O semeador de ideias

por João Pombo Barile e André Lamounier 08/12/2011 12:58

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Perfil: Flávio Pentagna Guimarães

 

“Não sou o personagem principal desta história. O grande responsável pelo sucesso e crescimento do banco é meu pai. Ele é o grande capitão do barco”. A frase de Ricardo Guimarães não deixa dúvidas: aos 83 anos, o patriarca Flávio Guimarães ainda continua, nos bastidores, no comando do BMG.

 

Doutor Flávio, como é tratado de forma respeitosa e com carinho pelos funcionários do banco, relativiza seu poder e importância. “Venho quase todos os dias ao banco. De manhã e de tarde. Gosto do que faço. Mas hoje, cuido mais dos projetos futuros da empresa”, afirma, de maneira modesta. “Quem toca o banco é mesmo o Ricardo. Ele é um excelente administrador. Sempre foi assim desde pequeno, muito organizado e disciplinado”, elogia o pai, orgulhoso do filho.

 

Talento que Ricardo parece ter herdado de família. Seu bisavô, Benjamim Guimarães, é um dos personagens mais interessantes da história do empreendedorismo do estado. Mineiro de Bom Sucesso, ainda muito jovem mudou-se para a cidade de Valença, no interior do estado do Rio. No início do século passado, criou a fábrica de tecidos Ferreira Guimarães. Homem sempre ligado à filantropia, fundaria o Hospital da Baleia, hoje referência na cidade.

 

Ricardo Guimarães com o filho Flávio Neto, a filha Daniela e a mulher Cláudia: "meu pai é o grande capitão do barco", diz Ricardo
 

 

O filho de Benjamim, o médico Antônio Mourão Guimarães, acabaria se fixando em Belo Horizonte. E teria o mesmo faro de negócios do pai: em 1930, fundou o Banco de Minas Gerais, daí o nome BMG. Nos anos 1940, contra a vontade do velho Benjamim – que achava o lugar “muito longe da Belo Horizonte” –, acabaria comprando uma grande fazenda numa região chamada Lagoa Seca. Resumo da ópera? Aquele “distante lugar” acabaria se transformando no bairro do Belvedere, dos mais nobres da capital na atualidade. “Meu pai sempre foi um homem simples, trabalhador e de visão”, rememora doutor Flávio. “Viveu numa época em que aqui, em Minas, se criaram muitos bancos. O banco do embaixador Walter Moreira Salles (Unibanco), o Clemente Faria (Banco da Lavoura e que depois se transformaria no Real e Bandeirantes)...”, conta.

 

A simplicidade do médico Antônio é hoje, sem sombra de dúvida, uma marca registrada desta família. Tanto Flávio quanto seu filho Ricardo e os netos, Flavinho – nome dado em homenagem ao avô – e Daniela são impressionantemente simples. Quem os conhece sabe disso. “Se existe uma simplicidade máxima, ela reside ali”, diz o empresário Rubens Menin, atleticano, ele próprio outro exemplo de simplicidade, em referência a Ricardo, amigo de longa data. Com ele, Menin frequentou estádios de futebol no passado, disputou inúmeras partidas de tênis e hoje divide bons vinhos à mesa e muitas histórias de empreendedorismo.

 

Rubens Menin, empresário: ele não poupa elogios à família Guimarães: “Se existe uma simplicidade máxima, ela reside ali”
 

 

O jeito simples de conviver com os diferentes e a sensibilidade empresarial herdadas do pai Antônio fariam com que doutor Flávio começasse a perceber que o mercado de crédito para os mais pobres no Brasil praticamente não existia. Apesar de estatisticamente serem os mais pontuais no pagamento de suas dívidas, o sistema financeiro brasileiro sempre teve forte preconceito – quase desprezo – em emprestar dinheiro para os socialmente menos favorecidos. Percebendo o forte crescimento das classes C e D no país na última década, o experiente banqueiro resolveu investir.

 

“Sempre achei um absurdo a dificuldade de os mais simples conseguirem empréstimos”, diz Flávio. “A maior parte dos bancos no país não se interessava por este cliente, que, geralmente, precisa de pequenos valores (o valor médio dos empréstimos é de 3 mil reais)”, diz.

 

Bom, se os grandes não estão interessados, este é justo o prato-cheio que apetece Flávio Pentagna Guimarães. Há um episódio que narra bem este estilo de doutor Flávio. Em 2007, ele recebeu visita do cônsul da República Africana do Congo, que foi lhe apresentar o país como alternativa de investimento. Disse-lhe que o Congo era um país de contradições, muito rico em reservas minerais, mas seu povo era – e ainda é – absolutamente pobre. Flávio pediu para um de seus assessores visitar o país e apresentar-lhe um relatório. O executivo voltou e lhe disse: “há muito o que se fazer, mas a insegurança jurídica é absoluta e os riscos, altíssimos. Por isso, ninguém investe lá”. Flávio ouviu e respondeu ao assessor: “Pois é neste mercado que está lá em baixo, que ninguém quer, que estão as melhores oportunidades”.

 

Benjamim Guimarães, bisavô de Ricardo, deu nome ao barco a vapor que ainda hoje navega pelo Rio São Francisco: um dos personagens mais interessantes da história do empreendedorismo do estado, ele fundou o Hospital da Baleia
 

 

Foi com esse espírito que, a partir de 1997, doutor Flávio ordenou que a artilharia de seu exército fosse apontada para uma nova modalidade de crédito que emergia no sistema financeiro brasileiro: o crédito consignado, um tipo de operação financeira de baixo custo para quem toma o dinheiro, porque tem baixo risco de inadimplência para quem empresta, já que as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento dos devedores. No principio, o banco investiu soma modesta: apenas R$ 300 mil. Em seis meses de operações, o sucesso já era absoluto. “Lembro que tinha fila de virar o quarteirão na sede no nosso prédio lá do Rio de Janeiro”, conta o banqueiro Flávio.

 

Os R$ 300 mil acabaram crescendo. Crescendo muito. Hoje, a empresa empresta cerca de R$ 23 bilhões apenas nesta modalidade de crédito. O BMG deixou de ser um pequeno banco para tornar-se um líder e um exemplo. Todo mundo quis correr atrás. Os bancos grandes lançaram o produto e a competição ficou mais franca. Mas nada que ameaçasse a hegemonia e o vigor do banco mineiro, hoje responsável por 18% do mercado de consignados. Mais: se analisado todo o mercado de crédito financeiro pessoal no Brasil, o BMG responde por 10% do montante. Traduzindo em miúdos: o banco passou a ter enorme relevância social e econômica. Hoje, pode-se afirmar sem risco que o BMG é um dos pilares que sustenta a economia do país.

 

Emprestando dinheiro em altíssima escala, as taxas de juros puderam cair. Já foram de quase 5% ao mês em 2004, e hoje valem pouco mais de 2% ao mês. Taxas em baixa, rentabilidade também, correto? Não no caso do BMG. A instituição também é um fenômeno de resultado. Segundo o anuário Valor 1000, do jornal Valor Econômico, o banco ocupou o primeiro lugar no ranking dos 20 bancos mais rentáveis sobre o patrimônio do país, em 2010. “O crescimento do BMG é mesmo assustador”, diz o economista Walter Victorino, da Fumec.

 

 

 

Engenheiro civil de formação, banqueiro por vocação, Flávio Pentagna Guimarães é um tipo que não para. A despeito dos 83 anos, vive à caça de oportunidades para investir. Nos últimos anos, já se meteu num sem número de negócios, a maioria inovadores, sua especialidade. Atualmente, anda entusiasmado com as fontes alternativas de energia. Neste ano, o grupo BMG venceu um leilão para a construção de quatro parques de energia eólica no Nordeste: dois no Ceará e dois no Rio Grande do Norte. No total, eles vão gerar juntos 330 mil MWh (megawatts/hora) por ano, a partir de julho de 2014. O consórcio Famosa, formado pelo BMG e pela empresa de projetos Ventos Tecnologia, tem participação de 51% no negócio. Furnas detém os 49% restantes.

 

Reservado, extremamente educado e gentil,doutor Flávio é desse tipo de homens que a gente costuma dizer que “não existe mais”. Mas, acima de tudo, é um visionário. Desses que acreditam no Brasil e no futuro. Tem negócios nos setores agropecuários (café, cereais, pecuária e reflorestamento); alimentício (é dele uma das maiores processadoras de milho verde do mundo, a Brasfrigo, um gigante no setor de alimentos); imobiliários; tecnologia e de saúde. “Ele não tem parâmetro”, diz o ex-sócio Mauro Baleeiro. “É um dos homens que mais admiro e respeito”. Atente para o autor da frase: seu ex-sócio. Baleeiro tinha uma empresa que atuava no setor elétrico, a Damp Electric. O negócio ia de vento em popa, diz o ex-sócio Mauro Baleeiro. Procurou um banco, conheceu Flávio P. Guimarães e o BMG passou a apoiar financeiramente a empresa.

 

Um ano depois, em 2006, doutor Flávio chama seu credor Mauro para uma conversa. “Quero ser seu sócio. Posso?”. Comprou 90% da companhia e, três anos depois, os 10% restantes. “Ele é extraordinário, um otimista inigualável”, diz Baleeiro. “Eu me sentia pequeno, diante da grandeza, coragem e altivez daquele homem”. Durante o período em que foram sócios, as únicas divergências que tiveram diziam respeito à ousadia de doutor Flávio. “Esse mercado de energia é cheio de oportunidade. Certa vez, discutíamos sobre uma dessas oportunidades e eu fiquei com medo de investir. Ele me disse: ‘Medo de quê? Vamos encarar’.”

 

Destemido, a inquietação por novos negócios parece ser uma espécie de bálsamo que mantém Flávio P. Guimarães ativo e acesso. Quanto mais inusitado o empreendimento parece ser, mais faz brilhar os olhos do banqueiro. Há alguns anos ele conheceu um japonês, inventor de um fogão gerador de energia. Ficou sócio. Construiu uma fábrica e espalhou a máquina em diversas regiões carentes do Brasil, sobretudo na Amazônia. A engenhoca depois despertou a curiosidade de outros grandes empresários, como Norberto Odebrecht, que chamou doutor Flávio para uma conversa em sua fazenda na Bahia. A iniciativa do diálogo não prosperou, mas demonstra o espírito farejador de Flávio Guimarães. “Ele é um semeador de ideias, de coragem e de fé no Brasil”, resume Mauro Baleeiro. O filho Ricardo Guimarães realmente estava certo: ele é o personagem central desta história.

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