O pedreiro sumiu

por Daniela Costa 08/11/2011 05:37

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Eugênio Gurgel, Geraldo Goulart, Paulo Márcio
Há dois anos, o casal Kely Drumond e Arley Barcala vive um pesadelo (foto: Eugênio Gurgel, Geraldo Goulart, Paulo Márcio)

Quem precisou de pedreiro nos últimos meses em Belo Horizonte teve basicamente dois tipos de experiência até conseguir encontrar um: dor de cabeça ou sorte. Aqueles que tiveram capital para investir no serviço pode ser que hoje tenham outra história para contar, já que a demanda é tão grande que a preferência é dada a quem pode pagar mais. Não há outro critério.

 

A disputa é acirrada. Com o aquecimento da construção civil, construtoras e empreiteiras estão aumentando salários e competindo diretamente com os consumidores particulares. “Em meu quadro de funcionários, 90% do pessoal veio da Bahia. Foi a solução que encontrei para não ficar sem pedreiro”, destaca o empresário Anderson Miranda, da empreiteira A. Miranda Nunes Mão de Obra. O empresário conta que aposta em cursos de qualificação, mas que muitos serventes, depois de treinados, acabam indo para a concorrência. “É um risco que corremos, já que todos estão pagando muito bem. Na teoria, o salário determinado pelo sindicato é de R$ 900. Mas, na prática, os pedreiros chegam a tirar até R$ 4 mil por mês”. Os qualificados são poucos, mas a demanda é tanta que o empreiteiro só pode assumir novas obras após abril do ano que vem.

 

A aposentada Maria das Graças com Celiane da Silva, atendente do Movimento das Donas de Casa: “Só aqui consegui pedreiro disponível”
 

 

O engenheiro civil Roberto Coutinho afirma que em suas obras, além de buscar valorizar a equipe, ele investe em tecnologia. “Busco suprimir a falta da mão de obra com novos equipamentos, mas nem sempre é possível. Então procuro o meio-termo”.

 

A situação anda tão complicada que a professora Solange Medeiros conta que um amigo, dono de uma construtora, recorreu a ela para pedir o contato do pedreiro que estava lhe prestando um serviço. “Antigamente era o contrário. Agora, até construtor está correndo atrás, porque sabe que não pode dispor de um funcionário sequer”.

 

A representante comercial Júnia Lima e o pedreiro Geraldo Rocha: “Dou preferência a clientes antigos, mas às vezes, até eles têm de esperar”, afirma Geraldo
 

 

Com tantas obras sendo tocadas na capital mineira e no Brasil, a previsão da Associação Brasileira da Indústria dos Materiais de Construção (Abramat) é de que o faturamento do setor alcance R$ 188 bilhões até 2016. Para se ter ideia do crescimento, em 2009 a cifra registrada pela entidade era de R$ 96 bilhões.

 

No contexto de grandes obras sendo realizadas para a Copa do Mundo de 2014, os Jogos Olímpicos de 2016 e o programa Minha Casa, Minha Vida, encontrar profissional autônomo disponível para construir ou reformar é tarefa quase impossível. Com a agenda cheia, eles comemoram a boa fase e passam de uma obra a outra sem intervalos, cobrando cada vez mais caro pelo serviço. “Trabalho como autônomo há 20 anos e nunca tive tanta procura como agora. Nem tenho condições de atender a todo mundo. Com isso, a remuneração tem melhorado, porque os próprios clientes oferecem um pouco mais”, diz o pedreiro Milton Pereira dos Santos.

 

Como os valores cobrados variam bastante, é sempre bom pesquisar. “Os profissionais que trabalham com carteira assinada recebem em média até R$ 1500 mensais. Já os autônomos cobram mais porque não têm seus direitos garantidos”, explica Gilson Petronilho, mestre de obras da Construtora Castor.

 

Outro agravante é que um contingente pequeno de trabalhadores é atraído para a profissão. Dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que o aumento da escolaridade dos jovens os afasta dos serviços braçais, como os de serventes e pedreiros, o que contribui para o chamado “apagão” da mão de obra na construção civil.

 

A solução para quem precisa do serviço é, então, sair em busca de indicações de parentes, amigos e conhecidos. Há quem percorra até obras residenciais para reservar vaga na agenda dos profissionais. E às vezes têm sorte. “Quando preciso de algum profissional da área, vou às obras e peço informações, converso com quem está trabalhando”, conta a representante comercial Júnia Lima Nogueira. Como tática, ela tenta também fidelizar o serviço.

 

O pedreiro Geraldo Alves Rocha, por exemplo, presta serviços na casa de Júnia há 25 anos. Apesar de não ter muito tempo livre, ele procura dar preferência a clientes antigos. “Mas às vezes até eles têm de esperar”, diz. Fato que não incomoda o aposentado Antônio Gabriel Marques. Sempre que precisa realizar alguma reforma em casa, recorre ao seu profissional de confiança. “É melhor do que pagar por um serviço mal feito”.

 

Para tentar sanar o problema, alguns consumidores recorrem ao Movimento das Donas de Casa (MDC) em busca dos cerca de 60 profissionais autônomos da construção civil cadastrados. O difícil é encontrar algum deles disponível, já que a demanda para serviços em domicílio é muito grande – aproximadamente 200 solicitações por mês. “Alguns até pedem para que a ficha seja retirada temporariamente do cadastro por não conseguirem atender aos chamados”, enfatiza o engenheiro do MDC, Carlos Alexandre dos Santos Oliveira.

 

O pedreiro Milton dos Santos está aproveitando a boa fase do mercado: “Não consigo atender a tantos clientes”
 

 

A professora aposentada Maria das Graças de Castro recorre ao MDC desde 2009, quando teve dificuldades para reformar seu apartamento. Mesmo tendo parentes no ramo da engenharia civil, não conseguia nenhum pedreiro qualificado disponível. “A obra atrasou e minha mudança também”, recorda.

 

Uma opção para quem prefere gastar mais a ter dores de cabeça é contratar um arquiteto e realizar obras com profissionais de sua indicação. “Geralmente temos empreiteiros de nossa confiança que prestam serviços com frequência. Com isso, podemos acompanhar as obras de perto”, afirma a arquiteta Juliana Godinho, da Ponto Origem Arquitetura.

 

Visando suprir a crescente defasagem de mão de obra, o Centro Público de Promoção do Trabalhador (CPPT) inaugurou a poucos meses uma escola para formar profissionais da construção civil, no bairro Gameleira, região Oeste da capital. A proposta é formar 10 mil profissionais por ano.

 

A situação caminha mesmo para um equilíbrio. É o que afirma Bruno Magalhães, vice-presidente da área de Política, Relações Trabalhistas e Recursos Humanos do Sindicato da Construção Civil de Minas Gerais (Sinduscon-MG). “Houve muitos avanços com relação ao primeiro semestre deste ano. Foram realizados trabalhos em grupo por entidades ligadas à área da construção civil, com o intuito de qualificar e, automaticamente, de suprir a carência da mão de obra”, explica.

 

Magalhães fala, ainda, da estabilização no mercado neste segundo semestre e prevê uma desaceleração do setor. Na contramão das evidências, o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil (STICBH) afirma que a mão de obra está escassa devido aos baixos salários e à falta de qualificação. “O máximo que os empresários fazem é dar gratificações que não constam em carteira”, afirma o presidente da entidade, Osmir Venuto.

 

Contradições à parte, o fato é que pedreiro está sendo considerado artigo de luxo. A professora Kely Drumond e seu marido, o administrador Arley Barcala, vivem um dilema há cerca de dois anos, quando decidiram comprar uma casa e reformá-la. O que seria a realização de um sonho tornou-se um pesadelo, que até hoje não teve fim. “Estamos com a obra parada há quase um ano. Só nos restaram dívidas e prejuízos”, desabafa Kely.

 

O empreiteiro Anderson Miranda e seus funcionários Valter Miranda e Aliano Moraes: “Busco mão de obra na Bahia”
 

 

Com um bebê recém-nascido e um filho de dois anos, a professora passou todo o período de sua gravidez morando na casa em obras, que nunca foram concluídas. Isto porque a primeira empreiteira – contratada por indicação do arquiteto – não cumpriu o serviço combinado, e abandonou a construção. “Já tínhamos quitado boa parte da obra e o dinheiro não foi devolvido. E ainda tivemos que gastar mais, contratando outra empreiteira para continuar o serviço”. A professora conta ainda que, pela segunda vez, foi enganada. Os prazos não foram cumpridos e o serviço ficou mal feito. Além disso, o valor estipulado pela empreiteira no início da obra foi triplicado. “Ficamos praticamente sem nada. Eles dão um valor baixo e depois começam a pedir mais e mais. Você se sente coagido porque tem medo de que não concluam o serviço”, conta.

 

Nas horas vagas, Arley põe a mão na massa. “Não dá para ficar só olhando. Ficamos com um buraco enorme em nosso jardim, e o pior, em pleno período de chuva, correndo o risco até de a casa desabar em cima da minha família”, conta o administrador.

 

Para evitar tantos transtornos, todo cuidado é pouco. O coordenador do Procon da Assembleia em Belo Horizonte, Marcelo Barbosa, dá dicas para quem quer construir ou reformar: “Jamais deixe de fazer um contrato de prestação de serviço onde conste o que será executado, o prazo para o término das obras e a qualificação das partes envolvidas”, diz. Isto garante que o consumidor possa recorrer aos órgãos de justiça competentes. E reforça: “O trabalho prestado por empresas ou profissionais autônomos também é regido pelo Código de Defesa do Consumidor”.

 

 

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