O grito que vem da internet

por Daniele Hostalácio 27/02/2012 11:34

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Júnia Garrido, Eugênio Gurgel
Reprodução de tela dos vídeos do YouTube, com as campanhas pró e contra o reajuste dos salários (foto: Júnia Garrido, Eugênio Gurgel)

João era amigo de Teresa, que era amigo de Raimundo, que era amigo de Maria, que era amiga de Joaquim, que era amigo de Lili, que não era amiga de quase ninguém. João ficou sabendo que os vereadores de Belo Horizonte iriam votar um projeto para reajustar os próprios salários em mais de 60%; então ele, que já estava mesmo plugado no Facebook, compartilhou imediatamente sua indignação com Teresa, que espalhou a notícia para Raimundo, que publicou sua opinião nos murais da Maria e do Joaquim, que ‘tuitaram’ a informação para as centenas de seus seguidores, que não tinham entrado na história. E assim, o poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, ganhou ares contemporâneos e um número sem-fim de personagens...

 

De dentro de um ônibus, com os smartphones na mão, dentro de uma sala de aula, sentados no sofá de casa ou na fila do cinema, ou diante dos computadores, em escritórios, personagens do mundo virtual conseguiram mobilizar centenas de pessoas em torno da rejeição ao reajuste do salário dos vereadores. Muitos saíram de trás dos seus notebooks, depois de convocar os amigos virtuais a fazerem o mesmo, e mostraram suas caras nas ruas, usando narizes de palhaço, portando cartazes e ideias e pressionando o prefeito e os vereadores a repensar – e abandonar – a ideia de um aumento na remuneração dos legisladores municipais.

 

 

 

Foi como se um levíssimo sopro da Primavera Árabe estivesse percorrendo a capital mineira em pleno verão. E assim, nos últimos dois meses, a cidade pôde provar um pouco do poder que as redes sociais oferecem aos cidadãos, e essa degustação culminou no veto do prefeito Marcio Lacerda ao reajuste. Um gesto – é inegável – que teve forte relação com a mobilização social que se originou nas redes sociais e que, em onda, propagou-se pelo mundo virtual e ganhou as ruas.

 

Mais de duzentas pessoas, muitas que sequer se conheciam – estudantes, professores, sindicalistas, artistas, entre outros –, vindas de diferentes pontos da cidade, reuniram-se uma meia dúzia de vezes em frente à Prefeitura para pedir o veto do prefeito. Antes disso, elas ocuparam a Câmara dos Vereadores no dia da votação, para pressionar os legisladores municipais a não aprovar o projeto.

 

A referência à Primavera Árabe – conjunto de protestos que abalou as estruturas políticas de vários países árabes, entre os anos de 2010 e 2011 – foi feita não só porque ambas as manifestações – lá e aqui – ganharam as ruas e nasceram da indignação popular, mas porque, nos dois casos, a mobilização social se deu por meio das redes sociais, em especial o Facebook e o Twitter. No caso árabe, o uso dessas ferramentas foi tão expressivo na organização e na articulação dos protestos – obviamente de proporções muito maiores e profundas –, que os eventos chegaram a ser chamados de Revolução 2.0, em alusão ao universo web.

 

 

 

Fato é que cada vez mais as redes sociais têm se tornado importantes atores no campo da política. “A mobilização pelas redes vem crescendo em todo o mundo”, lembra a professora doutora Helcimara Telles, do Departamento de Ciência Política da UFMG. Muitos analistas já indicaram que o uso da Internet durante a campanha de Barack Obama, por exemplo, foi um importante diferencial que acabou contribuindo para a vitória do democrata. Movimentos na Espanha, em outros países da Europa e em outras cidades brasileiras também confirmam essa percepção.

 

No caso da mobilização contra o reajuste dos vereadores, a professora avalia que o que a motivou, no fundo, foi a insatisfação com a classe política, não considerada merecedora de aumento salarial. “Um salário de R$ 15 mil não é uma monstruosidade, se levarmos em conta o custo de vida numa capital como Belo Horizonte. O que a indignação demonstrou foi mesmo o descontentamento da sociedade com os políticos”, observa. Embora reconheça o papel das redes na mobilização social, a professora, no entanto, não é tão otimista quanto ao poder revolucionário delas.

 

 

 

Essa percepção é compartilhada por Geane Alzamora, doutora em Comunicação e Semiótica e pesquisadora do tema. “Sou um pouco resistente à ideia de apologia às redes sociais. Elas são, na verdade, formas antigas de interação, mas com ferramentas contemporâneas. O que penso é que elas potencializam a mobilização, porque conseguem um alcance rápido e em escala global.

 

Por isso as pessoas falam alguma coisa no Twitter, por exemplo, e depois se impressionam com o alcance que aquilo tem”. É que, diferentemente de manifestar sua opinião numa mesa de bar, por exemplo, o que é escrito nas redes sociais fica registrado, podendo, a partir dali, percorrer os caminhos ilimitados da web. Mas, lembra Geane, que é professora do Departamento de Comunicação da UFMG, “embora a mobilização comece no mundo virtual, é preciso, depois, que ela vá paras ruas, senão o movimento fica soterrado nas redes”.

 

E o que dizem alguns dos personagens por trás dessa mobilização online? A estudante de Ciências do Estado, Cecília Reis Aquino, idealizadora do perfil Veta Lacerda no Facebook, conta que se surpreendeu com o alcance do movimento. “A página do primeiro evento que fizemos teve, em um final de semana, seis mil adesões”, lembra. Cecília atuou nas redes convocando as pessoas, compartilhando vídeos e imagens sobre o movimento, manifestando sua opinião e levando informações sobre o tema para dentro do Facebook, mas também na linha de fogo.

 

 

 

“Criamos quatro manifestações na porta da Prefeitura e o telefonaço – que convocou várias pessoas a ligarem para o prefeito pedindo o veto. Estou muito orgulhosa por ter puxado o movimento. O dia 23 de janeiro, dia do veto, foi muito importante, pois mostrou o poder que temos em mãos”.

 

Cecília destaca, no entanto, que a luta do movimento não acabou, e esse é um sentimento compartilhado por outros manifestantes. Uma delas, a atriz e diretora de teatro Débora Vieira, do perfil Ocupe Câmara, afirma que a partir da primeira experiência de ir até o Legislativo Municipal acompanhar a votação do reajuste, o grupo compreendeu que “a ocupação da Câmara deve ser permanente, pois precisamos acompanhar o trabalho dos vereadores”. O grupo também tem uma lógica de trabalho em rede, e cada um colabora com seu talento e sua disponibilidade. O designer Fabrício Lana, por exemplo, faz para o Ocupe Câmara peças gráficas, muitas delas com fotos e falas dos vereadores – colhidas durante as sessões plenárias – que, depois de postadas, muitas vezes são replicadas em espiral. “Meu trabalho é um humor gráfico e eu não o assino, porque não estou preocupado em registrar minha autoria, mas sim em contribuir para a mobilização”, explica.

 

Em comum, esses personagens trazem o hábito de estar permanentemente online, experimentando um dos grandes trunfos das redes sociais, que é, segundo um dos maiores estudiosos do tema, o sociólogo espanhol Manuel Castells, o de permitir conexões para muito além dos nossos relacionamentos pessoais. “As redes sociais dão voz aos cidadãos 24 horas por dia, sete dias por semana, e de qualquer lugar”, pontua Lucas Castro, fundador da rede CriticarBH, outra articuladora do movimento contra o aumento dos salários dos vereadores. 

 

 

 

A rede CriticarBH surgiu com o objetivo de fazer com que as pessoas participassem mais da dinâmica da cidade, e integra um movimento maior, o Webcidadania. Entre outras ações, a rede compartilhou vídeos-resposta à propaganda dos vereadores justificando o aumento de 61,8%. “Em 48 horas, um desses vídeos-resposta, criado pelo movimento ´Estamos de Olho´, teve quase 30 mil visualizações”.

 

Postos na berlinda, os vereadores de Belo Horizonte terão agora de lidar com todo esse movimento. “Este ano teremos a primeira eleição para vereadores e prefeitos em que as opiniões geradas pelas redes sociais serão levadas em conta”, observa o vereador Adriano Ventura (PT). “A tecnologia ajuda o político e também o eleitor a ficarem mais bem informados. Mas os políticos terão de aprender a ouvir os eleitores; somos representantes dos cidadãos, mas raramente votamos em favor deles”, reconhece o parlamentar, que se diz impressionado com o fato de toda essa mobilização popular ter surgido na rede social.

 

Fazendo coro com ele, o vereador Daniel Nepomuceno (PSB) também reconhece o mérito das redes sociais em todo esse processo. “O veto do prefeito foi uma conquista da população graça à internet. É curioso como se consegue, hoje, alcançar milhões de pessoas através das redes sociais, o que antigamente era feito em discursos nos teatros de arena”. Esse novo contexto passa a exigir dos vereadores, na opinião de Nepomuceno, cada vez mais transparência, e ele avalia que isso seja positivo, também, para as discussões sobre os rumos da cidade. “Tudo que a envolve, bem como ao parlamento, pode ser discutido pela população na internet, e isso favorece o nosso trabalho”.

 

 

 

Os manifestantes virtuais focam, agora, em quais serão seus próximos passos, a partir da conquista do veto. Evandro Graton, do perfil Manifesto Apartidário BH, que conta com quase 500 integrantes, destaca que o trabalho deles é de conscientizar as pessoas e de levar até elas informações, e que, por isso, outras ações virão. “São ações que não têm como ser personalizadas; são sempre coletivas, e cada uma contribui com a sua disponibilidade e o seu interesse. Um escreve textos, outro faz a parte gráfica, os gastos com faixas, por exemplo, são rateados. São ações que envolvem muitas pessoas”, conta.

 

Se os vereadores irão ou não manter o veto do prefeito, este mês de fevereiro nos dirá. Mas, independentemente disso, a força que as redes sociais podem significar, quando uma causa encontra clamor na sociedade, já está mais revelada. De qualquer forma, pelo menos um momento desse enredo já podemos prever: os movimentos de participação popular que surgiram nas redes sociais, criados pelos “cyberguerreiros” locais, tendem a produzir significativos impactos nas próximas eleições.

 

 
 

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