euforia mora nos indicadores de desempenho.

 

ENCONTRO – E o que o senhor tem visto até agora?

PAULO RESENDE - Zero em gestão. E uma nota baixa, no máximo três, para a preocupação com o legado que a Copa poderá deixar para o país. Os gestores que temos estão apenas preocupados em entregar as obras para a Copa. Eles se esquecem de que o Brasil continua depois do dia 13 de julho de 2014, que é o dia da final.

 

ENCONTRO - Os brasileiros são pouco exigentes e aceitam que as obras públicas sejam entregues sem nem mesmo estarem prontas. Isto está acontecendo também na organização da Copa?

PAULO RESENDE - É verdade. Nós, brasileiros, nos contentamos com a metade. Não cobramos o resto. E isso acontece porque no Brasil não existe cultura de planejamento de longo prazo. Há um exemplo prático do que estou falando: se pegamos o movimento dos últimos dez anos, dos seis principais aeroportos do país, vamos ver que o aumento médio de todos eles é de 20%. O que fizemos até agora para atender a esta demanda? Absolutamente nada. A Copa do Mundo para nós, até agora, não existe em termos de aumento da nossa capacidade de aeroportos. Tudo que temos são projetos. Então o governo já sabia, independente da Copa do Mundo acontecer aqui ou não, que a demanda estava aumentando.

 

ENCONTRO – Como o senhor tem visto o andamento das obras para a Copa do Mundo, especificamente em Minas?

PAULO RESENDE - Se eu começar pelo Mineirão, minha visão é de que o esforço de entregar o estádio no tempo certo e com responsabilidade não foi recompensada. A FIFA anunciou São Paulo na abertura da Copa. Para mim, então, não valeu a pena o esforço. O que vai valer a pena é que Minas cumprirá o prometido. E isso é mais importante que fazer a abertura de Copa. Para mim, devemos seguir nesta linha. Até onde eu sei, a gestão aqui em Minas tem sido correta. Discreta e low profile. E é assim que tem que ser. A minha grande crítica vai pela falta de apoio que Minas passa em relação a aeroporto e mobilidade urbana. Infelizmente não vamos ter a capacidade de Confins ampliada nem por causa da Copa do Mundo. A capacidade de Confins hoje é de 5 milhões de passageiros/ano. O projeto fala em ampliar para 10 milhões, mas acredito em apenas 8 ou 9 milhões. O mesmo vale para o aeroporto da Pampulha. Ele é muito próximo do estádio e deveria ter sido reestrurado. Perdemos. E isto é muito triste.
 

 

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