BH entre os primeiros

por Rafael Campos - Revista do Correio 29/03/2012 14:13

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Júnia Garrido, Eugênio Gurgel, Geraldo Goulart
O oncologista Wellington Morais de Azevedo, primeiro a realizar transplante de medula óssea em BH (foto: Júnia Garrido, Eugênio Gurgel, Geraldo Goulart)

O aposentado Fernando Lelis da Costa, de 73 anos, não teria o mesmo sorriso, não fosse a evolução do combate ao câncer. Há exatos 12 anos, ele foi diagnosticado com um câncer na laringe, depois de sentir um incômodo na garganta. E não gostou do que ouviu na primeira consulta: “O senhor vai ter de fazer uma cirurgia de grande porte e mutilante”. Ainda bem que, ao invés de desanimar com o prognóstico ruim, ele resolveu procurar outros profissionais. E chegou na equipe de oncologia liderada por André Murad (hoje coordenador da área no Hospital das Clínicas).

 

Na época, o médico participou, inclusive, de um congresso na França, onde se estudava um novo tratamento: a radioterapia aliada à quimioterapia, não muito usual no início dos anos 2000. O aposentado foi, então, submetido a tal procedimento durante quatro meses, com resposta favorável. “O cabelo caiu e meus dentes ficaram enfraquecidos, mas nada comparável a ter de fazer uma cirurgia tão agressiva que me deixaria sem voz”, conta. Hoje, totalmente curado, ele tem uma vida tranquila e vive feliz com os três filhos e o neto. Ele não tem dúvidas ao dizer que não é preciso sair daqui para se conseguir um bom tratamento para a temível doença: “BH é um dos principais centros de combate ao câncer do país. Já tive outros casos na família e sempre falo porque confiei e confio no trabalho dos nossos médicos”, diz.

 

De fato, a capital mineira, que sempre foi referência em determinadas áreas da medicina – destaque para a oftalmologia, a partir de históricos resultados positivos no Instituto Hilton Rocha –, agora desponta como um dos principais centros de diagnóstico e tratamento de câncer. “Aqui se formaram inúmeros oncologistas de destaque que atuam no estado e em várias partes do Brasil”, explica Alexandre Fonseca, coordenador do setor de oncologia clínica do hospital Felício Rocho, instituição que ofereceu um dos primeiros serviços de oncologia do estado e hoje atende a quase dois mil pacientes por ano, em convênios particulares e pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Oncologia Amândio Soares, um dos diretores da Oncomed: “Estamos preocupados com a melhoria constante dos resultados e um tratamento com menos riscos”
 
O aposentado Fernando Lelis, que se curou de um câncer: "Já tive outros casos na família e sempre indico para se tratarem aqui"
 

 

Investimentos de hospitais e clínicas especializadas em equipamentos de ponta são constantes em BH. Segundo Fonseca, só no Felício Rocho foram investidos mais de R$ 7 milhões no setor de radioterapia nos últimos dois anos. “Outros R$ 5 milhões estão sendo injetados na mesma área – e incluem a compra do terceiro acelerador linear, um dos mais modernos aparelhos voltados ao combate de tumores por meio de radiação”, conta. O aparelho realiza também a cirurgia estereotáxica, uma das mais avançadas tecnologias de radiocirurgia. Leonardo Pimentel, responsável pela radioterapia do hospital, explica que tal tecnologia permite atingir a célula afetada sem alterar as sadias. “Isso minimiza os riscos de sequelas ou efeitos colaterais”, explica. “Hoje, o paciente com câncer não precisa sair do estado para se tratar. São vários fatores para isso: temos capacitação profissional, tecnológica e qualidade no atendimento”, completa Alexandre Fonseca.

 

A qualidade dos profissionais mineiros pode ser expressada, entre outros fatores, pela crescente participação dos nossos médicos em congressos internacionais e também pelo fato de ter sido um mineiro o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia até outubro do ano passado. Trata-se do coordenador da oncologia do hospital Materdei, Enaldo de Melo Lima: “Estamos à frente desde a década de 1970, quando se instalaram os primeiros serviços de oncologia no país”, diz o médico, que tem um projeto de transformar a oncologia do hospital em um centro de discussão envolvendo especialistas de outras áreas, como terapeutas, enfermeiros e psicólogos. “Estamos buscando uma nova cultura no hospital, que já conta com profissionais em excelência que trabalham exclusivamente aqui”, revela.

 

Outra novidade no Materdei é que o hospital acaba de ser credenciado pelo Ministério da Educação (MEC) para oferecer residência médica voltada à radioterapeutas e físicos nucleares – o primeiro curso desse tipo no estado. “Investimos R$ 20 milhões”, conta Ernane Bronzatt, coordenador da radioterapia na instituição. Agora, a equipe se prepara para inaugurar, até 2014, a unidade II do hospital, que está sendo construída no lugar do antigo Mercado Distrital da Barroca, na região oeste da capital. Os pacientes da oncologia irão ganhar uma entrada exclusiva, mais conforto e privacidade, e terão mais 80 leitos que irão se somar aos 40 existentes na unidade atual.

 

O médico Leonardo Pimentel, ao lado do colega Alexandre Fonseca, da oncologia do Felício Rocho: "Hoje o paciente com câncer não precisar sair do estado para se tratar"
 

 

Referência no tratamento do câncer em Minas Gerais desde 1971, o Instituto Mário Penna (IMP) se prepara atualmente para se tornar um dos maiores centros de oncologia do país. Em dois anos, a entidade filantrópica pretende dobrar o número de leitos, passando dos atuais 404 para 800. As unidades hospitalares do Luxemburgo e de Santa Efigênia devem estar concluídas em 2014. “Estamos prontos para começar a obra, dependemos apenas de aprovações junto ao município. Vamos investir R$ 120 milhões em todo o projeto. Não vamos dever nada a qualquer outro hospital do país. Até suíte presidencial teremos para mostrar para o Brasil que Belo Horizonte oferece o que há de mais moderno em oncologia”, diz o presidente do IMP, Miguel Martini.

 

Os médicos Bruno Ferrari e Roberto Duarte, do Oncocentro: "Falta às pessoas melhorar os hábitos alimentares e o estilo de vida", diz Duarte
 

 

Se a tecnologia está a favor da melhoria nos tratamentos que são realizados em Minas, o que diz respeito ao diagnóstico também merece destaque. O Hospital das Clínicas da UFMG conta com o único Pet CT do Sistema Único de Saúde (SUS) do estado. O aparelho mapeia diferentes substâncias químicas do organismo, monitorando possíveis alterações que possam desencadear um tumor. Além disso, está sendo implantado o banco de tumores, outra ferramenta de diagnóstico. “O banco está sendo elaborado em parceria com especialistas do hospital Life Center. E vai ajudar em um diagnóstico mais preciso”, diz André Murad.

 

Clínicas especializadas também têm um importante papel no serviço oncológico da capital. A Oncomed, por exemplo, foca seu trabalho no tratamento humanizado e individualizado do paciente, geralmente fragilizado emocionalmente pela doença. Uma busca recorrente da clínica é a prevenção de possíveis erros. “Estamos preocupados com a melhoria constante dos resultados, e um tratamento com menos riscos”, afirma o oncologista Amândio Soares e um dos diretores da clínica. Pensando nisso, a Oncomed passou a contar com o poderoso auxílio da tecnologia: trata-se de um palm que confere se a quantidade e o tipo de medicamento está sendo aplicado à pessoa correta, por meio de um código de barras impresso na pulseira do paciente. A clínica, inclusive, pretende erguer um centro especializado em tratamento oncológico no antigo Hospital Hilton Rocha, nos pés da Serra do Curral, no Mangabeiras, mas o projeto está em fase de aprovação.

 

Os médicos Ernane Bronzatt e Enaldo de Melo Lima, do Materdei: equipe se prepara para inaugurar nova unidade, que terá 80 leitos
 

 

O Núcleo de Hematologia e Oncologia também contribui para os bons resultados no estado, onde um dos destaques é o processamento de células para transplantes de medula óssea. O diretor do núcleo, o hematologista Wellington Morais de Azevedo, foi o primeiro a realizar o transplante de medula óssea em Belo Horizonte, em 1989. Hoje, em parceria com o hospital Socor, são realizados em média 25 transplantes por ano. Além disso, os médicos de sua equipe, entre eles Ana Carolina de Castro e Alexander Mol Papa, participam de grupos de pesquisas clínicas. “A busca pela informação é essencial para o médico; por isso, participamos todos os anos de vários congressos internacionais”, afirma Azevedo.

 

Para o oncologista Bruno Ferrari, diretor do Oncocentro, outra clínica especializada em tratamento da doença, BH conta com o que há de melhor na área. Isso, em grande parte, se deve aos médicos pioneiros no estado. “Aqui temos aulas semanais para trocar informações sobre o assunto com outros especialistas e estudantes”, diz Ferrari. Um dos médicos da clínica é o oncologista Roberto Carlos Duarte, referência em Minas e no Brasil. Duarte, que implantou no hospital Felício Rocho o serviço de oncologia, compartilha da informação de que os procedimentos para diagnóstico e tratamento melhoraram bastante nos últimos anos em BH e no país; porém, ele faz um alerta: “O que falta melhorar é a questão da prevenção em relação às pessoas, como os hábitos alimentares e o estilo de vida, fatores de risco que podem desencadear uma célula cancerosa.”

 

Novos remédios contra o câncer

 

Além de equipamentos de última geração e especialistas de destaque, Belo Horizonte também contribui, e muito, para as pesquisas internacionais. André Murad, coordenador da área de oncologia do Hospital das Clínicas da UFMG, que atua desde a década de 1990 em estudos sobre novas drogas de combate ao câncer, esteve envolvido no desenvolvimento de um medicamento para pacientes diagnosticados com tumor na próstata, um dos tipos mais incidentes em homens. O remédio Alpharadin já foi aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) ano passado, primeira etapa para colocar um novo medicamento no mercado.

 

Injetado na veia, o Alpharadin atua em casos em que o câncer de próstata apresenta metástase (quando células cancerosas se espalham pelo organismo), atingindo os ossos. Testado em mais de 900 pessoas, o medicamento impede a proliferação de células malignas e favorece a formação de células ósseas saudáveis. A expectativa é de que a droga seja aprovada no Brasil até o fim do ano. Conforme Murad, laboratórios estrangeiros têm buscado parcerias por aqui devido à burocracia das pesquisas em outros países, além, é claro, do avanço da medicina no país.

 

O hospital Biocor também investe em pesquisas de novos medicamentos. Uma das últimas drogas aprovadas é o Sorafenibe, usado para tratamento de tumores no fígado. “Sempre participamos de estudos para novos remédios contra o câncer”, explica Rodrigo Cunha Guimarães, coordenador da área de oncologia do hospital.

 

Outra importante fonte de pesquisas é o Centro de Quimioterapia Antiblástica e Imuniterapia (CQAI), que possui unidades de quimioterapia na Santa Casa e no Hospital Belo Horizonte. Lá, funciona o Centro de Estudos de Oncologia de Minas Gerais (CEOMG), que registra mais de 100 mil pesquisas sobre o câncer em BH, sendo que já formou mais de 100 especialistas que trabalham no país. Está em estudo a construção de um centro avançado em oncologia até 2015.

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