O avanço da Direcional

por Kátia Massimo 08/11/2011 05:15

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Cláudio Cunha, Eugênio Gurgel, Leonel Albuquerque/Divulgação, Herbert Felipe/Divulgação
Obras do Meu Orgulho, maior complexo de imóveis populares em construção no mundo na atualidade (foto: Cláudio Cunha, Eugênio Gurgel, Leonel Albuquerque/Divulgação, Herbert Felipe/Divulgação)

Cidade de Bom Despacho, interior de Minas, idos dos anos 1960. Utilizar a mesma lâmina de barbear disponível no banheiro da casa era hábito comum entre os homens de uma família simples. Nada que preocupasse, até o dia em que o pai sofreu grave acidente de carro e, sem resistir aos ferimentos, morreu. Ainda no hospital, os familiares são surpreendidos pela notícia de que, se não fosse pela fatalidade, o fazendeiro Pedro Gontijo estaria condenado por grave doença, a hepatite B. Na hora da perda, momento de dor intensa pela ausência repentina do chefe da família, aos 52 anos, os filhos sequer imaginaram que pudessem estar contaminados. Mas a essa altura, já era tarde. Altamente transmissível e silenciosa, a hepatite B já havia contagiado os três mais velhos, todos traídos pelo costume de dividir o aparelho de barbear.

 

O engenheiro Ricardo Valadares Gontijo, filho do meio de seu Pedro, foi o primeiro a manifestar os sintomas da doença, quase 15 anos depois. Ele estava no auge da carreira. Sua construtora, a Direcional Engenharia, estava perto de completar uma década e tinha acabado de concluir sua obra mais importante, o quartel do comando geral da Política Militar de Minas Gerais, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Era final da década de 1980 e o engenheiro não escondia a empolgação. A obra foi bem-sucedida, a empresa deslanchava e a vida pessoal não podia estar melhor. Com dois filhos pequenos, comemorava a mudança para a casa dos seus sonhos, no bairro Mangabeiras. Até aquele momento, a única preocupação de Ricardo era fazer a empresa crescer e tornar-se um bem-sucedido empresário do ramo.

 

Focado no objetivo de vencer profissionalmente, ele começou cedo, aos 22 anos, como estagiário na empresa do tio, a Construtora Andrade Valadares, enquanto cursava engenharia na UFMG. Logo que ingressou na construtora, o estagiário se destacou pela determinação. “Ele sempre foi muito esforçado, de inteligência brilhante”, diz Benedito Valadares, tio e primeiro patrão. “É do tipo raro, que não nasce com frequência.” Por isso mesmo, o tio não teve dúvidas em lhe promover a diretor da firma e torná-lo responsável por todas as obras populares que a construtora passou a fazer pelo antigo BNH, nos anos 70.

 

Foi nessa época que Ricardo aprendeu tudo sobre construção para baixa renda e teve a oportunidade de inovar. Desenvolveu técnicas e padronizou outras, o que fez acelerar o tempo da obra, permitindo fechar muitos contratos. Em 12 anos na empresa, ele contabiliza 40 mil unidades construídas. “Fomos a firma mais lucrativa da época do BNH”, diz. Mas o que Ricardo queria mesmo era ter o próprio negócio. Foi quando fundou a Direcional, há exatos 30 anos.

 

O empresário Ricardo Valadares Gontijo, em canteiro de obras de sua construtora: "Hoje, reconheço, fui audacioso"
 

 

O momento não era dos melhores. A inflação estava em alta e dificultava o financiamento e a venda de imóveis de menor valor. Ainda assim, a Direcional começou construindo moradias populares e conseguiu até vencer gigantes do setor na época, ganhando a concorrência para construir o prédio do comando geral da Polícia Militar. A obra se tornou um marco na trajetória da empresa. “A minha firma tinha capital de US$200 mil e fiz uma obra de US$10 milhões”, diz. “Hoje, reconheço, que fui audacioso”.

 

O empresário, no entanto, sequer teve tempo de festejar. Seus projetos foram atropelados pela hepatite B, que evoluiu para cirrose e se manifestou de forma intensa no ano seguinte. “Foi bem na hora que eu havia melhorado de vida”, diz. “Gastei toda a grana que tinha acabado de receber tentando recuperar a minha saúde”. Por causa da doença, ele não conseguia mais trabalhar e nem fazer as atividades básicas do dia a dia, como dirigir. Chegou a perder 20 quilos e foi totalmente desenganado pelos médicos. Um deles chegou a lhe dar dois meses de vida. “Jamais vou conseguir me esquecer daquele dia”, diz a mulher, Ana Lúcia Gontijo. “Me senti caindo no fundo do poço”.

 

Ricardo ainda se emociona ao recordar o passado e não segura as lágrimas: “Você não imagina o que é dormir pensando que não vai acordar no dia seguinte. Ninguém sabe o que é isso na cabeça de um homem”. Mas, obstinado – o que é característica marcante da sua personalidade –, ele não desistiu nem quando todos os diagnósticos jogavam contra. “Tive forças para garantir à minha mulher: eu não vou morrer, não vou deixar você sozinha. Quero criar os meus filhos”. Com a ajuda do médico mineiro João Galizze Filho, foi buscar a cura nos Estados Unidos. Conseguiu ser atendido por um dos mais renomados especialistas do mundo, Tomaz Starzl, que justo naquele momento testava medicamento contra o vírus da hepatite B. Ricardo se dispôs a ser voluntário e tornou-se o único entre os cinco participantes da experiência (os demais eram dois americanos, além de um árabe e outro grego) a sobreviver após o transplante do fígado. “O otimismo com o qual encara a vida ajudou a curá-lo”, acredita Ana Lúcia.

 

Depois da cirurgia, não foi apenas Ricardo, mas também a Direcional, que ganhou vida nova. Ele reassumiu o comando da empresa – que havia ficado a cargo do irmão mais novo, Ronaldo – e não teve dúvidas em partir para expansão. “Cheguei ao Brasil em um sábado e na segunda comecei a trabalhar”, conta. “Estava com um ânimo danado e queria fazer coisas novas”. Não demorou para a Direcional se posicionar com uma das mais atuantes construtoras brasileiras no segmento de populares.

 

Ricardo com a esposa, Ana Lúcia; os filhos Ricardo e Ana Carolina; e o único neto, Ricardinho: união da família ajudou a superar a doença
 

 

Em 2007, parte das ações da empresa (25%) foi vendida para o fundo de investimentos paulista Targon, e a abertura de capital se deu em 2009. Atualmente, a família Valadares detém metade do capital da empresa e é responsável por toda a gestão. “Nunca estivemos tão bem posicionados”, diz o filho, Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo, engenheiro e diretor comercial da construtora. “Se não formos prejudicados pelo cenário de crise, vamos continuar crescendo em ritmo acelerado”.

 

O sucesso da construtora está amparado em estratégia exclusiva. É uma das poucas do país que constrói para o segmento de baixíssima renda (0 a 3 salários mínimos), chamado de superpopular. Quase 60% dos negócios da empresa são imóveis para esse nicho, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, que conta o apoio do governo federal. Bem focada neste segmento, cresceu erguendo grandes empreendimentos em locais onde os terrenos ainda não haviam sofrido especulação imobiliária, especialmente em mercados emergentes como os da região norte do país, e sempre trabalhando em escala. Assim, reduziu o custo de produção e consegue oferecer ao mercado apartamentos de 43 mil metros quadrados pelo preço médio de R$ 46 mil.

 

Não é à toa que a empresa venceu a concorrência para erguer o maior empreendimento superpopular em construção hoje no mundo, o conjunto de apartamentos Meu Orgulho, em Manaus, que na primeira fase terá 3.500 moradias. Hoje, a Direcional consegue levantar por dia, só no canteiro de obras em Manaus, 32 apartamentos – e deixá-los totalmente prontos.

 

Considerando ainda outras obras para a baixa renda que tem em Contagem e no Rio de Janeiro, atualmente a Direcional ergue, diariamente, 56 apartamentos. A meta é de chegar a 200 unidades diárias até 2013.

 

O foco no superpopular, mercado pouco priorizado por grandes construtoras, é visto com bons olhos por especialistas. Mesmo porque este é o segmento que terá investimento cativo do governo federal nos próximos anos. A Planner Corretora, de São Paulo, aponta a Direcional como uma das construtoras da faixa popular com maior potencial de crescimento. Quem conhece bem o ramo imobiliário em Minas também avalia a empresa como uma das mais promissoras. “É a construtora mineira que tem o maior banco de terrenos na capital, o que significa que tende a aumentar o seu valor geral de vendas”, diz Ricardo Pitchon, maior vendedor de imóveis de Belo Horizonte, dono da Gribel Pactual. “E mais: seus imóveis são fáceis de vender”.

 

Obstinado com o trabalho, Ricardo Gontijo é do tipo que não desliga. Mantém o foco nos negócios – trabalha, segundo afirma, 15 horas por dia – mas consegue conciliar a satisfação de ver a empresa deslanchar com o prazer de dedicar momentos à família. Jamais deixa de viajar em férias com os filhos e gostar de reunir parentes e amigos na fazenda que ele próprio projetou no Acre, uma de suas paixões – uma imensidão de terras que soma 35 mil hectares numa das regiões mais valorizadas daquele estado, e para onde faz questão de ir ao menos uma vez por mês. "Lá é meu descanso. Esqueço de todos os problemas", diz. Também lá (na fazenda) não abre mão de brincar com o único neto, Ricardinho – outra de suas paixões.

 

Benedito Valadares, tio e primeiro patrão: “Ricardo é do tipo raro, que não nasce com frequência”
 

 

Mas a vida do empresário teve também suas marcas de tristeza. Uma delas foi ver a morte do irmão Roberto, médico pediatra, vítima da mesma hepatite B. Roberto chegou a fazer o mesmo transplante de fígado, em 2004, mas faleceu no ano seguinte, aos 47 anos, como boa parte dos transplantados. O mais velho dos irmãos, José Celso, engenheiro e dono de construtora em Brasília, é outro que convive com o vírus da doença, mas, felizmente, não precisou fazer transplante.

 

Por tudo, não há nada que deixe Ricardo mais emocionado do que se lembrar do pai, da sina dos irmãos, da própria luta contra a doença. Ainda hoje depende de remédios controlados, mas se sente absolutamente saudável. E vitorioso. Homem de grande fé, credita a Jesus o mérito de todas as suas realizações. “Meu pai é muito determinado”, diz a filha Ana Carolina, gerente de finanças da Direcional. Formada em direito, ela agora está prestes a concluir o curso de engenharia. “O otimismo e a garra dele são minhas inspiraçãões para o dia a dia”, afirma. E imaginar que tudo pode ter sido provocado por uma simples lâmina de barbear. "Quando penso no passado que vivi, adquiro mais forças para trabalhar no futuro", diz Ricardo, de olhos marejados, olhando a foto do neto sobre sua mesa.

 

 

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