Mineiro gosta de ler, uai

por Marcelo Fiuza 29/03/2012 12:32

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Em tempos de Kindle e de tablets, a surpresa: o Brasil está consumindo cada vez mais livros e jornais impressos, de acordo com o Ibope. E a região sudeste responde por mais da metade dos livros e jornais vendidos no país (58%), sendo que os mineiros estão entre os leitores mais vorazes (43%) – só ficam atrás dos brasilienses (44%). Mas, independentemente de números, basta uma ida a alguma das livrarias que se proliferam nas várias regiões de Belo Horizonte para perceber que tudo mudou. Se um dia esses estabelecimentos foram reduto de silenciosos senhores, hoje são frequentadas, em grande parte, por crianças e adolescentes de várias classes sociais, todos ávidos por conferir o último lançamento de séries infantojuvenis como Crepúsculo ou Harry Potter.

 

A nova classe média é a grande responsável por essa revolução. E as crianças e adolescentes, os principais atores da mudança. Agora, quem diria, são os pequenos que chegam levando a tiracolo o pai ou a mãe. Esse foi o caso, por exemplo, da professora de inglês Keith Castro diante da livraria Leitura do Minas Shopping, em uma tarde de sábado, onde entrou por sugestão do filho Henrique Tesla, de 12 anos. “Meu filho lê mais do que eu", diz Keith, 37 anos, atenta ao pedido do garoto para comprar mais um exemplar da série em oito volumes Como Treinar o seu Dragão, da inglesa Cressida Cowel. “Vi o filme e agora quero ler os livros", explica o aluno do 7º ano do ensino fundamental, sobre a obra já adaptada para o cinema.

 

Na mesma livraria, o comportamento animado do trio de adolescentes Júlia, Felipe e Isabel, manipulando vários dos livros expostos, ajuda a entender o fenômeno. “Gosto de ler coisas para jovens, como a saga Crepúsculo (de Stephenie Meyer)”, conta Júlia do Nascimento, 15 anos, estudante. do 2º ano do ensino médio. Aluna da 5ª série, Maria Isabel da Silva, 11 anos, faz coro com a amiga: “Desde que saímos de casa, combinamos de passar na livraria”.

 

Para Felipe Augusto de Souza Amorim, de 12 anos, aluno do 7º ano, as adaptações cinematográficas são um estímulo para a garotada ler romances. “O livro esclarece mais do que o filme e parece que gente faz parte da história”, explica o jovem, que acaba de ler Diário de um Adolescente Hipocondríaco (de Aidan Macfarlane e Ann Mcpherson) e é também consumidor assíduo de jornais.

 

Atento à movimentação de jovens na livraria, o historiador Marcos de Carvalho Ribeiro, 23 anos, concorda: “Os filmes têm incentivado a leitura na galera mais jovem", diz. Ele próprio tinha em mãos as versões literárias de dois roadmovies, Diários de Motocicleta (dirigido por Walter Salles, sobre a biografia de Che Guevara) e Na Natureza Selvagem (obra de Jon Krakauer levada às telas por Sean Penn). “Vou dar de presente para minha namorada”, diz.Já para o casal Eduardo e Rosiele, outros fatores como a acessibilidade e o preço têm estimulado a compra de publicações. “De um tempo para cá, temos lido mais porque está mais fácil ter acesso aos livros. Se você não acha o que quer na loja, compra pela internet. E o livro também está mais barato”, diz Eduardo da Matta, 32 anos, funcionário público.

 

Zulmar Wernke, presidente da Câmara Mineira do Livros, comemora os bons números do setor: "Idenficamos 238 livrarias só  em Belo Horizonte. Foi uma surpresa"
 

 

“Hoje vemos o filho puxando o pai para a loja”, diz o diretor da Livraria Leitura, Marcus Teles Cardoso de Carvalho. “Na última década, o que salta aos olhos é exatamente a venda de livros infantojuvenis, que teve um crescimento surpreendente. Séries como Harry Potter e O Ladrão de Raios, com mais de 10 títulos, venderam 200 mil cópias de cada volume. Isso é um fenômeno editorial impressionante”, diz o executivo. A livraria tem 31 lojas em sete estados e vendeu 3,4 milhões de exemplares em 2011 – dos quais menos de 10% eram livros didáticos.

 

Carvalho explica que, além do crescimento da demanda entre jovens, o aumento da venda de livros no país se deve também a fatores econômicos, como o aumento do poder aquisitivo da classe C e a redução do preço de capa. “Nos últimos anos, barateou-se em 2% o preço médio ao consumidor por ano”, diz. Acompanhando esse movimento, a Leitura tem investido em expansão. Pelo menos quatro lojas serão abertas este ano. "Temos previsão de crescimento de 15% a 20% no faturamento, e o primeiro mês do ano já confirmou essa expectativa”.

 

Nas livrarias da zona sul, o aquecimento das vendas não foi diferente.  “O ano passado foi excelente", explica Valéria Dacanal Garcia,  diretora da Fnac Belo Horizonte, no BH Shopping. Na Fnac, o crescimento das vendas foi da ordem de 20%, se comparado a 2010. "Os títulos em papel ainda são preferência dos consumidores, apesar do grande investimento das editoras na formatação do livro digital”, diz Valéria.

 

As editoras também estimam crescimento para o setor. “Em termos de varejo, nós de fato observamos aumento da demanda por livros, de forma que nossas livrarias e pontos de venda direto ao consumidor têm registrado crescimento constante”, diz Zulmar Wernke, gerente regional da Editora Vozes e presidente da Câmara Mineira do Livro. Ele aponta bons números também para o mercado regional. Estudo inédito da Câmara Mineira do Livro mostra que existem 698 livrarias em Minas Gerais, 238 delas em Belo Horizonte. "É um dado curioso, porque imaginávamos que tivéssemos pouco mais de 200 livrarias no estado. E há ainda 51 distribuidoras e 81 editoras mineiras”, celebra o dirigente.

 

Pedro Martins Silva, presidente executivo do IVC (Instituto Verificador de Circulação), está otimista em relação à tendência de crescimento do hábito de leitura. “Lá fora, a taxa de jornal por habitantes sempre foi maior. Nos EUA, a média é de 100 exemplares para mil habitantes, e no Brasil é de 22 exemplares para mil habitantes. Há espaço para crescer”, avalia.

 

Diretor executivo dos Diários Associados, empresa que publica o jornal Estado de Minas e o tabloide Aqui, Geraldo Teixeira da Costa Neto comemora: “A venda de jornais ainda está crescendo", diz. Só o jornal Estado de Minas, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2011, viu o número de assinantes saltar de 80 mil para quase 100 mil. "Nós também crescemos de maneira consistente”, diz Geraldo Teixeira.

 

Preocupado também com a qualidade daquilo que o mineiro está lendo, a Câmara Mineira do Livro vai realizar uma pesquisa qualitativa do hábito de leitura.  “Vamos levantar a média de livros lidos por ano, o tipo de livro lido, o gênero, a dificuldade de leitura que a população encontra, se ela entende ou não o que lê, se lê por inteiro ou por partes, e se há problemas de compreensão. Essas são informações ainda desconhecidas em Minas”, diz a economista Marta Procópio de Oliveira, coordenadora da pesquisa.  Ela pretende concluir os trabalhos nas dez macrorregiões do estado ainda em 2012. As informações serão referência importante para ações futuras que possam aprimorar o hábito de leitura dos jovens e adolescentes mineiros.

 

 
 

Últimas notícias

Comentários