Ele não aguentou

por João Pombo Barile 04/04/2012 14:51

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Nereu Jr, Júnia Garrido e Geraldo Goulart
None (foto: Nereu Jr, Júnia Garrido e Geraldo Goulart)

“Fiquei três dias sem atender celular. Achei melhor desligar o aparelho. O pessoal tem ligado direto, até parece que perdi um parente. Estou com um astral horrível.” A frase do empresário Fábio Campos resume o clima de tristeza que invadiu a Savassi na última semana de março.

 

Funcionando há 15 anos no quarteirão fechado da Pernambuco, o Café da Travessa, dirigido por ele, não existe mais. Um dos mais charmosos espaços da cidade simplesmente desapareceu.
O fim da Travessa é apenas mais um capítulo da novela da reforma da Savassi. No enredo, que já se arrasta há mais de um ano e que acabou gerando o fechamento de mais de 10 lojas, os comerciantes do local não param de amargar prejuízos. Em janeiro, por exemplo, o bar Koyote e o restaurante Mulan também encerraram suas atividades. Apenas mais dois tristes exemplos.

 

“Esta reforma foi uma zona”, diz Marco Meyer, dono da livraria Sebo Comunicação, que também funciona no bairro. “Os quatro quarteirões da praça foram todos quebrados ao mesmo tempo. Mas reformados um a um. Além disso, as partes quebradas foram cercadas, dificultando o acesso dos clientes às lojas. E a sujeira? Até hoje está por todos os lados”, afirma, revoltado.

 

O empresário Fábio Campos, dono do Travessa, ao lado de fotos que registram a presença de pessoas ilustres no local: "Estou com um astral horrível”
 

 

A mesma revolta, aliás, de Sandra Souza, proprietária do Âtlantida Mergulho. “Nos últimos meses, tenho visto desaparecerem meus clientes. E o que é o pior: sem poder fazer nada”, afirma a empresária. “Sem lugar para estacionar e até sem calçada, o pessoal têm desistido de vir até minha loja”, constata Sandra, que viu o seu movimento ser reduzido pela metade.

 

A reforma começou em março de 2011, com previsão de durar um ano.  Como houve paralisação dos trabalhos no Natal − decisão que foi acordada com os comerciantes locais −, a data de término passou a ser maio, e a prefeitura garante que vai cumprir o combinado. O projeto incluiu a execução de serviços de drenagem e revitalização da rua Pernambuco, entre rua Tomé de Souza e Fernandes Tourinho; Antônio de Albuquerque, entre ruas Alagoas e Paraíba; e avenidas Getúlio Vargas e Cristovão Colombo, dentro do quadrilátero formado pelas ruas Alagoas, Paraíba, Tomé de Souza e Fernandes Tourinho. Além, é claro, das intervenções na praça, como alargamento e elevação das travessias, novo desenho de piso no cruzamento e extensão da praça nos calçadões. 

 

Nadim Donato Filho, do Sindilojas:  “Não tivemos nenhum tipo de ajuda para absorver os prejuízos”
 

 

O secretário municipal de Obras e Infraestrutura, Murilo Valadares, relativiza o grande barulho que alguns comerciantes do bairro fizeram ao longo de todos os meses. Segundo ele, a obra, que teve um custo de aproximadamente R$11 milhões e será entregue no final de maio, teve um ritmo de trabalho bastante aceitável. “Para melhorarmos a região é claro que teríamos, durante um período, algum tipo de transtorno.”, afirma.

 

Murilo se defende da acusação, feita por alguns donos de lojas da região, de que teria faltado diálogo entre a prefeitura e os comerciantes. “Durante praticamente todos os meses da reforma, eu me reunia com os interessados no próprio canteiro de obras”, diz o secretário. Para o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Belo Horizonte (Sindilojas), Nadim Donato Filho, a prefeitura  não deu importância para os prejuízos do comércio da região. “Não tivemos nenhum tipo de ajuda financeira para tentar absorver os prejuízos”, conta. “Continuamos pagando IPTU do mesmo jeito. A coisa está ruim e ainda pode piorar”, reclama Nadim.

 

Alessandro Runcini, da CDL: “Estamos assistindo a um processo de especulação imobiliária perigoso"
 

 

Depois da quebradeira, a especulação. A valorização do metro quadrado do bairro começou desde o anúncio de que a região seria revitalizada. E só tem piorado nos últimos seis meses. Para todos os comerciantes, este será o problema central dos próximos meses. O motivo principal, aliás, do fechamento da Travessa. “Já pagava, há dois anos, R$20 mil por mês de aluguel. Um valor muito alto, ainda mais depois que começou a quebradeira”, afirma Fábio, que foi pego de surpresa com uma ação de despejo quando se preparava para investir na sua loja. “Os donos dos imóveis da Savassi enlouqueceram. Onde eles acham que estamos? Em Manhattan?”, ironiza. 

 

“Os preços há dois anos estavam muito baixos e até defasados. Com as obras, algum reajuste já era esperado”, conta o presidente do Conselho da CDL Savassi, Alessandro Runcini, que trabalha e mora na Savassi há mais de 15 anos. “Agora, não dá para negar: estamos assistindo a um processo de especulação imobiliária perigoso: uma valorização muito abrupta e que poderá ser um gol contra comercialmente para a região”, afirma. A preocupação de Nadim não é diferente.

 

“Acho que estes reajustes estão acontecendo na hora errada. Ninguém ainda sabe que tipo de comércio vai vingar na Savassi. E não podemos nos esquecer: quem paga o aluguel das lojas, ainda que indiretamente, é o consumidor. Os especuladores poderão mesmo acabar quebrando a cara”, finaliza.

 

Virou um retrato na parede

 

A Travessa vai deixar saudades. Ponto de encontro de intelectuais, jornalistas, empresários e profissionais liberais, o local era um dos mais disputados endereços para curtir o fim de tarde da cidade. No Mezanino, que funcionava na sobreloja do bar, aconteceram alguns dos melhores encontros musicais da cidade da última década. Em 2010, o bar passaria por uma reforma. E deixaria, então, de abrigar a livraria, que foi transferida para outro endereço. Permanecem lá, porém, os shows de chorinho e roda de samba.

 

“A Travessa era um ponto de encontro de amigos, namorados, amantes, famílias. E agora, não existe mais. Nem um retrato na parede vai sobrar da Travessa. Afinal de contas, tem que ser assim − a BH de hoje parece que não preza os legítimos prazeres da vida. E, como sempre, desmarca os possíveis e alegres encontros”, afirma o roteirista de cinema e televisão Carlos Alberto Ratton que, durante mais de dez anos, foi um dos mais fieis frequentadores do local.

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