100 anos para se orgulhar

por Marcelo Fiuza 10/11/2011 13:23

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Zênio Souza/CBMMG, Divulgação/CBMMG, Cláudio Cunha, João Carlos Martins
Bombeiro carrega criança em BH: trabalho homenageado pela população da cidade e do estado (foto: Zênio Souza/CBMMG, Divulgação/CBMMG, Cláudio Cunha, João Carlos Martins)

Para o cidadão comum, o bombeiro é a materialização do lado bom do ser humano. O compositor mineiro Fernando Brant sabia disso ao escrever os versos de “O Soldado da Vida”, poema-homenagem que se lê em uma placa na entrada do 2º Batalhão da tropa, em Contagem. “A crença na humanidade cresce no afeto dos braços solidários”, diz o poeta sobre essa qualidade rara de gente que se submete aos maiores riscos, ao fogo, à altura e à água em prol do outro.

 

Natural, portanto, que o centenário do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais seja marcado por todo tipo de honrarias prestadas pelos mais diversos setores da sociedade. Afinal, difícil é encontrar quem não admire ou mesmo idolatre a coragem e o altruísmo dos chamados soldados do fogo. Homenagens foram prestadas no Congresso Nacional, na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal de Belo Horizonte. Os correios fazem circular um selo comemorativo este ano, e caminhadas, jogos, desfiles de moto e cavalgadas aconteceram em várias cidades do estado.

 

Todos os eventos lembram uma história que começou no dia 31 de agosto de 1911, quando o então presidente do Estado, Júlio Bueno Brandão, criou a seção bombeiros, anexada ao 1º Batalhão da Força Pública. De lá para cá, a corporação participou de todos os fatos relevantes dos mineiros, sempre presente nos melhores e nos piores momentos. Atuou na Revolução de 30, expandiu-se para o interior, conquistou autonomia ante a Polícia Militar, viu chegar as mulheres às suas fileiras e completa 100 anos desfrutando de 84% de confiança junto à população, segundo pesquisa recente realizada pela Secretaria de Estado de Defesa Social e pela Fundação João Pinheiro.

 

Desabamento da Vila Barraginha, em 18 de março de 1992: solidariedade entre os bombeiros e a população
 

 

Para conquistar esse reconhecimento, foram inúmeras as situações em que fez a diferença o trabalho abnegado de um desses “soldados da vida” idealizados pelo poeta. Como no resgate da recém-nascida Júlia Silvia Souza, restirada ilesa das ferragens de um acidente automobilístico na rodovia BR-381 que a deixou órfã. O pronto salvamento foi comandado pelo jovem tenente Davi Lucas Soares que, diz ele, apenas seguiu o manual à risca. “Foi a primeira ocorrência que atendi envolvendo criança. O carro estava sob um caminhão. Pedi isolamento e silêncio, deitei sob as ferragens e ouvi a menina chorando. Içamos a carreta, retiramos os corpos e ela estava embaixo, sem machucados. Foi emocionante”, afirma o oficial.

 

Passados cinco anos, Soares ainda visita regularmente Júlia, que o chama de “tio”, para orgulho dos avós da criança. “É muito gratificante ter o Davi por perto”, diz Aparecida de Oliveira, 63, avó de Júlia. “O acidente é uma lembrança triste, mas o carinho que ele tem com a menina nos dá forças”, explica Aparecida.

 

Às vezes, contudo, nem todo amparo de um “abraço solidário” é suficiente para aplacar a dor da perda – que, infelizmente, acontece em uma atividade que lida diariamente com o perigo. Alguma dessas tragédias marcaram para sempre a história do CBMMG, como o incêndio no edifício Arcângelo Maletta, em 1961, no qual o tenente coronel João Batista de Assis morreu. Autor da “Canção do Bombeiro”, Assis integra a honrada lista dos 24 militares que perderam suas vidas em serviço no último século. Muitos deles estão sepultados no mausoléu da corporação, no cemitério do Bonfim, na capital.

 

Resgate das vítimas do desabamento do Morro das Pedras, em 16 de janeiro de 2003
 

 

Apesar de tanta bravura, os próprios bombeiros são os primeiros a deixar bem claro que a corporação não é uma casa de heróis, mas, sim, um local em que a técnica e o espírito de equipe são o mais importante. “O medo é a ferramenta de segurança do bombeiro. Quem diz que não tem medo, vira estatística. Bombeiro que acha que é o super-homem e despreza a experiência dos mais velhos quebra a cara, literalmente”, ensina o coronel Teixeira, ele próprio admirado entre os iguais.

 

Bisneto de um dos fundadores da Força Pública de Minas Gerais e quarta geração de militares de sua família, Teixeira ficou mundialmente famoso em 1993 ao impedir um suicida de pular do edifício Acaiaca com um ousado salto de corda. Durante a carreira na tropa, ele escreveu vários dos manuais de procedimento operacionais do CBMMG, desenvolveu o atual sistema de resgate e criou, inclusive, a laçada que lhe permitiu descer com uma corda e agarrar outra pessoa no ar, no chamado “voo da vida”. “Essa é uma profissão que exige vocação. Quem escolhe ser bombeiro não o faz para ter um emprego. É uma opção de vida”, afirma o coronel.

 

Mesmo porque, na hora da emergência, não é o soldo que importa. É a vida. Nesse sentido, nenhuma ocorrência nesses cem anos marcou tanto os soldados como o desastre do parque de exposições da Gameleira, em 1971, quando as vigas de sustentação de um pavilhão em obras cederam, matando 70 operários e soterrando outras centenas deles. Aqui, novamente, a capacidade de superação da tropa se fez valer. Foram dias de trabalho incansável até que o último homem fosse retirado dos escombros, como lembra o sargento reformado Alicério Ferraz. “Tivemos de amputar membros para retirar as pessoas”, recorda-se.

 

Enchentes que atingiram BH e região em 1947: até os anos 1990, transbordamentos do ribeirão Arrudas eram comuns na capital
 

 

Assim como Teixeira, Ferraz também ficou conhecido na cidade por escalar o edifício Acaiaca. Mas, no caso, não foi para um salvamento e, sim, para uma travessia da avenida Afonso Pena por corda, em 1961, durante uma demonstração pública da expertise da recém-criada Companhia de Prevenção, Salvamento e Proteção (CPSP), especializada em alpinismo e mergulho. “Tive a oportunidade que bombeiro algum vai ter. Trabalhei a vida toda no salvamento e, a serviço, visitei todos os rios de Minas, da nascente ao afluente”, diz o sargento.

 

Atualmente, porém, a tendência é que tais acontecimentos ocorram com cada vez menos frequência e intensidade. Isso se deve a uma mudança significativa de estratégia da corporação nas últimas décadas, a de investir sistematicamente em medidas preventivas. Comandante geral dos bombeiros, o coronel Silvio Melo cita o velho adágio do bombeiro para exemplificar a lógica vigente: “Quando a prevenção falha, o sinistro acontece”. “A tragédia é uma atuação excepcional. O bombeiro moderno atua preventivamente, conhece a realidade de um estado com metrópoles, cidades históricas, indústrias e muitos rios e lagos”, diz o comandante, justificando a adoção do Serviço de Segurança Contra Incêndio e Pânico, atual carro-chefe do trabalho da corporação.

 

Reforçado pela lei 14.130, de 2001, e pelo decreto 44.746, de 2008, que conferem poder de polícia à instituição para a realização de vistorias, aplicação de multas, interdição e fechamento de edificações, o serviço reduziu consideravelmente o número de desastres no estado na última década. Em 2010, 25% das 294 mil ocorrências anuais foram ações de prevenção. Apenas 6% eram incêndios.

 

Histórico incêndio na livraria Rex, no centro de BH, em 1977: sem vítimas fatais, graças à aquisição de equipamentos modernos e trabalho de mais de seis horas
 

 

Essa política ganhou ainda mais fôlego a partir da instituição, em 2004, da Taxa de Incêndio para estabelecimentos comerciais. O tributo já destinou R$ 223 milhões à corporação, que promoveu com os recursos uma renovação geral da frota. A média de idade dos veículos, que era de 14 anos, caiu para 7, e o total de viaturas dobrou, passando para as 1.047 atuais. As unidades possuem modernos equipamentos e são capazes de prestar tanto serviços de prevenção como de combate a incêndio, salvamento e atendimento pré-hospitalar. A tripulação conta com profissionais técnicos em emergências médicas. Desde 2007, o Batalhão de Operações Aéreas dá cobertura e suporte com dois helicópteros e um avião. Alternativa para o trânsito lento das grandes cidades, o serviço de Moto Resgate agilizou o atendimento nos casos mais urgentes.

 

Hoje com 5.600 militares distribuídos por 54 municípios e dez batalhões que cobrem 75% do território mineiro, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais chega ao centésimo ano de vida preparado para novos desafios e comemorando conquistas. Em março deste ano, foi inaugurada a sede prórpipria da Academia de Bombeiros Militar e o curso de formação de oficiais foi reconhecido como bacharelado de nível superior.

 

Além disso, a nova turma do concurso de oficiais vai se formar, em 2014, terá os primeiros bacharéis de Minas Gerais em ciências militares – prevenção e gestão de catástrofes. Certamente será mais um grupo de “humanos com jeito de anjo, que nos guardam e nos ensinam a preservar o melhor que somos, o melhor que temos”, como já dizia Fernando Brant.

 

 
 
 

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