Sobre o mar e as borboletas

por Cris Guerra 07/03/2012 14:56

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A manhã começou diferente em plena Livraria Cultura da avenida Paulista. “Melhor que praia”, foi o que pensei quando entrei na loja. Passear pelo mar de livros catando pérolas nas conchas.
Não sou dada a ler tantos livros quanto eu gostaria, e a internet é uma grande culpada por isso, mas tenho gula por eles. Tive um namorado que dizia que o importante é sentir a textura do autor. E num lugar como a Cultura a impressão é a de que estamos salvos, passeando entre histórias que são sempre inventadas, que o ponto de vista de alguém já é o bastante para que uma história real se torne literatura.

 

Eu tinha quatro livros nas mãos quando ouvi a voz de uma senhora a poucos metros de mim: “O Morro dos Ventos Uivantes! Eu li esse livro quando era menina. E vi o filme! Um amor lindo, que não existe mais”…

 

Era para uma mocinha que ela se dirigia – ou para si mesma quando mais jovem, porque naquela fala havia uma dor. E enquanto eu rodeava o córner em busca de outras pérolas, a emoção daquela senhora miúda encontrava abrigo em mim.

 

Até que, sem planejar, deparei com seu rosto. Nós três – eu, a mocinha e a senhora – nos encontramos sem querer, em uma das voltas em torno das pilhas de livros a gritar por nossa atenção. Seus olhos pequenos estavam marejados, cristalinos, como que atingidos por uma luz especial. E os meus encheram d’água ao ver aqueles olhos voltados para mim. Segurei em suas mãos, sem saber muito que dizer. E precisei de um abraço para não cair no choro sem fim. (Ou quem sabe a minha vontade era buscar o seu colo para chorar com ela por aquilo que não volta mais.)

 

Ela não precisou dizer nada. Entendi.

 

Eu vinha pensando no quanto é bonito haver tantas pessoas a nos contar histórias. Não são histórias para dormir, e sim para querer acordar no dia seguinte. Para que possamos viver outras vidas. Para a nossa vida fazer sentido.

 

Não quis me alongar para não desabar em plena livraria. Depois de mais um abraço, eu me despedi da dona Irani, que também enxergou minha alma.

 

Fui me abrigar em outra prateleira, a primeira que aparecesse. Parou-me no caminho uma edição com encadernação de pano, da Cosac Naify: Carlos Drummond de Andrade – Poemas Traduzidos.

 

Sim, era esse o nome, mas só mais tarde entendi que a edição trazia as versões de Drummond, para o português, de poemas escritos por autores internacionais. De modo que quando li, havia também surpresa, porque aquele não parecia ser um verso de Drummond:

 

“Senhor!
(Em que ponto eu estava?
Ah, sim, este sol, esta flor…)
Obrigada. Sua criação é uma beleza.
E este perfume de rosa!
(Mas onde é mesmo que eu estava?)
A gota de orvalho
acende fogueiras no coração
do lírio.
Eu precisava ir. Nem sei mais.
O vento pintou suas fantasias
em minhas asas. Fantasias…
(Em que ponto eu estava?)
Ah, é verdade, Senhor, eu tinha uma coisa para lhe dizer:
Amém.”

 

Tive que buscar um canto pra me sentar. Mas a vontade de abrir a torneira não passava. Precisava assoar o choro. Escrevi, envolvida pelo calor dos livros. Coloquei no papel minha conversa com Drummond, Irani e Carmen Bernos de Gaztold, francesa, autora do poema original, intitulado Oração da Borboleta.

 

Um mergulho no mar calmo de livros uivantes.

 

Saí da livraria com alguns livros e o desejo por muitos outros. Mas a minha caminhada pela avenida Paulista teve duas nobres razões: olhar nos olhos de dona Irani. Depois, ler o poema de Carmen. Amém.

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