"Desencantei com a política"

por João Pombo Barile 09/01/2012 10:51

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Maíra Vieira, Eugênio Gurgel
None (foto: Maíra Vieira, Eugênio Gurgel)

Quando, no início do ano passado, o médico José Rafael Guerra Pinto Coelho decidiu não mais se candidatar a deputado federal, alguns mineiros ficaram perplexos. Um dos homens públicos mais atuantes das últimas décadas e respeitado tanto pela esquerda quanto pela direita, principalmente quando o assunto é política pública de saúde, o doutor Rafael parecia não ter mais disposição e paciência para continuar atuando no desgastado Congresso Nacional. Uma perda irreparável para uma classe política tão desacreditada quanto a nossa.

 

Mas, desde que abandonou o parlamento, uma pergunta ficou no ar: por que a mais importante liderança da bancada da saúde resolveu sair de cena? Quebrando um silêncio de quase um ano, o doutor Rafael Guerra conversou com Encontro. Envolvido no projeto do curso de especialização de medicina esportiva – que a Faculdade de Ciências Médicas passa a oferecer a partir do primeiro semestre de 2012 –, o professor de várias gerações resolveu falar: “A política é uma função nobre. E sempre procurei fazer o meu melhor. Mas, infelizmente, não é assim que a sociedade vê a política”, conta.

 

Na entrevista a seguir, ele fala um pouco da sua trajetória, de sua experiência como deputado federal e de sua volta à Faculdade de Ciências Médicas, em Belo Horizonte.

 

 

 

ENCONTRO – O senhor sempre foi um dos mais respeitados parlamentares mineiros em Brasília, e no ano passado resolveu parar. Por quê?

RAFAEL GUERRA – A minha postura, no parlamento, sempre foi de respeito. E no ano passado, decidi sair. Sabe, é difícil sair. Você fica pensando: e agora? O que é que eu vou fazer amanhã? Não é fácil. Este primeiro ano não foi fácil para me adaptar. Além disso, estou com 68 anos. E começar a vida com esta idade não é fácil. Mas resolvi ficar mais em Belo Horizonte. E comecei, então, a auxiliar o governador Anastasia, mas, deixando claro, desde o início, que não estou disputando espaço com ninguém. Não estou trabalhando para conseguir voto daqui a três anos. Não quero mais ser secretário; estou aí para ajudar. Deixei uma boa imagem como secretário e acho que seria arriscado eu voltar, 12 anos mais velho e sem a mesma disposição. Prefiro dar uma assessoria ao governador nos consórcios de saúde e em outros tipos de consórcios.

 

ENCONTRO – O senhor, na verdade, entrou tarde para a política, não é mesmo?

RAFAEL GUERRA – Entrei. Toda minha vida sempre foi como médico e professor da Faculdade de Ciências Médicas. Nesta atividade, trabalhei por 30 anos: na Santa Casa, tive consultório, fui médico do Ipsemg... Embora, é claro, eu sempre tivesse certa vocação para a política: no tempo de estudante eu fui da JEC [Juventude Estudantil Católica] e depois da JUC [Juventude Universitária Católica]. Naquela época, ainda estudante de medicina, também fui militante da AP [Ação Popular, grupo de esquerda dos anos de 1960], mas acabei preso. E isto tudo significou uma grande desilusão para mim. Estávamos sonhando com um país melhor. E fomos presos e reprimidos. Resolvi então só mexer com Medicina. Fui para a Universidade de Illinois, em Chicago e, durante um ano, trabalhei como pesquisador. Investi então na minha carreira de médico. Isto em 1968, quando voltei para o Brasil, e resolvi só mexer com medicina. Só voltei para a política em 1987, quando fui eleito diretor da Faculdade de Ciências Médicas. Nesta época, comecei a organizar um projeto de interiorização de nossos alunos.

 

ENCONTRO – Foi a época que o senhor criou o internato rural na Ciências Médicas...

RAFAEL GUERRA – Exato. Os alunos ficavam dois meses em sistema de rodízio em duas cidades. Nesta época, assumimos a administração de dois hospitais no interior: em Moema e em Santo Antônio do Amparo. Atendíamos de graça, pelo SUS. E isto acabou chamando a atenção da região inteira. Vinha gente de toda a região. Daí nasceram os consórcios de saúde. Depois que passamos a atender a quase 15 municípios, surgiu a idéia de fazermos o consórcio.

 

ENCONTRO – O projeto de Lei dos Consórcios Intermunicipais em geral (estendido a diversos setores como infraestrutura, meio ambiente, saneamento, turismo) foi o único projeto de um deputado da oposição sancionado pelo ex-presidente Lula, não é verdade?

RAFAEL GUERRA – Foi. Embora o Lula não tenha me convidado para a cerimônia da assinatura. Mas pelo menos assinou. Mas como eu estava dizendo, nesta época, no meio dos anos 1980, acabei me filiando ao PSDB. Eu era um grande admirador do Mário Covas e acabei ajudando na elaboração do programa do Pimenta da Veiga e depois do Eduardo Azeredo. Foi assim que nasceram os consórcios e o programa de Saúde da Família. Dois programas que são hoje reconhecidos e adotados em todo o país. Vinte anos depois, os dois programas são a base dos programas de Saúde no Brasil. Foi então que acabei sendo convidado para ser secretário de Saúde.

 

ENCONTRO – E foi assim que o senhor acabou entrando para o mundo da política...

RAFAEL GUERRA – Isso. E a minha intenção sempre foi esta: servir o bem comum. Como, aliás, toda profissão: o médico, o jornalista, padre, advogado, padeiro. Para mim, a política é uma função nobre. E sempre procurei fazer o meu melhor. Mas, infelizmente, não é assim que a sociedade vê a política. A sociedade não entende desta maneira. E o que é mais grave: se a sociedade não entende, os políticos também acabam não entendendo. A política tem uma função nobre. E sempre procurei fazer o meu melhor.

 

ENCONTRO – O senhor presidiu a Frente Parlamentar de Saúde de 2003 até 2009. Como foi esta experiência?

RAFAEL GUERRA – Foi muito importante para mim. Era bom que esta frente tivesse todos os partidos e que não fosse atrelada ao governo, que não fosse o seu capacho, que tivesse certa independência. Fui eleito por aclamação. Na Frente, fiz muita coisa. Te dou um exemplo. A angioplastia. Este era um procedimento que o SUS não pagava. O SUS só pagava a ponte de safena. O sujeito tinha de abrir o peito, fazer uma cirurgia muito mais agressiva e tal. Uma cirurgia que o paciente fica até cinco dias na UTI e fica mais de dois meses sem trabalhar. Ou seja: uma cirurgia que era muito mais cara para o governo. Eu, então, questionei: por que o SUS não faz angioplastia? É só para rico? Uma cirurgia muito menos violenta e mais barata, mas o SUS resistia. Até que o ex-governador de São Paulo, Franco Montoro, teve um enfarte. Na época, ele era deputado. E fizeram então a angioplastia nele. Foi então que eu centrei fogo na questão e fui até o Ministério da Saúde e disse claramente: gente, o que eu estou pedindo é que toda a população tenha o mesmo direito do Montoro. Que as pessoas tenham o direito de fazer angioplastia. A questão é médica. Não é uma decisão que deve ser tomada por um burocrata de gabinete. E conseguimos aprovar. Hoje, a angioplastia é um procedimento do SUS.

 

ENCONTRO – O senhor ainda não respondeu: por não quis ser mais deputado?

RAFAEL GUERRA – Para um cirurgião, que é o que eu sempre fui, ser deputado era meio frustrante. As coisas demoram para acontecer. Este projeto de consórcio, por exemplo, que hoje é reconhecido nacionalmente, ficou sete anos para ser aprovado. Sete anos. As coisas são muito lentas. E tem mais: na política brasileira, as coisas estão se complicando. Política feita com ideal está cada vez mais difícil de ser feita. O mensalão, esta barganha por cargos que tomou a política nos últimos anos, está colocando a política num nível muito baixo. Hoje, o político não tem o respeito e a consideração pela sociedade como ele devia ter. Se eu estiver andando na rua e alguém gritar: “ô deputado”... muita gente vai pensar que eu sou “Geni”. Tudo está muito nivelado por baixo. Meu encanto pela política foi se perdendo. Hoje tenho 68 anos, 12 netos. Na minha última campanha, eu visitei 120 municípios. A política exige um grande sacrifício, um massacre. Além disso, os custos de uma campanha aumentaram muito.

 

ENCONTRO – Quando custa eleger um deputado hoje?

RAFAEL GUERRA – Com menos de um milhão, um milhão e meio, não é possível eleger ninguém, não. E isto para uma campanha de alguém como eu, que já tenho certa projeção. Sei que existem campanhas aí que custam muito mais.

 

ENCONTRO – Um investimento que não tem retorno financeiro...

RAFAEL GUERRA – Evidente que não. E este é o grande problema. Se nós ainda tivéssemos uma cultura como nos EUA...Você se lembra que na campanha do Obama as pessoas doavam dinheiro para a campanha pela internet? Mas no Brasil, infelizmente, ainda não há este grau de consciência.

 

ENCONTRO – Mas, se a realidade é esta, qual é então o futuro da política?

RAFAEL GUERRA – O problema todo é que o sistema eleitoral brasileiro está ficando cada vez mais difícil, mais complexo e mais caro. Eu, no meu último mandato, deixei lá um projeto para voto distrital. Um projeto muito simples. Por que as coisas hoje não mudam? Porque o deputado tem medo de mudar a regra pela qual foi eleito. Então as coisas não mudam. A minha proposta é muito simples: voto distrital puro nas eleições municipais do ano que vem em todos os municípios de mais de 50 mil habitantes. Um teste para o voto distrital. Cada partido teria um candidato por bairro ou região da cidade. Assim, o deputado iria aprender a trabalhar com a comunidade. O problema todo é que se fazem muitas propostas de mudança para a reforma eleitoral, mas não acaba saindo nenhuma.

 

ENCONTRO – O fundo público para campanha não seria a solução?

RAFAEL GUERRA – Não acredito. O financiamento público, na verdade, é uma conversa de quem não quer resolver a questão. Nós já temos um grande financiamento público. O horário gratuito, por exemplo, é caríssimo. A história de que o financiamento público vai ajudar os candidatos mais pobres é conversa.

 

ENCONTRO – Quando o senhor, no ano passado, disse que não iria mais fazer política, muita gente não acreditou...

RAFAEL GUERRA – É verdade. Em abril do ano passado conversei com o governador Antonio Anastasia e comuniquei minha decisão de sair. Já tinha conversado antes com o Aécio. Ele não acreditava que eu fosse sair. Mas em abril, expliquei ao Anastasia todas estas questões. Queria ficar em Minas. Ele me disse, então, que achava uma perda enorme para Minas e para o Brasil. Mas que respeitava minha decisão. Eu hoje trabalho assessorando o governador Anastasia. Estou cuidando da saúde e dos consórcios em geral.

 

ENCONTRO – O senhor, no entanto, ainda acompanha o debate político? O que achou da aprovação da emenda 29?

RAFAEL GUERRA – Olha, uma coisa que tem que ficar bem clara é que a saúde nunca foi prioridade no Brasil. Muita gente fala, usa a saúde para se eleger; mas, na hora H, ela não é prioridade. Todo mundo sabe que duas coisas são fundamentais para o desenvolvimento do país: saúde e educação. Mas, mesmo assim, não é prioridade política. Hoje, o país gasta 8% do PIB com saúde, o que não é um valor ruim. Mas o problema é que destes 8%, só 3,9% são públicos. O resto é privado. E ai fica muito ruim. Para um país que tem um sistema universal, que é o SUS, o governo só dá 3,9%. E destes 3,9%, mais ou menos, a metade é o estado e o município que dão. Assim a União, no final das contas só dá 1,8%.

 

ENCONTRO – Uma pesquisa recente, traçando o perfil da classe médica, trouxe números assustadores. Existem hoje, no Brasil, 185 escolas de medicina. Isto é mais do que na China. Muitos analistas dizem que este número é um absurdo, e que formar esta quantidade de médicos não é a solução. O que o senhor pensa disto?

RAFAEL GUERRA – Toda profissão, como já disse, tem de ter responsabilidade social. E o mesmo se dá com a classe médica. Abrir faculdade de medicina só para ganhar dinheiro ou para ganhar prestígio político não é a solução. Para se abrir faculdade, tem de ser com responsabilidade. Nos últimos anos, foram abertas muitas faculdades com interesse meramente eleitoral. Em apenas 15 anos, o número de faculdades no Brasil mais do que dobrou. Um movimento semelhante aconteceu nos Estados Unidos, no início do século passado: metade das escolas de medicina norte-americanas foram simplesmente fechadas.

 

ENCONTRO – O problema é que o lobby para abrir novas faculdades no Brasil ainda é muito grande...

RAFAEL GUERRA – Sem dúvida. E eu cansei de brigar, quando estava em Brasília, para tentar evitar isto. Vivia me reunindo com o ministro da Educação. Analise este número: Belo Horizonte tem hoje nove faculdades de Medicina. Chicago tem quatro. Existem muitas faculdades que estão funcionando no país que não têm a menor condição de estar funcionando. Tanto que já começa um movimento para se fechar algumas. O problema todo é que quando o aluno forma, ele não está em condições de exercer a profissão. Só de 30% a 40% conseguem fazer especialização. Não existem mais vagas, residências médicas. E aí, começa a picaretagem. Hoje, sabemos que tem muita gente clinicando sem título de especialista e que está trabalhando. Esta questão da abertura indiscriminada de faculdades, se não houver moralização, vai acabar obrigando que, em algum tempo, se faça um exame como a Ordem dos Advogados do Brasil já faz na área de direito.

 

ENCONTRO – A falta de uma política pública faz com que a grande maioria dos médicos se concentrem todos nas grandes cidades. Para resolver, alguns especialistas dizem que teríamos duas possibilidades: ou o governo definiria onde os novos médicos vão trabalhar, como em países autoritários, ou o médico teria uma carreira de estado. Como um juiz. Qual seria, para o senhor, a solução?

RAFAEL GUERRA – Sou a favor da carreira de estado. Mas isto não quer dizer que todos os médicos seriam do estado. Mas a ideia de se criar uma carreira é boa. Agora, a questão da obrigatoriedade: isto não acontece apenas em países autoritários, não. Dou um exemplo: na Suécia, se você se formar, sei lá, em ortopedia, você não pode trabalhar em qualquer lugar, não. E a Suécia é um país democrático. Por outro lado, a gente sabe que lá o serviço público funciona.

 

ENCONTRO – O senhor está animado por voltar a ser professor nas Ciências Médicas, onde está criando um curso de especialização em medicina esportiva?

RAFAEL GUERRA – Isto. Estou muito animado com este novo projeto. O curso será coordenado pelo Rodrigo Lasmar, que é professor da escola e o médico da Seleção Brasileira. Vamos tentar formar uma turma para fevereiro. Será uma especialização que vai durar dois anos.

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