Gostosos, mas nada saudáveis

por Blima Bracher 05/03/2012 14:23

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Paulo Márcio, Divulgação
As chamadas junk foods têm uma substância capaz de estimular a compulsão alimentar (foto: Paulo Márcio, Divulgação)

É impossível comer um só, propaga o anúncio de um importante fabricante de salgadinhos. Estudos recentes mostram que realmente alguns alimentos acabam viciando e induzindo o cérebro a comer sempre mais e mais. Uma pesquisa realizada na Flórida (EUA) pelo Instituto de Pesquisas Scripps mostrou que alguns alimentos ricos em calorias podem desencadear no cérebro respostas semelhantes às de drogas como cocaína ou heroína. São as chamadas junk food (comida-lixo, em tradução literal). Por causa das embalagens chamativas, o apelo é ainda maior para as crianças. O problema é que, na hora da pressa, os pais acabam cedendo ao apelo infantil e à praticidade dos lanches rápidos.

 

Publicado pela revista Nature Neuroscience, um estudo sobre a junk food revelou como ela pode levar à compulsão alimentar. A pesquisa, realizada com ratos, mostrou que aqueles submetidos a essa dieta recebiam no cérebro estímulo semelhante ao prazer proporcionado pelas drogas. Nem à base de choques as cobaias paravam de comer. “Por se tratar basicamente de alimentos altamente calóricos e com baixo teor de fibras, eles possuem baixo poder de saciedade”, explica a nutricionista Anne Lacerda Fernandes.

 

Os testes mostraram que a junk food possui uma substância capaz de estimular a compulsão alimentar, o glutamato mossódico, um realçador de sabores que acrescenta um quinto sabor – o umami – aos quatro já conhecidos: doce, salgado, azedo, amargo. “O umami, que quer dizer saboroso, inunda as papilas gustativas com um gosto persistente, ficando praticamente impossível comer apenas um salgadinho do pacote, uma batata frita, ou o hambúrguer mais simples feito em casa”, diz.

 

É aí que mora o perigo de alimentos como hambúrgueres, batatas fritas, salsichas, nuggets, pipoca de microondas, salgadinhos fritos, bacon, amendoins confeitados, bolos, entre outros ricos em gorduras e açúcares, que as crianças e jovens adoram. Eles estimulam regiões do cérebro responsáveis pelo prazer, e com o tempo causam mudanças neurobiológicas. A percepção do sabor começa na língua, através das papilas gustativas, e é levada até receptores cerebrais que codificam o sabor prazeroso. Os alimentos doces aumentam os níveis de serotonina, um neurotransmissor que desempenha um importante papel na regulação do humor, do sono e do apetite. “Uma dieta rica desses alimentos tem profundo efeito no cérebro e no sistema nervoso”, afirma Anne Lacerda.

 

Reside aí um círculo vicioso: quanto mais as crianças comem açúcares e gorduras, mais querem ingerir alimentos ricos nesses componentes. Assim como o açúcar, a farinha de trigo é outro vilão para os pequenos. Por ser obtida de plantas refinadas, é absorvida de forma imediata pelo organismo, causando uma injeção de energia instantânea e dando a falsa sensação de prazer. Seu efeito é o de uma descarga elétrica, mas que vai embora de repente, deixando a vontade de comer mais aguçada. Por isso, olhar bem os valores nutricionais e os ingredientes dos alimentos é fundamental para ajudar a manter a saúde das crianças.

 

Outra armadilha é que esses alimentos costumam vir em porções. Como o cérebro quer comer “o todo”, fica muito difícil mandar a mensagem de comer apenas um pouco daquela porção. É por isso que, diante de um balde de pipocas, mesmo empanzinados, crianças e adultos continuam comendo de forma compulsiva.

 

Segundo o endocrinologista Rodrigo Lamounier, como as pessoas têm o péssimo hábito de comer correndo e não mastigar o suficiente, a maioria prefere comer produtos industrializados que geralmente são mais baratos, têm poucos nutrientes e são ricos em gorduras e açúcares. “A regra é seguir a pirâmide alimentar, com pães integrais, cereais, frutas, legumes, derivados do leite, entre outros. Não quer dizer que os alimentos calóricos devam ser banidos da dieta. Uma vez ou outra, não tem problema. Eles não podem é ser a base da alimentação”, afirma o especialista.

 

As irmãs Lívia, de 10 anos, e Júlia, de 12, organizam a lancheira só com alimentos saudáveis: frutas, sucos, sanduíches ou bolos preparados em casa
 

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o açúcar de adição não ultrapasse 10% das calorias de uma refeição. Apesar disso, principalmente nos chamados países emergentes, o consumo cresce assustadoramente. O resultado é uma epidemia de obesidade, mesmo entre os pequenos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada três jovens está com sobrepeso.

 

Segundo o coordenador do setor de endocrinologia do hospital Felício Rocho, Adauto Versiani Ramos, se os filhos estão obesos, a culpa é dos pais e da mídia, que incentiva a criança a comer bobagens. “Como os filhos não têm espaço para brincar e os pais se sentem culpados por não ter tempo para eles, acabam liberando as vontades e os salgadinhos calóricos”, afirma. De acordo com o especialista, o ideal é que os jovens comam de tudo, optando por alimentos variados e de preferência com combinações bem coloridas. “Além disso, é importante que os pais privilegiem os passeios mais animados, com brincadeiras, caminhadas, pescas, acampamentos. A criançada precisa gastar energia”, acrescenta o médico.

 

O estímulo aos bons hábitos alimentares deve passar pela lancheira da escola. Afinal, esta é uma refeição quase diária para as crianças. É por isso que a engenheira Ângela Maria M. Souza sempre faz questão de preparar a merenda das filhas Lívia, de 10 anos, e Júlia, de 12, ou então de orientar a funcionária que ajuda as meninas nessa tarefa: “Sempre coloco um pãozinho de sal com requeijão ou queijo. Outras opções são bolo de cenoura feito em casa, pão de queijo ou biscoito de polvilho”, explica. Frutas e sucos jamais faltam no lanche das meninas.

 

Em casa, o exemplo também é diário: batatas fritas só a cada quinze dias; hambúrguer, só uma vez no mês; e refrigerante, apenas em festas. “Salgadinhos tipo chips, apenas no último dia de aula”, diz Ângela. Tanto cuidado resultou em consciência alimentar para as meninas. “Comendo coisas boas, o corpo fica mais saudável; tenho mais energia e menos doenças do que quem só come besteira”, diz Lívia. “Até hoje prefiro o lanche de casa do que comprar na escola”, conta Júlia.

 

A endocrinologista e psicanalista Soraya Hissa de Carvalho explica que hábitos alimentares saudáveis devem ser adotados em qualquer idade. Porém, uma nova postura de vida é mais difícil em adultos. Por isso, estimular os hábitos saudáveis e a atividade física para as crianças é fundamental. Resistir aos apelos infantis e às facilidades dos alimentos industrializados também é primordial. No caso de doces e guloseimas, o consumo não deve ser rotineiro, priorizando sobremesas como sorvetes ou picolés, à base de água e polpa de frutas, pois são os menos calóricos. “O ideal é incluir também muito líquido e comer pouca quantidade e mais vezes”, diz Soraya Hissa.

 

Para facilitar, Encontro pesquisou as quantidades nutricionais de alguns alimentos. E, se eles viciam, o melhor é não ceder à tentação e resistir à primeira mordida. Caso contrário, seu apetite pode ser de leão.
 

 

 
 

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