Há 40 anos na estrada

por João Pombo Barile 01/03/2012 14:53

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Paulo Márcio, Cláudio Cunha, Luiz Alfredo/O Cruzeiro/DA Press
Márcio Borges com o irmão Lô e a mulher, Cláudia Brandão, no Servas (foto: Paulo Márcio, Cláudio Cunha, Luiz Alfredo/O Cruzeiro/DA Press)

No final dos anos 1960, todo dia era sempre a mesma história: uma meninada do bairro de Santa Tereza se reunia, perto da casa da família Borges, no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, para tocar violão e jogar conversa fora. Dona Maria, mãe de um dos meninos, com medo de que os vizinhos ficassem irritados com tanto barulho, mandava outro filho, mais velho, chamar o irmão. Marcinho, vá lá no clube e manda o Lô entrar”, dizia a mãe, apelidando, ironicamente, aquele pequeno pedaço de calçada do famoso bairro belo-horizontino que seria, depois, conhecido como Clube da Esquina.

 

Quarenta anos depois, sentado na sala do seu apartamento no bairro Luxemburgo, ao lado da mulher, Cláudia Brandão, Márcio Borges se diverte ao lembrar a história. Autor de Os Sonhos Não Envelhecem: Histórias do Clube da Esquina, o mais importante livro sobre o período, ele conta que até mesmo Milton Nascimento, presença constante na casa da família naqueles anos, um dia pediu para o Lô entrar. “Ele queria mostrar uma canção nova para o Lô, que desde muito cedo tocava muito bem. Mas o Bituca não gostava de tocar na calçada”, explica o letrista mineiro. Bituca é o apelido de Milton.

 

O que talvez ninguém pudesse imaginar era que aquela turma iria tão longe. O imaginário Clube da Esquina se tornaria um dos movimentos musicais mais importantes da história da música brasileira. E revelaria nomes como Milton Nascimento, Lô Borges, Fernando Brant, Márcio Borges, Toninho Horta, Wagner Tiso, Flávio Venturini, Beto Guedes, Tavinho Moura, Túlio Mourão, Ronaldo Bastos e outros artistas.

 

A fama ultrapassou as fronteiras brasileiras. E fez com que, um dia, o guitarrista norte-americano Pat Metheny viesse a Belo Horizonte para conhecer a sede do famoso “Corner Club”. Mesmo depois da explicação de que o clube não existia, o guitarrista não se convenceu. E só sossegou quando o levaram até a famosa esquina. História parecida, aliás, aconteceria com o tecladista Lyle Mays, que também perambulou pelas ruas de Santa Tereza e ficou decepcionado por não conseguir encontrar a sede do clube.

 

Fernando Brant, o letrista de tantas parcerias com Milton Nascimento, sobre o disco Clube da Esquina: "A gravação ocorreu em clima de confraternização"
 

 

Mesmo depois de quatro décadas, Márcio se lembra bem daquele distante ano de 1971, quando o vinil Clube da Esquina: Milton Nascimento e Lô Borges foi gravado. “Na época, o Milton estava na Odeon e seu último disco lançado tinha sido em 1970. Por contrato, ele tinha ainda que produzir mais dois discos para a gravadora”, conta. Foi então que Milton teve uma sacada: gravar um disco duplo na época, algo inédito no Brasil. A ideia era fazer um trabalho que reunisse as canções de sua turma de Belo Horizonte segundo Milton, uma moçada talentosa, com um jovem músico chamado Lô Borges, que compunha melodias belíssimas.

 

Mas nem tudo foi fácil. A diretoria da gravadora achou o projeto uma loucura. Milton, então, radicalizou e chegou até mesmo a ameaçar que abandonaria o selo. Foi a ajuda do produtor Adail Lessa para convencer a Odeon que mudou a história: começava ali a gravação do LP duplo, que trazia na capa a foto de dois meninos sentados à beira de uma estrada, e que se transformaria num marco da música brasileira.

 

“Pouca gente sabe, mas foi graças ao produtor Adail Lessa, da gravadora Odeon, que o disco Clube da Esquina acabou acontecendo”, conta Márcio Borges. Lessa era um velho conhecido de quem gostava e fazia a boa música no Rio de Janeiro. Já em 1958, tinha apostado em uma batida ‘estranha’ e desconhecida, e emprestado o estúdio da Odeon, numa madrugada, para que um trio (formado por ninguém menos que Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto) gravasse uma música chamada Chega de Saudade.

 

Encontro histórico em Diamantina, da esquerda para a direita: Lô Borges, Fernando Brant, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, Márcio Borges e Milton Nascimento, em 1971
 

 

Isso mesmo: a canção que revolucionaria a música brasileira teve como produtor Adail Lessa. O mesmo que, 14 anos mais tarde, iria defender a participação de um garoto de 16 anos, o mineiro Lô Borges, no disco do já famoso Milton Nascimento. “O Lessa era um cara incrível, uma pessoa do bem”, conta Toninho Horta. O músico mineiro, que tem uma carreira internacional bem-sucedida, confirma a grande importância de Lessa para a realização do disco. “Se não fosse o Lessa, talvez não tivesse acontecido a bossa nova como a conhecemos. Nem o Clube da Esquina. Ele apostava nos novos”, diz Horta.

 

Desde o início, Milton estava convencido: queria gravar as melodias de Lô Borges. “O Bituca me convidou para fazer um disco autoral”, recorda Lô, mais de 40 anos depois. “Ele gostava muito das melodias que eu estava compondo. E me convidou para o projeto. Chamei também o Beto Guedes”, diz o músico. Durante um ano, o Clube se mudaria para Mar Azul, em Niterói (RJ). De lá, saiu a maioria das composições do álbum. Na maior parte das vezes, Lô e Milton faziam as melodias separadamente, e Márcio, Fernando ou Ronaldo Bastos completavam com a letra. "A gente fez um mutirão e dividiu as canções. Definíamos os temas antes, para que eles não se repetissem. E mandávamos ver”, conta Márcio, revelando o processo de composição das letras do disco.

 

“Apesar de alguns problemas com a ditadura militar, como a censura à minha letra de Ao que Vai Nascer, a gravação do disco ocorreu num clima de grande confraternização”, conta Fernando Brant, ao lado do amigo Tavinho Moura, que também participou do disco e é hoje um dos parceiros mais próximos de Brant. “A Odeon deixou Bituca à vontade para fazer tudo do jeito que ele queria”, conta o parceiro de Milton. Tavinho também se lembra com carinho daqueles anos: “A minha participação era mais de bisbilhoteiro. Naquela época, eu estava me aproximando ainda do Bituca, a pessoa mais original que eu já conheci”, conta.

 

Toninho Horta, guitarrista e cantor, sobre o papel do produtor Adail Lessa na MPB: “Se não fosse o Lessa, talvez não tivesse acontecido a bossa nova como a conhecemos. Nem o Clube da Esquina”
 

 

Para este ano, Márcio Borges e Claudia Brandão prometem comemorar em grande estilo os 40 anos do Clube. Em 2012, o Museu Clube da Esquina finalmente deve deixar de ser um projeto e se transformar em realidade. O novo espaço cultural funcionará no prédio do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), ao lado do Palácio da Liberdade, e vai integrar o Circuito Cultural Praça da Liberdade. Será a sede do museu e, ainda, um Centro de Referência da Música de Minas. O projeto está orçado em R$ 8 milhões. “Finalmente, vamos começar a concretizar um sonho que, aliás, começou com uma ideia da Claudia, que sempre batalhou muito pelo projeto”, afirma Márcio, elogiando a mulher.

 

E o ano terá mais homenagens: uma exposição, organizada pela Associação de Amigos do Museu Clube da Esquina, acontecerá, ao longo de todo o ano, em quatro cidades mineiras: Belo Horizonte, Poços de Caldas, Uberaba e Juiz de Fora. Além disso, um musical acontece no Palácio das Artes de 3 a 5 de agosto. Já aderiram ao projeto os maestros Roberto Tibiriçá, Wagner Tiso e Túlio Mourão.

 

 

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