Delicadeza na brutalidade do aço

por Daniela Costa 13/01/2012 10:07

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Emmanuel Pinheiro
Em seu ateliê, a artista plástica Fátima Santiago mostra orgulhosa algumas de suas obras-primas (foto: Emmanuel Pinheiro)

Em suas mãos, o aço oxidado ganha formas e contornos, transformando-se em marcantes obras de arte. Em cada escultura, curvas sinuosas são vislumbradas, algumas em delicadas miniaturas, outras em imponentes peças que chegam a pesar seis toneladas. É desta forma, dominando o material bruto e o utilizando a seu bel-prazer, que a artista plástica Fátima Santiago conquistou destaque no cenário nacional. “Escolhi o aço porque é um material rígido, forte, resistente. E a possibilidade de transformá-lo dando leveza e movimento é fascinante”, diz.

 

Inspirada no modernismo, a artista faz uma interface com o espaço urbano em ambientes versáteis, por vezes intimistas e, em outras ocasiões, abertos.

 

Uma de suas obras mais conhecidas compõe a paisagem carioca, e foi feita em homenagem aos 90 anos do teleférico do Pão de Açúcar, em 2002. Instalada no desembarque do bondinho, no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, foi o primeiro trabalho público realizado por Fátima. “Acredito que este tipo de escultura valoriza a arte e o turismo das cidades. Por isso pretendo focar cada vez mais neste segmento”.

 

Outra de suas grandes obras integrou o projeto Curvas da Estrada Real, realizado em 2006, em São João del-Rei (MG). Pesando 1,5 tonelada, a escultura de aço simboliza as estradas que levam e trazem as riquezas de Minas para o mundo.

 

Inspiração para criar é o que não falta à artista. Tendo as formas humanas como referência, um simples movimento de um atleta ou de uma bailarina se transforma em fascinantes esculturas. Algumas delas, como a Moça Sentada, exalam sensualidade.

 

Sua mãe, que era professora, também é citada como fonte de inspiração. Mas, em sua família, apenas Fátima seguiu os caminhos da arte. “Tenho minha mãe como uma artista porque ela sempre pintava e fazia muitos trabalhos manuais. Acho que herdei isso dela”.

 

Natural do interior mineiro, da cidade de Pompéu, Fátima é um exemplo de perseverança. Mora na capital há 47 anos e conta que sua primeira profissão – na qual trabalhou por 30 anos – foi a de dentista.

 

 

 

Somente aos 49 anos ela conseguiu se matricular na Escola de Belas Artes da UFMG, onde se especializou em gravura e escultura. “Depois que me aposentei, consegui realizar meu grande sonho”.

 

Por que escolheu áreas tão distintas? “Na verdade, optei pela odontologia já visualizando o lado artístico da profissão. Sempre disse que dentista é um artista que trabalha com pequenas escalas, e, hoje, apenas aumentei o tamanho”. Ao contrário de trabalhar formas no amálgama e em moldes de gesso, a artista agora manuseia apenas o aço.

 

Mesmo tendo iniciado sua carreira artística tardiamente, o sucesso veio rápido. Não demorou e Fátima começou a receber alguns convites de trabalho. Muitos deles, inusitados. “Uma vez, uma moça me ligou pedindo para que eu fizesse uma peça para a lápide de seu pai. Achei estranho e lhe disse que não fazia bustos”. Foi quando a mulher lhe explicou que queria mesmo uma escultura. Mesmo surpresa, Fátima executou o serviço. “Mas ainda fiquei lhe devendo uma visita ao cemitério”, brinca.

 

Em outra ocasião, o pintor que estava reformando sua casa lhe perguntou onde ela havia conseguido uma peça idêntica a que ele tinha visto na televisão, com uma artista famosa. “Era o protótipo da escultura da Estrada Real. Qual não foi seu espanto quando disse que a ‘artista famosa’ da TV era eu mesma?”

 

Em seu currículo, Fátima coleciona exposições feitas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e cidades mineiras como Ipatinga, Tiradentes e Viçosa. E não pretende parar. Para 2012, já está preparando sua mais nova exposição individual, que acontecerá no espaço V&M do Brasil em meados de março. Além disso, também aguarda a inauguração de seu último trabalho na Praça da Cemig, em Contagem. A obra, que possui um triângulo central e remete a uma bandeira, representa a cidade dentro do cenário mineiro. Sobre o título da obra, ela responde: “Não dou nome às minhas esculturas. Acho essa leitura bem subjetiva”.

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