A memória da escola

por Patrus Ananias 04/04/2012 11:02

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Sou de um tempo em que tínhamos escolas públicas da melhor qualidade no Brasil. Com exceção de um ano, sempre estudei em escolas públicas. Tive no antigo curso primário, no Grupo Escolar Coronel Fulgêncio, de Bocaiúva, professoras inesquecíveis: Dona Maroquinhas, Dona Ana, Dona Irene, Dona Dila, Dona Dinah – nossa esplêndida diretora. Graças a essas profissionais, tínhamos uma relação amorosa com a língua-pátria – na época era assim, dessa forma acolhedora, que estudávamos o “português” –; desenvolvemos bons conhecimentos de matemática, ciências, história e geografia do Brasil e do mundo.

 

Elas sabiam transmitir bem o que sabiam e, sobretudo, o faziam com prazer e alegria. Davam muito afeto. Exerciam uma autoridade atenta e carinhosa. Quando concluí o quarto ano primário, aos 10 anos, era uma pessoa alfabetizada e interessada nas coisas do mundo. Havia também uma vigorosa dimensão cívica na escola; desenvolvíamos, nas aulas, um bom sentimento de pátria, sem um caráter autoritário – não era a educação moral e cívica dos tempos da ditadura. Alcançávamos uma ideia de pertencimento a um lugar e o hábito instigante das professoras de contar histórias ao final da aula nos abria a imaginação.

 

O admirável escritor Bartolomeu Campos de Queirós, que há pouco nos deixou, deu-nos uma obra maravilhosa que incorpora, entre outras dimensões, o melhor do memorialismo. E, em sua memorialística, a escola ocupa um lugar privilegiado. É o centro da vida comunitária, uma extensão da família. Enfim, um lugar onde se aprende a ler, escrever, pensar, mas também a conviver e respeitar.

 

Bartolomeu soube expressar como poucos o papel da escola como um lugar de descobertas e de respeito ao desenvolvimento de cada um. Deixou belos registros, por exemplo, em Ler, Escrever e Fazer Conta de Cabeça, como esta citação: “Assim, sem alarde, a escola ia nos ensinando a liberdade de ser muitas coisas, apagando o medo de não vencer o depois”.

 

Mas, infelizmente, essa liberdade não era para todos e todas. A escola de qualidade apenas parcialmente acolhia os pobres. Quando muito, até o “primário”, que hoje equivale às cinco primeiras séries do ensino fundamental. Lembro-me de dois colegas, Fernando e Gilberto, que andavam descalços e, quando concluímos o primário, eles não seguiram, como eu segui, para o ginásio, por conta de razões econômicas. E assim acontecia com tantos outros.

 

Hoje temos o acesso à educação básica pública bem mais alargada, quase universalizada. Mas precisamos recuperar essa vigorosa dimensão libertária de um ensino de qualidade, porque é um meio fundamental de apoiar as novas gerações e combater as desigualdades do país.

 

Os dados estatísticos mostram que, quando surgem oportunidades por meio de políticas públicas, as pessoas agradecem e aproveitam. Isso vale para todas as idades, e podemos comprovar com os resultados do Prouni, vendo o quanto jovens pobres têm se empenhado e se destacado no processo de formação universitária, superando muitas limitações. Mas é fundamental que o apoio seja integral e comece antes, desde a formação básica.

 

O desafio que se coloca para o Brasil é assegurar direitos e oportunidades iguais para todas as nossas crianças e jovens. A educação, além de um meio necessário para assegurar uma vida decente, torna-se também um fim que se articula diretamente com o desenvolvimento da pessoa e da comunidade. Possibilita o exercício do pensamento, da reflexão e da criatividade. Articula-se diretamente com os campos da cultura, das artes, da liberdade e da cidadania.

 

Precisamos recuperar a qualidade das antigas escolas públicas e, agora, articulando com o propósito de que elas se estendam a todos e todas. Só assim vamos consolidar e expandir a democracia e o desenvolvimento no Brasil.

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