O menino e os tempos

por Patrus Ananias 29/11/2011 04:32

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A roda do tempo não para. Ele vai que vai, silencioso, discreto, devagar e sempre, colhendo segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios... E nós, pobres mortais, de rápida passagem por este mundo, nos consumimos no esforço vão de enquadrá-lo e compreendê-lo. Gostaríamos de ser senhores do tempo. Mas, como não podemos detê-lo, corremos atrás de sua miragem fugitiva. O tempo está nos cálculos da matemática e da física; nos experimentos da química; nas manifestações e ciclos biológicos. Acompanha-nos, sobretudo, nas marcas do corpo: “Eu não tinha este rosto de hoje... Em que espelho ficou perdida a minha face?”. Acompanha-nos e nos interpela nas dobras sinuosas e esquivas dos alargados territórios do inconsciente. O tempo dos fragmentos, dos sinais e dos desvãos; o tempo do esquecimento.

 

A psicanálise e a filosofia escarafuncham o tempo. O que dizer então da história? Assim como os historiadores, os memorialistas tentam reaver o tempo. Em Busca do Tempo Perdido é o título que Marcel Proust deu à sua obra portentosa de sete volumes. O último é O Tempo Redescoberto. O tempo de Proust transcende o cronológico; é também o tempo da imaginação, dos sonhos, do que poderia ter sido; do que foi – não foi?

 

O Tempo e o Vento é o grande romance de compatriotas gaúchos, produzido pela bela narrativa de Érico Veríssimo. O tempo é a matéria-prima de Pedro Nava. Em Tempo de Voo, de Bartolomeu Campos de Queirós, é o personagem principal, surgindo em formas de várias metáforas em todo o livro. É presença sutil, coesionadora, entretanto, das obras de Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade. Está na esplêndida música popular brasileira, a partir de Minas, com Ary Barroso – “Mas o tempo passou / Essa terra secou... ô ô / A velhice chegou e o brinquedo quebrou...” – e Ataulfo Alves – “Eu daria tudo que eu tivesse / pra voltar aos dias de criança”.

 

Essas indagações e reflexões sobre o tempo me voltam todos os anos quando “de repente, não mais que de repente”, começam a brilhar luzes nas lojas, nas ruas, nas cidades, no olhar das pessoas, anunciando que o ano está se esvaindo e que o Natal, mais uma vez, se anuncia. Existem, é fato, os excessos consumistas, tantos desvarios. Mas o tempo, sem alardes, se impõe aos que não abdicaram da tarefa amorosa de pensar e sentir.

 

O fim de mais um ano – passou assim tão depressa! – nos coloca o limite e a infinitude do tempo. O Natal é o acerto entre o que se fecha e o que se abre, anunciando o Ano Novo. Para os crentes, a irrupção do Menino é a submissão do tempo a uma lei maior que o transcende. O Menino cresceu e calçou “as lindas sandálias do bem”, as “sandálias do pescador”; tornou-se, na linguagem de uma época, o Príncipe da Paz; na linguagem franciscana ou gandhiana dos pobres, o peregrino da paz, o servo de todos, como nos ensina o texto do Evangelho. Em torno dele encontram-se crentes e não-crentes movidos pela compaixão, pelo desejo do bem e da vida plena para todos.

 

O Menino se faz homem e encarna as virtudes que dão o sentido do tempo, fazendo-o mais amoroso na tenda passageira dos humanos. É o tempo de celebrar o amor e buscar a compreensão do outro na construção de tempos mais convivenciais. Tempo de construção da paz, de perdoar as ofensas, de compartilhar a dor e o sofrimento dos pobres.

 

Albert Schweitzer, médico e pensador alemão da primeira metade do século XX, lançou o desafio que deve unir todas as pessoas de bem, a partir de uma frase apenas aparentemente paradoxal: “Perdi a fé; é hora de seguir Jesus”. Schweitzer conhecia Jesus e sabia que ele “foi o de não sair mais da memória. Foi um caso sem comparação”, nas palavras de Guimarães Rosa. Com Ele a gente vive o tempo de construir o tempo dos meninos de amanhã. O tempo sem tempo da alegria e da boa convivência.

 

* Patrus Ananias é advogado e professor. Foi prefeito de BH e ministro do Desenvolvimento Social. Escreve mensalmente na Encontro

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