Os avessos de Minas

por Patrus Ananias 09/01/2012 09:33

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A contribuição de Minas Gerais ao Brasil e à civilização nos mais diversos campos do pensar e do fazer humanos está bem expressa nas obras dos nossos autores e construtores, bem como nos estudos e registros dos historiadores. No primeiro século da grande aventura mineira, duas personalidades notáveis traçaram os caminhos superiores de Minas nas artes e na política. Aleijadinho e Tiradentes, tão nossos na intimidade dos apelidos, foram universais. O primeiro, na expressão dramática de suas esculturas; o segundo, pregando ao Brasil, a partir de Minas, as novas e revolucionárias ideias de independência e liberdade.

 

Essa força cultural e civilizatória de Minas sempre foi dos bons assuntos que alimentaram a extensa prosa com o meu saudoso amigo, ele próprio uma das esplêndidas expressões culturais e intuidoras da nossa gente, José Maria Cançado. Foi numa dessas conversas que ele me falou da extraordinária contribuição do povo, dos trabalhadores, dos pobres, dos movimentos sociais.

 

Se prevaleceu a história oficial dos vencedores, vive o testemunho heróico – e por que também não vitorioso? – dos vencidos pelas armas, mas que ressuscitam no seu legado cultural e nos seus descendentes. Essa descendência, por força de nossa miscigenação racial e cultural, deu-se por vias nem sempre muito diretas. E assim tivemos um intelectual e militante político do porte de Darcy Ribeiro, aparentemente branco, assumindo por inteiro a causa indígena.

 

Logo chegamos às organizações sociais dos pobres e aos primeiros sindicatos de trabalhadores duramente reprimidos. Resgatamos as forças políticas e religiosas que com eles se articularam e impediram, entre outras pelejas bem-sucedidas, a realização do projeto inaugural de fazer da capital de Minas uma cidade onde ricos, classe média e pobres vivem bem apartados. Os pobres, fiéis à boa rebeldia mineira, não aceitaram e surgiram as associações de favelados, a União dos Trabalhadores da Periferia.

 

Na tradição cristã católica, onde Zé Maria e eu bebemos as primeiras águas, logo nos colocamos diante de duas grandes figuras de referência. José Gomes Pimenta, o Dazinho, e Edgar da Mata-Machado. Dazinho, negro, pobre, mineiro das minas de Morro Velho, líder operário e sindical, promoveu o encontro de cristãos, comunistas, socialistas, pessoas de boa vontade em torno do ideário da justiça social e da dignidade do trabalho e dos trabalhadores. Deputado estadual eleito em 1962, foi cassado, logo após o golpe de 1964, pelos próprios colegas da Assembleia Legislativa, juntamente com os outros dois deputados sindicalistas: Clodsmith Riani e Sinval Bambirra. O processo de cassação de seus mandatos nos recorda que ainda não extirpamos a sombra de Joaquim Silvério dos Reis.

 

Edgar, originário de família de classe média bem enraizada em Minas, fez a travessia na direção dos pobres, sempre do lado da justiça e da liberdade. Queria a economia a serviço da vida.

 

Combateu a ditadura de Getúlio Vargas, mas compreendeu a importância dos avanços sociais e das leis trabalhistas. Criou a Secretaria do Trabalho e Cultura Popular no governo Magalhães Pinto, com o apoio de partidos políticos e movimentos sociais comprometidos com as mudanças estruturais. Integrou-se aos que se opuseram desde o início à ordem imposta pelos vitoriosos de 1964. Elegeu-se deputado federal em 1966 pelo MDB, partido que congregava as forças oposicionistas. O seu mandato foi cassado com o Ato Institucional nº 5 – seguramente o mais repressivo texto normativo de nossa história. Assim como Dazinho, durante anos exerceu a mais vigorosa atitude de protesto: o protesto pelo silêncio. Um silêncio que gritava e protestava em cada gesto, em cada olhar.

 

Aleijadinho e Tiradentes deixaram muitos herdeiros que, assim como Dazinho e Edgar, permitem estender minha conversa com o Zé Maria a cada vez que me lembro dele – e deles.

 

* Patrus Ananias é advogado, professor e pesquisador. Foi prefeito de BH e ministro do Desenvolvimento Social. Escreve mensalmente na Encontro

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